25
07
2010
Sempre achei que é bom sinal quando um país anda longe das bocas do mundo. Como os jornais só noticiam o anormal ou a desgraça, porque da normalidade todos estão cansados, ao passar despercebidos dos meios de comunicação social conoto de imediato certos países com sossego e estabilidade.
A recente visita a São Tomé serviu para comprovar isso mesmo. A ausência de notícias reflectia uma terra calma, sem problemas sociais ou políticos inauditos. Mesmo em tempo de eleições, com muito mais confusão que o costume, garantiram-me, senti que não haveria realmente muito a noticiar nos jornais estrangeiros acerca daquela ilha no equador.

Instituições Santomenses
Um Santomense confidenciou-me que a imagem de país de brandos costumes é verdadeira e até o facto político mais importante dos últimos anos, o golpe de estado de 2009, ficou conhecido no país como o golpe de estado democrático, porque voltou tudo ao mesmo no dia seguinte, com pessoas que só souberam que tinha acontecido depois de ter acabado. Os revoltosos aproveitaram a viagem do Presidente, deram uns tiros para o ar e prenderam algumas pessoas. No dia seguinte renderam-se. Nada mudou e a vida decorreu como se nada se tivesse passado.
24
07
2010
Nos tempos que correm, os dias são vividos a correr, o tempo é pouco para as inúmeras tarefas que temos pela frente… começamos a ficar loucos e não conseguimos vencer esta luta que travamos contra o tempo. A seguir começam as sensações de desânimo, frustação e impotência… o tempo não chega para tanta coisa que temos de realizar e cumprir.
Chama-se a isto stress! E todos sabem do que falo.
Entretanto muitos, podem pensar que coisa tão contraditória com o título, e é bem verdade.
Foi a mesma sensação que tive quando pude viver uma semana a este ritmo de leve-leve tão característico dos São Tomenses.
Leve-leve dizem entre si quando se cumprimentam.
Vivem de maneira a aproveitar cada minuto, cada amigo, cada copo e cada conversa.
Vivi uma semana contagiada por esta máxima, pude aproveitar a companhia, a paisagem, as pessoas… deu para esquecer tudo o que deixei pendente para resolver.
É nestas pequenas coisas que por vezes parecem tão banais e sem significado que nos apercebemos daquilo que vamos perdendo e da riqueza que muitos povos têm.
Como devemos aprender com os melhores, desejo a todos um dia bem leve-leve.

Sem stress
23
07
2010
Cemitério de locomotivas, na estação dos CFB do Huambo.
22
07
2010
Desde há muitos anos que é tradição familiar enviar postais ilustrados dos locais de férias, não só aos amigos mas também a nós próprios. Na maioria das vezes são enviados nos últimos dias de férias, para que os possamos receber em casa, em jeito de remate da viagem. Alguns demoram tanto tempo que só nos lembramos deles no dia em que os recebemos. Outros, felizmente poucos, nunca chegam.
A visita a São Tomé cumpriu a tradição e enviámos um postal a nós mesmos, com um selo alusivo à visita Papal de 1995 ao Papa João Paulo II deveras curioso. Uma vez que a língua oficial de São Tomé e Príncipe é o Português, a única razão que encontro para que parte do selo esteja escrita em Inglês é para homenagear o Papa, poliglota de renome.

Selo poliglota
Em termos de rapidez de entrega, nada há a apontar. Dois dias úteis da linha do equador a Lisboa.
Adenda: João Paulo II visitou São Tomé e Príncipe em 1992, e regressou a África em 1995, desta feita não chegando a visitar a ilha. A sua morte em 2005 ditou a emissão do selo em 2006.
O símbolo CEPT representa a Conferência Postal Europeia, criada em 1959 e da qual São Tomé e Príncipe não é membro por razões óbvias.
21
07
2010
A estrada nacional nº2 liga a cidade de São Tomé à aldeia de Porto Alegre. São cerca de sete dezenas de quílómetros repartidos por muitas curvas e um piso em mau estado que fazem da viagem um passeio de quase três horas.
Ao longo do caminho cruzamos algumas povoações com as suas modestas casas de madeira que não descuram pormenores decorativos como balaústres no alpendre ou portadas pintadas. Os edifícios das roças surgem espaçados à medida do tamanho das antigas propriedades. Algumas estão completamente abandonadas, apenas com as sanzalas ocupadas e os restantes edifícios em ruínas.
Uma das maiores roças da ilha, a roça de Agua-Izé, que ainda mantém grande parte das estruturas de pé, tinha até caminho-de-ferro próprio para transportar o cacau da fermentação para os secadores e destes para os armazéns, fica a pouco quilómetros da capital. Muito próximo da sede da roça, na costa, fica um acidente geológico invulgar, a Boca do Inferno.
A Boca do Inferno é um pequeno canal que foi erodido pelo mar numa massa de rocha basáltica originária numa das muitas erupções vulcânicas que formaram a ilha. Devido à sua forma peculiar e à maneira como as ondas são canalizadas num crescendo de espuma ganhou o nome e a fama de sítio perigoso, associado ao demónio.
A lenda que associa este lugar à Roça de Agua-Izé assenta exactamente na maldade, pois dizem que um dos antigos proprietários era tão mau, que quando partia de férias não ia de barco, montava a cavalo e desaparecia pela Boca do Inferno. O seu nome perdeu-se no tempo, mas da fama não escapou.

Boca do Inferno