Num daqueles exasperantes engarrafamentos da Mutamba, que quase parecem um carrossel avariado em torno do Ministério das Finanças, aconteceu o que já sabia ser inevitável. O local foi um pouco mais insuspeito do que alguma vez sonhei, mas, no dia em que baixamos a guarda, acontece.
De boné e óculos escuros, aproximou-se da janela. Fez sinal para baixar o vidro com uma semi-vénia. Sem me aperceber disso, engatei a primeira. Baixei o vidro três dedos.
Tinha o sotaque “lá da tuga” com que os restantes angolanos estigam e, muito polidamente, pediu desculpa por incomodar. Começou por explicar que era militar e tinha consigo o cartão de identificação de pessoal para o provar, bem como a arma de serviço. Posto isto, não me queria fazer mal, mas estava enrascado.
Na Mutamba, como um polícia a cada esquina, mesmo que tivesse a arma consigo, seria um pouco imprudente exibi-la. Por estas bandas, a polícia ainda tem o hábito de fazer as perguntas depois.
Medi a distância ao carro da frente. Em caso de necessidade, soltava a embraiagem e um angolano muito irado saíria para ver os estragos no pára-choques, fazendo o assaltante sentir-se a mais.
Como eu demorei muito a responder-lhe, achou por bem justificar a sua necessidade de dinheiro. Tinha a mulher doente. E a filha também. Mil Kwanzas chegavam. Pensei cá para mim «um ladrão a sério não dá justificações, exige e acabou-se». Não fosse eu ser estúpido, explicou melhor:
«Não te quero fazer mal, mas isto é um assalto. O que vais fazer?».
«Bom, se me assaltas, tenho de chamar a polícia.»
«Mas enquanto a polícia não chega, pode acontecer muita coisa…»
O tom educado manteve-se, bem como a espécie de semi-vénia a cada exigência.
«Pois é. Temos de ver como isto corre…»
Um silêncio desconfortável instalou-se naquela conversa de fresta de janela. O assalto rápido estava a demorar demasiado tempo.
Tenho por hábito guardar as notas pequenas dos trocos no cinzeiro do carro. Dão jeito para as compras na rua e não preciso de andar a tirar a carteira do bolso. Tirei um molho grande dessas notas e disse-lhe que lhas podia dar. Ao ver tanta nota azul e vermelha, reclamou que era pouco. «Procura na carteira, eu sei que me vais ajudar!». Tirar a carteira era a última coisa que faria.
Pus-lhe as notas na ponta dos dedos e repeti «Se quiseres, levas isto, que é o melhor que tenho». Recusou «Não, isso é pouco. Vê na carteira. Dois ou três paus chegam!». Voltei a guardar as notas. Fechei o cinzeiro e repeti «Este é o dinheiro que tenho. Se não o queres, não há problema. Assim não posso ser teu amigo.» Como a minha mão passava pela fresta, pu-la do lado de fora a apertei a dele, em jeito de despedida. Os carros mais à frente avançaram uns metros.
«Pronto, pode ser.»
Voltei a tirar o molho de notas. Dei-lhas e avancei. Ele afastou-se, cabisbaixo, a contar cinquenta Kwanzas em notas de cinco. No bolso esquerdo levava algo pesado, talvez uma pedra. As coisas não tinham corrido exactamente como esperava.
Sempre disse que ser assaltado em Luanda era uma questão de quando e não de se, mas este foi tão surreal que nem sei se o conte como assalto. O inevitável acontece, mas este foi muito educado.
Cheguei a casa e só tinha vontade de rir. Em Luanda regateia-se com os assaltantes!