Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

20  07 2009

O Desejado enjeitado

O fenómeno Obama varreu África de Norte a Sul. Por uns meses, tornou-se O Desejado de África, representado a esperança de todo um continente num futuro melhor. Talvez um sentimento semelhante à Saudade portuguesa, ansiando por um futuro irreal, mas de forma menos nostálgica.

Muitos apontaram que este salvador dos africanos só tinha este estatuto porque estava longe e por lá ficaria. O facto de ser mulato e dos pais serem estrangeiros no país em que nasceu, impossibilitaria a sua eleição em quase todos os países africanos que o chamavam de herói. De desejado passa a enjeitado, conforme o continente em que está.

Foi um sinal positivo que o presidente dos EUA tenha sido eleito sem olhar à cor da pele. Espero que a admiração que os africanos têm por ele permita que consigam fazer o mesmo daqui a uns tempos. Por enquanto, as discussões ainda terminam com um insulto racial qualquer.

Obama - Proibido lutar
O Desejado


19  07 2009

Inevitável, mas educado

Num daqueles exasperantes engarrafamentos da Mutamba, que quase parecem um carrossel avariado em torno do Ministério das Finanças, aconteceu o que já sabia ser inevitável. O local foi um pouco mais insuspeito do que alguma vez sonhei, mas, no dia em que baixamos a guarda, acontece.

De boné e óculos escuros, aproximou-se da janela. Fez sinal para baixar o vidro com uma semi-vénia. Sem me aperceber disso, engatei a primeira. Baixei o vidro três dedos.

Tinha o sotaque “lá da tuga” com que os restantes angolanos estigam e, muito polidamente, pediu desculpa por incomodar. Começou por explicar que era militar e tinha consigo o cartão de identificação de pessoal para o provar, bem como a arma de serviço. Posto isto, não me queria fazer mal, mas estava enrascado.

Na Mutamba, como um polícia a cada esquina, mesmo que tivesse a arma consigo, seria um pouco imprudente exibi-la. Por estas bandas, a polícia ainda tem o hábito de fazer as perguntas depois.

Medi a distância ao carro da frente. Em caso de necessidade, soltava a embraiagem e um angolano muito irado saíria para ver os estragos no pára-choques, fazendo o assaltante sentir-se a mais.

Como eu demorei muito a responder-lhe, achou por bem justificar a sua necessidade de dinheiro. Tinha a mulher doente. E a filha também. Mil Kwanzas chegavam. Pensei cá para mim «um ladrão a sério não dá justificações, exige e acabou-se». Não fosse eu ser estúpido, explicou melhor:

«Não te quero fazer mal, mas isto é um assalto. O que vais fazer?».

«Bom, se me assaltas, tenho de chamar a polícia.»

«Mas enquanto a polícia não chega, pode acontecer muita coisa…»

O tom educado manteve-se, bem como a espécie de semi-vénia a cada exigência.

«Pois é. Temos de ver como isto corre…»

Um silêncio desconfortável instalou-se naquela conversa de fresta de janela. O assalto rápido estava a demorar demasiado tempo.

Tenho por hábito guardar as notas pequenas dos trocos no cinzeiro do carro. Dão jeito para as compras na rua e não preciso de andar a tirar a carteira do bolso. Tirei um molho grande dessas notas e disse-lhe que lhas podia dar. Ao ver tanta nota azul e vermelha, reclamou que era pouco. «Procura na carteira, eu sei que me vais ajudar!». Tirar a carteira era a última coisa que faria.

Pus-lhe as notas na ponta dos dedos e repeti «Se quiseres, levas isto, que é o melhor que tenho». Recusou «Não, isso é pouco. Vê na carteira. Dois ou três paus chegam!». Voltei a guardar as notas. Fechei o cinzeiro e repeti «Este é o dinheiro que tenho. Se não o queres, não há problema. Assim não posso ser teu amigo.» Como a minha mão passava pela fresta, pu-la do lado de fora a apertei a dele, em jeito de despedida. Os carros mais à frente avançaram uns metros.

«Pronto, pode ser.»

