25
07
2009
Ser emigrante é mau. Não há volta a dar.
Por uma razão ou por outra, o que procuramos não existe na terra onde crescemos e onde temos as nossas referências. Com todos os defeitos que tem, não deixa de ser o sítio onde nos sentimos melhor. Um dia descobrimos que o sonho dos nossos pais de uma vida melhor para os filhos, sem a emigração que marcou a geração dos avós, está cada vez mais longe.
Em muitos aspectos, tenho uma vida infinitamente melhor que a dos meus pais, sem tantos sacrifícios e privações. Mas nem tudo são rosas. Talvez por termos expectativas mais elevadas ou porque a sociedade assim o obriga, é cada vez mais difícil começar a vida. Há duas gerações, seria inconcebível viver em casa dos pais com trinta anos. Actualmente, é habitual.
Seguindo o exemplo de tantos outros, emigrei. Em Angola usa-se o eufemismo de expatriado. Vim fazer coisas que há muito estão feitas em Portugal e não escondo que vim ganhar mais do que ganharia lá. Para níveis de Angola, talvez ganhe uma obscenidade, mas antes que me acusem de explorador, aviso desde já que não há muitos na minha área. A lei do mercado funciona e, quando a oferta é pequena, o preço sobe. Parte das minhas funções é formar um quadro angolano para me substituir no final do contrato. Creio que é uma contrapartida mais que justa.
O pior da vida de emigrante é a distância à família. Todos os que amamos ficam para trás e os dias custam a passar. O alento de que se prepara um futuro melhor graças ao sacrifício nem sempre é capaz de afastar as dúvidas ou o desânimo. As pequenas coisas que tomávamos como garantidas estão a meio mundo de distância e até mesmo os gestos que automatizámos durante toda a vida estão desajustados. Um ano depois de chegar a Angola e ainda acordo a estranhar a cama…
E o tempo, apesar de andar a velocidades estranhas neste hemisfério, com as Sextas a surgir logo a seguir às Terças, parece que nunca mais passa. Os poucos meses que faltam para o regresso começam a ser medidos em semanas e depois dias, fazendo números que decrescem cada vez mais devagar. Nas pausas do trabalho, não temos como evitá-lo, pensamos em tudo quanto não estamos a viver, nas mãos à volta da cintura, no passo certo a pensar no tango, dos olhares silenciosos que trocamos e agora reduzidos a uma imagem desfocada no ecrã. Vamo-nos iludindo, dizendo que falta menos um dia para o regresso. Às vezes achamos que foi apenas mais um dia longe…
24
07
2009
Consta que existiu, em tempos remotos, uma pequena rua no centro de Luanda a que se dava o nome de Travessa da Mutamba. Dizem que foi palco de alegrias e tristezas, com negócios e famílias que mudaram ao longo dos tempos. Hoje parecem ser apenas boatos.
Um dia, contam, veio uma máquina de rastos vermelha e as paredes do lado ocidental foram sendo derrubadas. É certo que as ruas não são só paredes num determinado lugar. Quem faz as ruas são as pessoas que as usam. Mas sem paredes, não há pessoas e sem elas, as ruas desaparecem e transformam-se apenas no lugar.
Os montes de entulho e lixo ficaram a marcar o sítio dos edifícios. O quarteirão oriental manteve-se de pé, incluíndo o edifício onde, no tempo colonial, o Governador vinha comer peixe grelhado.
Prelúdio
Afinal de contas, houve apenas um compasso de espera cruel, como que dando esperança de que a demolição se ficasse por ali. Ilusão, como sempre. Já devíamos saber que a Memória de Luandense não é obstáculo para o progresso.
A giratória vermelha regressou e o monte de entulho marca o lugar do que foi um pedacinho de Luanda.
O progresso passou por aqui
23
07
2009
As visitas papais são sempre acontecimentos marcantes. Todos os países se preparam o melhor que podem, tentando passar uma imagem mais civilizada, mais arrumada e moderna.
Não sei se é por acharem que o senhor se deixa deslumbrar com obras de fachada ou por se esquecerem que ele está muito mais bem informado do que parece. Afinal de contas, o Vaticano deve ter dos melhores serviços de informações do mundo.
Os pecadilhos são recorrentes e quase julgamos que as obras de fachada não são tanto para receber o Papa, mas mais para fazer crer que se fez um esforço para receber o condignamente.
A visita do Papa às favelas do Rio de Janeiro ficou famosa pelas ruas asfaltadas e os telefones instalados nos bairros mais marginalizados. A televisão não mostrava, mas os telefones nem tinham linha. E foram retirados do lugar quase com a comitiva ainda à vista. Obra de fachada.
