Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

08 2009

Pelo prazer das coisas

Julgo que a minha veia masoquista não esteja lá muito desenvolvida, porque gosto de fazer as coisa pelo prazer que me dão. O Aerograma é uma delas. É certo que deixou há muito de ser apenas para a família e os amigos, e agora se destina também aos amigos que nem sabia que tinha, aqueles com quem partilho memórias ou somente pequenas histórias.

Mas há alturas em que uma sucessão de visitas inoportunas me deixa a pensar se vale ou não a pena escrever para depois levar nas orelhas. A partir de certa altura deixa de ser por gosto e passa apenas a ser por teimosia. Felizmente que tenho sempre uns dias de artigos programados e posso parar de escrever até que a frustração passe.

Um ou outro comentário com os argumentos do costume ainda se atura, mas ser insultado permanentemente apenas porque expressei a minha opinião é um pouco excessivo. Há pessoas que ainda não perceberam que um blog é apenas mais uma forma de cada cabeça dar a sua sentença. Em nenhum momento me considerei arauto da verdade ou fonte fidedigna de informação sobre Angola. Se não gostam das minhas opiniões, têm bom remédio. Afinal de contas, há por aí tanto blog ignorado a precisar de atenção. Não têm nada contrutivo para comentar? Então guardem o insulto no sítio que melhor entenderem e não chateiem.

Curioso, é que a grande maioria destes comentadores que insultam, achincalham e ameaçam ao abrigo do anonimato da internet têm endereços estrangeiros. Suspeito que seja uma grandessíssima dor de cotovelo que os motiva a insultar um emigrante na sua terra quando são eles mesmos emigrantes em terra alheia. Se pensassem um pouco, saberiam que não lhes estou a tirar o lugar, nem a roubar o de nenhum outro angolano. E, se procurassem saber o que faço, perceberiam que a minha principal função é formar quadros angolanos. Tenho-a cumprido e, se tudo correr bem, continuarei a fazê-lo por mais uns meses, até porque ensinar é outra das coisas que me dá prazer.

Como não vivo num casulo lá para os condomínios de luxo e tenho o privilégio de ter mais colegas angolanos que estrangeiros, sei que os angolanos não são como os que comentam querem fazer passar. São gente boa que gosta de conversar sem complexos.

Andava um pouco angustiado com a vontade que tinha de mandar tudo à fava, no meio de muitos palavrões escritos em letra garrafal, mas isso seria um prazer momentâneo, nada construtivo. Sentir-me-ei muito mais realizado continuando a escrever sobre o que muito bem me apetecer e da maneira que me aprouver. É isso que me dá prazer!


08 2009

O Fantasma da Nestlé

O abandono do posto de trabalho é tão frequente em Angola, que quase podemos considerá-lo uma instituição. A avaliar pela quantidade de editais publicados nos jornais, quase em número superior ao dos anúncios de passaportes chineses extraviados, a assiduidade não é uma característica cultivada.

Não sei se será dos maus salários ou da desilusão com as funções desempenhadas, mas o certo é que há um dia em que os laços que prendem o trabalhador à empresa se rompem e ele não aparece mais, sem sequer avisar.

Ao fim de algumas faltas injustificadas, a empresa salvaguarda-se iniciando um processo de despedimento por abandono do emprego. Publica um anúncio no jornal e espera alguns dias até que o trabalhador apareça. É quase certo que não aparece, até porque com tantas faltas, o vencimento será ainda mais pequeno que o habitual.

As empresas maiores costumam publicar todas as semanas grandes listas de nomes de empregados faltoso, quase como se este acto extraordinário fizesse parte do procedimento normal.

Quem pensa que este fenómeno se restringe apenas aos níveis mais baixos, desengane-se. Por vezes pede-se a comparência de directores de casas cambiais ou agências bancárias. Nestes casos, suspeito que tenham desaparecido ao mesmo tempo que aquele grande saco de dinheiro.

Mas, às vezes, a publicação do edital quase parece excesso de zelo. A sucursal angolana da Nestlé resolveu iniciar o processo de despedimento com justa causa ao seu trabalhador fantasma. Parece que se ausentou duas semanas consecutivas sem avisar ninguém.

fantasma
in: Jornal de Angola

Se calhar, este é um edital se-te-serve-a-carapuça. Os trabalhadores que se revirem no texto preenchem o seu nome no espacinho entre os parágrafos e remetem para a Nestlé. Na volta do correio recebem um chocolatinho e ficam com a consciência tranquila para procurar o próximo emprego.

