Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

08 2009

Cadê a caixa-d’água?

Em Luanda, as situações excepcionais repetem-se tantas vezes, que passam a ser habituais e as soluções provisórias têm o condão de se transformar em definitivas. Os geradores e os depósitos de água, comida e combustível fazem parte da vida na cidade e ninguém acredita que são apenas medidas de recurso. Afinal de contas, são absolutamente necessárias.

Cada estrangeiro que se depara com estas contingências da vida em Luanda procura, em primeiro lugar, tentar perceber como os mesmos problemas seriam resolvidos no seu país. A excepção são os que vivem nas suas bolhas que os isolam da vida em Luanda.

Facto curioso, quase todos os brasileiros com quem me cruzei reclamam da incompetência dos portugueses do tempo colonial porque não instalaram depósitos de água no telhado dos edifícios e agora toda a gente tem de ter bombas. Antes de responder, pergunto porque haveriam eles de ter feito isso e aproveito para aprender mais um pouco. Expõem-me todas as vantagens do sistema para quando falta a água e que no Brasil é muito comum usar-se.

Não posso culpar os portugueses de há quarenta anos de falta de visão. Luanda não foi sempre assim, a dada altura teve infra-estruturas previstas para meio milhão de habitantes. Os depósitos elevados construídos eram suficientes para abastecer a cidade sem falhas. Na época colonial não havia necessidade de ter depósitos e cisternas em casa porque a água não tinha por hábito ausentar-se para parte incerta como depois veio a ser a norma. Hoje em dia, a rede de águas está em mau estado, mesmo com as recentes obras de modernização, e os depósitos existentes, para se manterem cheios, precisam da energia eléctrica que continua a falhar. Aos poucos, a situação vai melhorando. Esperemos que o espectáculo dos depósitos de água desapareça da paisagem urbana da cidade, nem que seja por economia de recursos.


08 2009

O Museu Arquitectónico

Luanda, apesar do trabalho incansável das escavadoras que todos os dias fazem cair mais um edifício, continua a ser um verdadeiro museu arquitectónico. O núcleo da cidade só começou verdadeiramente a ser atacado pela febre da torre de vidro depois da guerra terminada. Até lá, três décadas ficaram suspensas, num limbo incómodo.

Cinema União
Antiga União Comercial de Automóveis

A cada esquina vemos, debaixo de uma camada de pó e riscos escuros deixados pelas águas que escorrem pelas fachadas, exemplos do que foi uma cidade da década de 1970. Nem mesmo as cicatrizes das máquinas de ar condicionado retiradas ou as emendas feitas com os materias possíveis conseguem esconder a traça original de alguns edifícios.

Letreiro Pepsi-Cola
Nos Coqueiros

Como, durante anos, a principal preocupação foi garantir um tecto e não cuidar da aparência das fachadas, grande parte dos letreiros que marcavam negócios do tempo colonial foram resistindo. É curioso poder circular em Luanda com as referências de duas épocas. Mesmo que falte uma ou outra, depressa sabemos onde estamos apenas com as memórias fragmentadas dos que deixaram a terra com a independência ou com os que descobriram a cidade agora mesmo.

Prédio Totobola
Ponto de referência

Os kaluanda também sentem que a memória da cidade está a desaparecer demasiado depressa, esmagada pelas torres que simbolizam os dólares que saem das entranhas de Angola, mas que não trazem benefício para os angolanos. As suas vozes começaram a fazer-se ouvir, e parece que já fizeram efeito. Foi aprovada legislação que limita a altura dos edifícios a construir na cidade. Não se sabe é quantos projectos de arranha-céus estão já autorizados. Mas é um passo no sentido certo. Diminuindo o rendimento potencial, há menos incentivos para que se destrua mais um pedaço da cidade. No entanto, sou o primeiro a reconhecê-lo, a maioria dos edifícios está mais que condenada, mesmo que cheios de significado. Só por milagre ainda não se esboroaram.

Hotel Atenas
Negócio desaparecido

Nos dias em que passamos mais tempo no trânsito e Luanda se parece com um Purgatório onde expiamos os pecados de que alguns nos acusam, o único consolo é procurar coisas novas nas fachadas conhecidas. Nunca se sabe quando aparece uma mãe à janela para estender roupa colorida ou reparamos no letreiro sujo que já foi símbolo de prosperidade para alguém.

Globo Impor-Expor
Na Marginal

Há dias em que dou por mim cheio de vontade de andar pelas ruas a fotografar todos os recantos, nem que seja porque o trânsito me impede de lá voltar tão depressa quanto gostaria para apreciar os pormenores condignamente. Depressa caio em mim. Neste Museu é proibido fotografar


08 2009

Concorrência desleal

Antes de começar, aviso desde já que este artigo não é para ser tomado à letra. Liguem o vosso filtro de humor negro, por favor.

 

Cá vai!

Segundo algumas vozes iradas, sou o pior inimigo dos animais em geral e dos cães em particular. Deleito-me a vê-los sofrer e, quando dou guinadas para os atropelar, solto risadas maléficas e estridentes, com os olhos raiados de sangue. Só de imaginar, comecei a salivar…

Rafeiro procura comida no lixo e na lama
Rafeiro de Luanda

Nem me vou dar ao trabalho de o negar, porque quem me conhece sabe que seria incapaz de maltratar um bicho, mas os que julgam que sou, nunca irão acreditar no desmentido.

