Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

14  08 2010

O reacendimento

No princípio da semana choveu cinza em Queluz. O horizonte para norte estava amarelo do fumo do incêndio no Sabugo, contrastando com o céu azul e sem nuvens de um dia quente de Agosto. Com três frentes simultâneas e num local onde já houve outros incêndios nos últimos anos, não é preciso muito esforço para adivinhar a sua origem.

Com umas centenas de homens a algumas aeronaves ou, como agora insistem em chamar-lhes, meios aéreos, o incêndio foi contido e apagado no mesmo dia.

Reacendimento
Dois incêndios no mesmo local com dois dias de diferença

Um par de dias volvidos, num dia mais fresco e um pouco encoberto, o incêndio apagado reacendeu-se misteriosamente ao final da tarde. Graças à falta de escrúpulos de uns quantos, todos ficam sem mais um pedaço de floresta…

Como parece que ainda não ardeu tudo, aceitam-se apostas para a data da próxima visita dos incendiários.


13  08 2010

Chulipas, creosote e tire-fonds

Cresci perto de uma linha de caminho-de-ferro movimentada, com os combóios a fazer parte da vida desde pequeno. Das memórias mais antigas que tenho, é estar na estação de Torre da Gadanha, perto de Montemor-o-Novo. A fazer o quê só sei o que me contam, mas o certo é que já lá voltei e de imediato reconheci os cheiros da infância.

O creosote com que se impregnam as chulipas tem um cheiro característico, a que associo sempre aos combóios. Tal como o barulho que o balastro faz quando se caminha na linha, com as pedras a ajeitarem-se sob o nosso peso.

Tire-fonds
Tire-fonds na estação de Vale do Peso, Crato

Hoje em dia, as chulipas de madeira, corruptela fonética de sleeper, estão a ser substituídas por dormentes de betão, de mais fácil manutenção e mais adequados às velocidades elevadas dos combóios modernos. Aliás, de há uns anos para cá, a tecnologia ferroviária evoluiu muito e quase se pode dizer que a única coisa que se manteve foi o facto de os combóios ainda circularem sobre carris.

As travessas de madeira não perderam totalmente o seu préstimo, porque ainda são indispensáveis, pela sua flexibilidade e adaptabilidade, na montagem de aparelhos de mudança de linha.

Perdeu-se o cheiro e os tire-fonds, porque agora usam-se porcas e pernos roscados, mas ficou o barulho do balastro e a magnífica cor da ferrugem dos carris.


12  08 2010

A prova do crime

Por embirração, quase de certeza, é proibido sair de Angola com Kwanzas no bolso, tal como a proibição de tirar fotografias na via pública, ainda enraizada nas mentes de polícias, soldados, fiscais e arrumadores de automóveis.

Terá sido certamente uma imposição dos tempos da guerra civil, para evitar que se falsificassem notas no estrangeiro para minar a economia angolana. Por via das dúvidas, o dólar americano sempre foi tido mais em conta e o kwanza, com as suas desvalorizações sucessivas, usa-se para os trocos.

As actuais notas de kwanza têm várias marcas de segurança que as tornam mais difíceis de falsificar que os próprios dólares e, como em mais lado nenhum do mundo se pode cambiar kwanzas, é um pouco estranho como não se pode levar algumas notas de recordação.

É compreensível que haja limites para a exportação de divisas, não se percebe em que afecta a economia angolana levar umas moedas no bolso. O mais ridículo é que, se por acaso levarmos kwanzas e nos esquecermos de os declarar no balcão à entrada do aeroporto, são-nos confiscados pelos agentes da autoridade, que só não os põem logo no bolso porque é preciso manter as aparências. Para evitar este enriquecimento ilícito dos polícias, teria de se emitir, no mínimo, um documento que comprovasse a retenção do dinheiro e que permitisse controlar os montantes apreendidos. Mas isto é outra história.

A verdade é que uma ou outra nota vai saindo, evitando as malhas do fundo de maneio dos polícias da fronteira.

Como têm um valor simbólico, acabam por aparecer nos sítios mais esquisitos. Encontrei uma numa geocache, deixada como presente para troca. É a prova do crime.

Nota de 10 kwanzas
A prenda da geocache


11  08 2010

Angola em fotos: Rua Artur de Paiva

Apesar de muitas ruas terem mudado de nome após a independência, há toponímia que, estranhamente, resiste ao tempo, como a de Artur de Paiva, figura que representa o colonialismo oficialmente odiado.

Rua Artur de Paiva
Rua Artur de Paiva, no Huambo


10  08 2010

Triste sina

As estradas do interior, agora em muito bom estado quando comparadas com as de há uns anos, são a minha primeira escolha quando toca a percurso. Grande parte delas segue as rotas traçadas por centenas de gerações, contornando montes, atravessando os rios perto dos antigos vaus. As estradas mais modernas não se adaptam ao terreno, conquistam-no com pontes, aterros e cicatrizes profundas na paisagem. Levam as pessoas mais depressa de um ponto ao outro, mas a magia da viagem perde-se.

Não quero com isto dizer que as estradas antigas é que são boas e que as novas me aborrecem, porque se há alturas em que posso apreciar a paisagem e fazer uma viagem mais demorada, noutras tenho de chegar ao destino depressa.

As estradas secundárias também têm outra faceta. Infelizmente para a vida selvagem, o meio de transporte moderno é o automóvel, que anda muito mais depressa que qualquer carro de tracção animal ou peão. Um encontro com um pára-brisas ou uma roda termina quase sempre com a morte do bicho. Como estas estradas são cada vez menos concorridas, os animais tornam-se mais afoitos e os atropelamentos são frequentes.

Pássaro morto
Uma baixa

Os pequenos mamíferos selvagens são um caso preocupante. Raposas, ginetas e texugos encontram a morte todas as noites nas estradas mais isoladas. Encadeados pelos faróis, param na estrada e os condutores, umas vezes por falta de reacção e outras por maldade, atropelam-nos.

Texugo-cão
Texugo-cão

Neste fim-de-semana passado no Alto Alentejo, para além dos incontáveis pássaros, encontrámos também um texugo-cão na berma. Tinha sido atropelado nessa madrugada. Os texugos formam casais estáveis ao longo de toda a vida, pelo que a morte de um, pode significar um ano sem ninhadas para o outro.


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