Em Angola, seria estranho se se esperasse algo diferente. A preparação para as eleições mostrou como se pode lavar a cara a Luanda de uma forma rápida e barata. As avenidas principais, e só essas, tiveram direito a ver as fachadas, e só essas, pintadas de novo. Os passeios, que até nem estavam assim em tão mau estado, foram desfeitos para que se construissem uns novinhos.
A algumas semanas da chegada do Papa, as cenas repetiram-se. Um pouco por todo o lado, fachadas que não viam tinta desde a época colonial foram pintadas de alto abaixo. A bem da economia e rapidez, escolheram-se apenas as fachadas que ficariam de frente para o Rottweiler da Baviera.
O prédio sobranceiro ao Estádio dos Coqueiros, na zona nobre da cidade, nem no tempo colonial teve direito a tinta. Era revestido a pastilha, que são aqueles quadradinhos de azulejo que já caíram em desuso. Os anos e o clima, associados aos remendos improvisados deixaram-no com um ar feio e gasto. Mas ficaria demasiado perto do Papa para que ele não reparasse. A solução era óbvia: pintura de alto abaixo com as cores da pastilha, para não destoar.
O contraste entre a pintura nova e os remendos deu origem a um fenómeno curioso, a que só consigo chamar de Efeito o-Papa-passou-por-aqui. Pinta-se a eito porque com o barulho das luzes ninguém repara.
O Papa passou por aqui
Não sou contra a pintura, muito pelo contrário. Só que este prédio, com a fachada agora bonita, continua em tão mau estado como antes. Talvez se tenha tornado mais perigoso, porque agora parece menos doente e pode ficar esquecido na altura da recuperação. Obras de recuperação profundas saíriam mais caro e o aspecto exterior poderia até ser o mesmo, mas teria sido bem mais sensato.
Uns meses depois da visita do Papa, um incêndio nos geradores que se amontoavam em gaiolas e jaulas nas traseiras provocou a morte a duas pessoas e vários feridos. A fachada ficou intocada…
22
07
2009
Nas ruas vendem-se todos os produtos e serviços, desde os mais simples aos mais inusitados. Cedo descobrimos que todos os nichos de mercado estão ocupados. Os negócios começam por baixo, ao nível do chão, pelos pés dos transeuntes. Os engraxadores tratam dos calçados e os esteticistas dos descalços.
Os rapazes que circulam com limas e vernizes tratam de mãos e pés, não torcendo o nariz às unhas mais encravadas. Usam os próprios pés e mãos como cartaz do trabalho que fazem e não é raro ver um rapaz com as unhas dos pés pintadas de vermelho vivo.
Desengane-se quem achar que este é um negócio como os outros, onde apenas se trocam serviços por dinheiro. Com um pouco de sorte, podemos assistir a histórias engraçadas.
Sentada no muro, com o pé esquerdo apoiado no banco, sorria, fingindo que eram cócegas, e espreitava o rapaz que lhe pintava as unhas que, tentando não pintar o dedo, disfarçava que lhe mirava a cara e o sorriso envergonhado. Os olhares e sorrisos cúmplices de ambos passaram a ser o centro das atenções dos que os rodeavam e quase adivinhei que estavam a corar, pela maneira como começaram a encarar o chão.
21
07
2009
Para quem cresceu numa zona temperada, com quatro estações bem vincadas, as duas estações tropicais fazem tanto sentido como um ocidental budista. Podemos saber a teoria toda, mas, na prática, é preciso nascer lá para se perceber realmente o budismo ou o clima.
O Verão nunca é tão quente como imaginamos, talvez por associarmos esta estação a algo muito mais quente que o Inverno. A elevada humidade chega a ser opressiva, mas acabamos por nos habituar.
Já o Cacimbo é outra história. Julgo que nunca me habituarei a acordar com a luz coada a prometer trovoada, dia após dia, semana após semana. Nos dias melhores, o Sol acaba por vencer o nevoeiro e torna o céu quase azul por volta do meio-dia.
De manhã, a avenida já não mergulha nas águas sujas da Baía de Luanda. Esfuma-se numa bruma quase irreal dois quarteirões à frente. Pessoas e carros diluem-se num contorno indistinto, numa miragem desfocada.
Ainda antes de começar a escrever o Aerograma, procurei definir uma imagem que me servisse de inspiração ou de fundo adequado às experiências que sonhava partilhar. A verdade é que não fazia a mínima ideia do que me esperava. Nunca tinha estado na África negra e só pelos relatos de outros conseguia criar uma imagem mental. Embondeiros e céus cor-de-laranja pareceram-me apropriados.
Fim de tarde de Cacimbo
Apesar do Cacimbo deixar as pessoas um pouco deprimidas e irritadiças, devo confessar que foi esta época que me trouxe as cores mais inusitadas para o céu. A mistura das brumas com o pó da terra vermelha cria paletas espantosas.