Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

22  02 2009

Máquina do Tempo

Lentamente, Angola está a reerguer-se, construíndo estradas e linhas de caminho-de-ferro, fábricas e barragens. A pouco e pouco, as infra-estruturas vão sendo recuperadas, as lavras desminadas e as pontes lançadas sobre os rios. As indústrias e explorações agrícolas e pecuárias, modestas ou ambiciosas, vão surgindo aqui e ali, prometendo uma menor dependência das importações que alimentam o país.

Nos jornais fala-se de projectos de implantação de fábricas de automóveis e de computadores, da abertura de novos pólos da Universidade Agostinho Neto, que formará os quadros que ainda não existem.

O Futuro é a palavra do dia. Toda a gente tem os olhos postos no porvir e sonha com dias melhores, de mais prosperidade e felicidade.

E quem diria que, no meio de tanto futuro, se encontraria, ao virar uma esquina em Caála, uma máquina do tempo totalmente funcional, acabadinha de pintar, apontada ao passado?

Achei curiosíssimo que, ao fim de tantos anos de novos nomes dados às terras, se tenha feito a manutenção a uma placa e não se tenha aproveitado para a corrigir.

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Terra de futuro, sintonizando o passado


21  02 2009

Perguntinha de cinco tostões

A maneira como cada povo interpreta a sua versão do Português dá origem a expressões muito típicas que, nuns sítios fazem todo o sentido, mas noutros, parecem um pouco despropositadas.

Durante décadas, o único leite de confiança que existiu em Angola era o leite em pó. Até os retornados, ao chegar a Portugal, desconfiavam do leite e insistiam naquele que conheciam. Aos poucos, foram passando a usar o leite do dia ou pasteurizado vendido em pacotes de litro.

Em Angola, só agora se começa a ver leite pasteurizado à venda. O conceito ainda é novo e, para a maioria das pessoas, este leite não é tão seguro. A debilidade dos circuitos de distribuição fazia com que se estragasse muito antes de poder ser vendido.

Aqui, quando se fala em leite, pensa-se logo numa lata cheia de pó amarelado ao qual se junta água. Para mim, que estou cheio de saudades de um quarto Vigor, leite nunca será essa coisa industrializada que sai duma lata.

E agora vem a perguntinha dos cinco tostões. Em Angola, qual é o oposto de leite em pó?

leite_em_liquido Leite em líquido, claro!


20  02 2009

Trânsito

Em Luanda o trânsito é caótico, e poucos respeitam o código, no entanto, os semáforos são sagrados e parece que os sinais para abrandar ou parar com a mão também, ao contrário das lâmpadas de STOP. Passadeiras são apenas decoração, excepto quando alguém pára com os quatro piscas, para uma criança atravessar.

Um polícia comanda o trânsito de um lado da avenida e manda os carros avançar no preciso momento em que os do outro lado têm o semáforo verde. Como os segundos não conseguem ver o sinaleiro, gera-se o caos. Pelo meio costura um candongueiro, imune à confusão.

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Pode ser que se desviem

Na rotunda, quem vira à esquerda encosta-se à direita, para ultrapassar os que se encostaram à esquerda e pretendem virar à direita. Os motociclos e ciclomotores circulam em todos os sentidos, incluíndo os diagonais, só na roda traseira e com irritantes travões chiadores. Pelo meio há peões, que se vão abrigando destes kamikazes de duas rodas entre os pára-choques dos carros que avançam metro a metro.

Um buraco mais fundo embaraça o trânsito nos dois sentidos. O que apanha o buraco e o que apanha os carros que dele se desviam.

Nos cruzamentos nunca se deixa um espacinho para os que cruzam a estrada. Se o fazem, é certo e sabido que depois ninguém deixa entrar. Lixo-te antes que me lixes a mim. Lei da selva.