Voltei a tirar o molho de notas. Dei-lhas e avancei. Ele afastou-se, cabisbaixo, a contar cinquenta Kwanzas em notas de cinco. No bolso esquerdo levava algo pesado, talvez uma pedra. As coisas não tinham corrido exactamente como esperava.

Sempre disse que ser assaltado em Luanda era uma questão de quando e não de se, mas este foi tão surreal que nem sei se o conte como assalto. O inevitável acontece, mas este foi muito educado.

Cheguei a casa e só tinha vontade de rir. Em Luanda regateia-se com os assaltantes!


18  07 2009

Fim da garantia

Quando era pequenino, pouco depois de sair da primária, tentei partir um muro à dentada. Inocentemente, julguei que tinha hipóteses, mas descobri, logo no primeiro assalto, que estava enganado. O muro ganhou por larga vantagem, neste caso, por um pedaço de incisivo.

Graças aos dotes de escultor do dentista, pouco tempo depois podia sorrir com o dente completo. Tinha era a garantia de que o compósito só duraria dois ou três anos.

Na verdade, durou esses anos todos e mais alguns. Com o passar do tempo, começou a notar-se uma diferença de cor entre o dente e a reparação, mas continuou firme e hirta, cumprindo a sua função estoicamente.

Ao fim de duas décadas, um pedacinho desistiu. Curiosamente, foi da parte de trás. À frente continua impecável. Quem me dera que todas as garantias fossem como esta…

Na próxima viagem a casa já sei que tenho de ter uma daquelas conversas interessantes em que vou dizendo «Hmm, hmm… Gaa-gol… Hã.» enquanto me sugam saliva pelo canto da boca.

Letreiro chinês: Tenha de utilizar chapéu de segurança
Em obras


17  07 2009

Justiça do Nito

O acontecimento mais marcante da História de Angola independente foi o trágico 27 de Maio de 1977. As suas repercussões foram muito mais importantes que a breve interrupção da guerra de 1992 ou até mesmo a paz atingida uma década depois.

O inimigo do lado vencedor, Nito Alves, foi considerado o culpado de todos os males da pátria, até mesmo os reservados aos odiados colonialistas. Como é habitual nestas situações, tudo quanto disse ou escreveu foi deturpado ou re-interpretado de maneira a sustentar a sua maldade intrínseca.

Querendo definir um objectivo para o país, disse que Angola só seria um país justo no dia em que os varredores de rua fossem brancos e mulatos. Foi imediatamente catalogado de racista por todos, incluíndo os que, para além de racistas, eram tribalistas. Poucos perceberam que incluía implicitamente os negros e que queria dizer que a justiça começava quando a cor da pele não determinasse o trabalho.

Mas a ideia é demasiado forte para desaparecer sem deixar marca. Adaptada aos dias de hoje, talvez não falasse de varredores de rua, que são um fenómeno recente. Provavelmente, definiria uma sociedade justa quando as zungueiras e zungueiros fossem brancos, pretos, mulatos e albinos.

Mas afinal, descobri, Angola é um país muito mais justo e equilibrado do que podia pensar. Há um zungueiro branco a trabalhar perto das bombas do Nacional. Vende incenso e dicionários.


16  07 2009

A angústia dos livros

Sinto falta de livros. Tenho mantido a leitura em dia, mas angustia-me ver a pilha de livros lidos a crescer à custa da pilha de livros por ler. Sinto falta de estantes cheias de lombadas por onde posso passar os dedos e escolher um título que me agrade. Sinto falta de poder escolher reler uma obra ou abrir aquele volume que nunca antes me cativou.

Acima de tudo, sinto a falta do livro como objecto, porque um livro não é só a colecção de palavras presas às páginas. É também algo que se cheira e toca, que tem uma vida silenciosa escondida atrás das letras e que descobrimos a cada página.

A última remessa de livros está a esgotar-se. O último volume tem de ser lido com moderação, para que dure mais tempo, mas saber que quando o terminar terei de esperar três meses para começar a ler os novos…

Pilha de livros
Estão-se a acabar


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