Depois de me darem a conhecer esta minha veia sádica canina, resolvi capitalizar ao explorar um mercado pouco conhecido. Com base na minha fama, requeri uma licença ao Governo Provincial de Luanda para os direitos exclusivos do acto. Como se atropelam centenas de cães em Luanda todos os dias e não tenho capacidade de acudir a todas as situações, resolvi iniciar um sistema de franchising. Por cada cão atropelado na província de Luanda, receberia uma comissão de 10 Kwanzas, 15 se for um candongueiro a fazê-lo. O esquema tinha tudo para funcionar, mas ainda não vi uma única notinha. Parece que as provas do acto desapareciam misteriosamente.

Agora já sei porquê. A concorrência desleal de alguns dá-me cabo do negócio. Isto de ter congoleses a vender as provas ao quilo tem muito que se lhe diga…

Galinhas amarradas
Quase no churrasco

 

O filtro de humor negro pode ser desligado. Obrigado!


08 2009

Fé no Google

Não acontece todos os dias, porque as pessoas estão cada vez mais habituadas a lidar com o mundo digital, mas, por vezes, sou surpreendido pela fé que algumas pessoas têm nas capacidades mágicas do Google.

Para além das pesquisas por receitas de beringela ou angolanas nuas, de vez em quando há quem venha dar ao Aerograma por vias estranhas. Desta vez, de Famalicão, alguém quis descobrir o negócio perfeito e perguntou ao Google se conhecia uma empresa que não exista em Portugal e que dê dinheiro.

Pesquisa no google
“empresa que nao haja em portugal e que dava dinheiro”

Sinceramente, se alguém soubesse a resposta, não dizia!

São incríveis os termos de pesquisa usados e mais incríveis ainda são as maneiras como as pessoas julgam que os motores de pesquisa funcionam. Infelizmente, foram desenhados por engenheiros e para engenheiros. A adaptação completa ao vulgar utilizador ainda está para ser conseguida, ou então, o analfabetismo funcional está mais espalhado do que julgamos.

Algumas destas pesquisas são verdadeiras pérolas e merecem ser exploradas, mas não se enquadram no assunto do Aerograma, do Mumba, banana e cola ou ao Não gosto de ervilhas, tal como o exemplo deste artigo.

Os autores destes três espaços juntaram-se e lançaram um novo projecto, que não é para levar a sério, entitulado Para perguntas parvas…, onde exploram as dúvidas anónimas com que nos descobrem.


31  07 2009

17-05-70

M.D. nasceu em Vila Salazar, mais ou menos por volta da altura em que a guerra colonial começou. Cresceu, provavelmente, com os militares portugueses estacionados na vila e, em Maio de 1970, ainda miúdo, tatuou a caveira e as tíbias dos comandos no antebraço direito.

Com a independência, a terra onde nasceu e cresceu voltou a chamar-se N’Dalatando, esquecendo o nome que homenageava o Presidente do Conselho do Puto. Com esta mudança veio também a guerra civil e a mobilização para as Fapla. Os quatro anos seguintes, ainda quase criança, passou-os no Sul, repartidos entre a paz de Moçamedes e as batalhas perto da fronteira do Ruacaná e Virei. Não se envergonha de preferir os tempos passados no forte de Moçamedes, longe dos tiros.

Depois de desmobilizado, regressou ao Kwanza Norte sem saber muito bem o que fazer da vida. As fábricas começaram a fechar alguns anos antes e havia poucos empregos. Durante algum tempo trabalhou na fábrica de vinho do Dondo, a alguns quilómetros de casa, mas também essa acabou por fechar. Diz que vai voltar a funcionar, talvez com uvas do Namibe, a terra dos anos de tropa que recorda também pelas vinhas.

Desempregado, regressou à terra e tornou-se lavrador para sobreviver. N’Dalatando, a cidade-jardim, durante o tempo em que esteve ocupada pela Unita, foi-se degradando aos poucos. A guerra não se prestava a esforços de conservação. Depois da paz tem melhorado, acrescenta. Agora está velho e resignado, mas continua a ter de trabalhar a terra com outros velhos resignados.

Veio a Luanda pela primeira vez em muitos anos com mais três vizinhos. Viajaram de ambulância, direitos ao Hospital Maria Pia, sem grande esperança de regressar. Alguns meses depois, só dois ainda faziam parte do mundo dos vivos e ele o único capaz de andar, uma vez que o outro sobrevivente viu as pernas amputadas acima do joelho.

À saída do hospital, descendo a Avenida do Primeiro Congresso do MPLA em direcção à Mutamba, onde apanharia o machimbombo para regressar a casa, foi assaltado por uns miúdos. Levaram-lhe os 2’000 Kz que tinha para comprar o bilhete. Maldiz a cidade, repetindo «Isto é que é Luanda, onde os miúdos roubam os velhos? Isto é que é Luanda?». Lá no Kwanza Norte é igual, os velhos trabalham a terra mas os rapazes só querem roubar ou andar de mota.

Não fossem demasiados anos de lágrimas gastas em amarguras piores, a voz soluçante com que criticava a capital teriam sido acompanhadas de dois fios salgados na cara enrugada. Por momentos, julguei ver o menino que tatuou a caveira no braço à procura de amparo.

Será que este menino faz parte das memórias dos outros?


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