Outra possibilidade é que o trabalhador em causa seja precisamente aquele que escreve o nome nestes editais…


08 2009

O sotaque dos gestos

Para além das diferenças óbvias entre os vários povos, quer sejam ao nível da cor da pele, formato do nariz, cabeça ou olhos e até mesmo a língua com que comunicam entre si, há pormenores mais subtis que se vão descobrindo serem mais importantes para definir a identidade de um povo que os outros, mais evidentes.

Aprender uma língua nova não é das coisas mais difíceis do mundo. Desde que se queira exercitar o cérebro, aprende-se o suficiente para comunicar, ainda que de forma um pouco hesitante, com outros povos. Com um pouco mais de trabalho, poderemos chegar mesmo a ser fluentes e, cúmulo do orgulho vão, esconder o sotaque que nos denuncia a origem.

Mas há coisas que só se aprendem quando vividas desde sempre. O banho cultural em que somos imersos à nascença molda-nos os gestos e a mente muito antes de nos moldar a língua. Não há coisa mais ridícula que um ocidental convertido ao Budismo. Em teoria, poderá saber tudo acerca do misticismo que rodeia a religião, mas, na verdade, falta-lhe toda a bagagem cultural que apenas se consegue nascendo e crescendo no seio do Budismo.

As gaffes cometidas pelos estrangeiros são tanto mais embaraçosas quanto o grau de conhecimento têm da cultura que os acolhe. Que se recuse um convite quando se devia aceitar ou que se troque o género às palavras é de esperar de um recém-chegado, mas quando o estrangeiro residente usa o gesto errado, gera-se um mal-estar esquisito, porque ele já devia saber o suficiente para não o fazer. Os trocadilhos, os gestos das mãos, o movimento da cabeça e as regras sociais são a segunda língua que também tem de ser aprendida para que se consiga compreender os outros.

Em Angola, apesar de se falar a mesma língua que em Portugal, a linguagem corporal é completamente diferente daquela com que cresci. Alguns gestos que tomamos por universais na Europa, aqui são quase de outro planeta. Para pedir boleia, por exemplo, ainda não vi ninguém esticar o polegar. O gesto angolano consiste em levantar o braço à altura da cara e, com o indicador esticado, desenhar pequenos círculos apontando para o chão, como quem mexe uma pequena panela no ar.

De norte a sul do país, mesmo entre os que apenas falam um das muitas línguas nacionais, há uma série de gestos que fazem parte do código de emoções universal dos angolanos. Mesmo sem falar, conseguem perceber o estado de espírito do outro.

A prova de que a linguagem corporal é mais forte que a língua é que perdura mais. As segundas gerações em cada país começam por perder a língua dos pais, mas a linguagem do corpo ainda se conserva na terceira geração, sob a forma de pequenos gestos ou interjeições. É curioso tentar adivinhar as origens de alguém pelos seus gestos. É quase como tentar identificar um sotaque, mas agora na língua que o corpo fala.


08 2009

A festa do terraço

Há fins-de-semana em que o descanso se revela um pouco mais complicado que o desejado. O prelúdio da festa é uma Quinta-feira demasiado sossegada, quase como uma inspiração profunda para ganhar folêgo que chegue para o fim-de-semana que se avizinha.

Ao final da tarde de Sexta-feira começam a ouvir-se os primeiros testes às colunas, com os sucessos do momento. À medida que a noite avança, o volume vai subindo e os ritmos variando. O engarrafamento da hora de ponta que começou logo a seguir ao almoço é substituído por carros e motas que percorrem as avenidas a alta velocidade, ignorando peões, semáforos e cruzamentos. Quem tem o azar de dormir com janela para o lado errado, pode começar a fazer contas de dormir até mais tarde no dia seguinte ou de fazer umas sestas a meio da tarde.

No auge da festa, conseguimos ouvir a música vinda de dois ou três terraços nas redondezas, que geram uma cacofonia potente ao ponto de fazer estremecer as vidraças. Com sorte, não abusam dos baixos e não temos a sensação de que nos estão a fazer vibrar as entranhas também.