Se há um acidente, pequeno ou grande, todo o quarteirão pára. Dezenas de pessoas gritam, exaltadas. À volta do acidente, todos saem dos carros. Fazem um coro e acusam um e outro condutores de ser aselhas, assassinos e filhos de empresárias em nome individual. Prometem-se pagamentos de arranjos, enxertos de porrada, feitiços de queda de cabelo ou impotência. Depois descobre-se que, afinal, não há danos. Seguem todos a sua vida, como se nada se tivesse passado. O coro de buzinas que já enchia mais o ar que os gases de escape dos carros que não desligaram o motor (quase todos) vai esmorecendo à medida que se começa a andar.

A buzina é usada quase como comprovativo de funcionamento do motor. Se está a andar, tem de buzinar. É assim que se distingue os carros apodrecidos que andam dos apodrecidos que já não andam.

Meia-hora depois, chego ao escritório… Tive sorte. Podiam ter sido duas horas. À tarde tenho uma outra dose pela frente.


19  02 2009

A minha desgraça

Ao contrário de muitos expatriados, que se deixam deslumbrar pela vida cara na Ilha, não costumo cometer muitas extravagâncias.

Jantares fora são poucos. Como melhor em casa e infinitamente mais barato. Bares e discotecas já não eram os meus lugares de eleição na Pátria e aqui muito menos. Não digo que não, mas não é a primeira coisa que me vem à cabeça como divertimento. Prefiro muito mais uma conversa interessante.

Por outro lado, os serões são ocupados quase sempre a cuidar da saúde do Aerograma, que necessita de cuidados diários.

Em toda a Luanda, só há um sítio onde me perco. O mercado de arte do Futungo. Se lá passo e caio na asneira de parar, já sei que volto com alguma coisa debaixo do braço. Não é que os vendedores sejam bons, que são, é mesmo porque há lá peças verdadeiramente boas.

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As telas na areia

Os preços, já se sabe, são sempre regateados e o primeiro valor varia consoante a hora do dia, nacionalidade, paciência ou cor da pele do comprador.

Digamos que, se formos pacientes, podemos fazer alguns negócios não exactamente bons, mas aceitáveis.

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Bons negócios e negócios assim-assim

Todas as peças necessitam de um selo do Ministério da Cultura que autoriza a sua exportação. Alguns vendedores prestam-se a fornecer, a preço módico, uma cópia devidamente falsificada do dito selo.

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Com o selinho a espreitar…

Já há uns quantos vendedores que conheço pelo nome porque quase sempre lhes compro uma peça ou outra. E até já tive o prazer de oferecer uma Eka ao Soba do mercado. Há que apaziguar as chefias para fazer bons negócios. Nessa ocasião, comprei um mexerico!


18  02 2009

Choperíte legendário

Adoro sotaques diferentes, marcas de individualidade, pequenas coisas que denunciam a origem das pessoas.

Gosto de ouvir gente a falar línguas que não as maternas e tentar adivinhar de onde vêem só pelo sotaque ou construção das frases. Quando leio traduções, tento sempre perceber qual seria o texto original e não são raras as vezes que encontro um armadilha que o tradutor não soube evitar. No entanto, reconheço-lhe todo o valor. Nunca há traduções perfeitas e a dele é melhor que a minha, que é inexistente.

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Um café lendário, sem dúvida

Quando cheguei a Angola, a maior diferença não foi o sotaque diferente nas bocas das pessoas, com as vogais abertas ou fechadas em ordens inesperadas. Foram mesmo as expressões idiomáticas e as meias-palavras que achei mais características.

Numa terra onde os níveis de analfabetismo só agora começam a baixar, a escrita procura imitar o mais fielmente possível a oralidade, numa versão ad-hoc do famoso acordo ortográfico. O mesmo se passa com a leitura das palavras, que não se prendem às regras habituais. Lêem-se as letras umas atrás das outras e quem não perceber o que é, que pergunte.

Palavras escritas em Português não levantam muitas dificuldades, mas noutras línguas, o caso já é diferente.

Na rádio ouvi publicidade a um determinado supermercado conhecido. Da primeira vez nem sequer percebi a qual se referiam. Onde raio será o choperíte?

Agora, que me habituei à nova pronúncia do Inglês, já sei que se referiam a uma cadeia de lojas Sul-Africana Shoprite.


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