Um dos nossos amigos angolanos, reclama do barulho das festas lá no bairro. Trabalha de dia e estuda de noite. Quer dormir, mas não consegue. Hoje, eu também não, e pelas mesmas razões. Quando lhe perguntamos se não pode chamar a polícia, ri-se «Isto não é Portugal, Afonso!». «Só chamas a polícia por causa do barulho da festa quando não és convidado,» acrescentou logo o M. «se estás na festa, não te incomoda.»

E depois, fiquei a saber, chamar a polícia não é garantia de que a festa acabe. Quase sempre, os polícias ouvem o argumento de que está quase a terminar e, já agora, porque não levam uma ou duas grades de cerveja ou gasosa? Imagino já o negócio de alguns, correndo as festas mais animadas e coleccionando grades de cerveja enquanto esperam que o barulho acabe…

O programa desta noite incluíu uma hora dedicada exclusivamente a Michael Jackson, mais concretamente, das duas às três da manhã. Antes disso, misturas de Madonna com kizomba e muitos batuques electrónicos para abanar o esqueleto ou roçar corpos. Um concerto de rateres oferecido pelo vizinho atencioso do costume, com a sua adorável mota, fez parte do acompanhamento. A variedade musical foi diminuindo até às cinco, altura em que se ouviu um tiro. A festa acabou, vá-se lá saber porquê. Vou-me deitar.


08 2009

Noite à Portuga

As festas de Luanda começam a meio da tarde de Sexta-feira. É uma tradição instituída em tempos remotos e faz parte da cidade. O ritmo do trabalho adapta-se a esta situação sem grandes problemas, uma vez que já se sabe que não se deve contar com problemas resolvidos a poucas horas da festa começar.

Muitos trabalhadores não voltam do almoço e partem directamente para casa. Há grades de cerveja, gasosas e carvão para comprar, e é preciso chegar lá antes que os outros. O trânsito, como seria de esperar, piora muito mais cedo. Mas a consolação é que também melhora antes do fim do dia.

Nos terraços dos prédios começam a ouvir-se os primeiros testes aos sistemas de som com o cair da noite. Pouco a pouco, as pessoas chegam das redondezas se a festa for modesta, ou de toda a parte se for uma das grandes festas, com direito a cartazes ou anúncios na rádio.

As festas, rav’s ou noites disto e daquilo ocorrem pela cidade toda, em fundos de quintal, largos mais recatados ou nos terraços maiores. Prometem música e muita cerveja, mas, acima de tudo, são locais de engate. Se é verdade que as mulheres casadas dormem sozinhas na noite de Sexta, as solteiras terminam o dia vestindo a roupa mais provocante que encontram e dirigem-se para as festas, onde têm entradas mais baratas ou até mesmo de borla.

Os cartazes que anunciam as festas costumam ter nomes e fotografias sugestivas, quase sempre de rabos de mulheres. «Noite da saia curtinha», «Rav do calção malandro», «Festa do fio dental», «Festa da chucha» ou «Noite do Bumbum arrebitado» são alguns exemplos que me vêm à memória.

Uma destas festas semi-famosas, que tem direito a cartaz mas não chega à categoria de anúncio na rádio, foi a Noite à Portuga. Só o nome deixou-me curioso. O que distinguirá esta das outras dezenas de festas naquele bairro? Talvez servissem vinho tinto em vez de Cuca ou passassem música pimba em vez de kizombas, kuduro e sembas, ou talvez mesmo tenham como decoração brancos gordos de bigode a beber cerveja e a despir com os olhos as angolanas que já vão quase nuas. Agora que penso nisto, é uma imagem demasiado decadente, ver aqueles olhos brilhantes colados aos decotes das raparigas enquanto dão cotoveladas nas barrigas uns dos outros e murmuram coisas como «Tu viste-me bem aquele par de mamas?».

Mas o cartaz também ajuda a perceber a imagem que os angolanos têm de Portugal. Pelos vistos, as minhotas, debaixo de todas aquelas camadas de fios de ouro, panos pretos e vozes esganiçadas, envergam uma espécie de lingerie típica, que nada tem a ver com a ideia que temos de folclore. Bom, talvez o folclore de algumas ruas holandesas seja assim.

Cartazes de festas
Noite à Portuga

Mas o pormenor que me deixou de boca aberta foi ver a Coroa Real a encimar a esfera armilar. Parece-me que estão a anunciar uma festa com 99 anos de atraso…


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