Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

17  02 2009

O tesouro do Jacaré

Nas primeiras semanas em Angola, a caminho do trabalho, cruzava-me sempre com um jacaré, que se dizia comer criancinhas e candongueiros. O borbulhar sinistro nas águas escuras na sarjeta da esquina anunciava a presença sombria. Quem passava perto do buraco quase adivinhava o roçar das escamas duras contra as paredes dos tubos e tremia de medo com a ilusão de que uma imensa boca cheia de dentes afiados saltaria para se lhe agarrar a um membro.

Alguns taxistas mais descuidados, assisti eu, foram vítimas do monstro. Nem todos viram a iáce desaparecer sem rasto, mas duvido que tenha sido fácil explicar as fundas marcas de dentes na metade que sobrou da carrinha.

Um dia deram caça ao bicho. Talvez tenha tido a ousadia de espreitar durante um passeio do Zé Dú e a diligente guarda presidencial deu-lhe cabo do canastro. Ou então mordiscou o pneu do Hummer de um general bem posicionado. O buraco apareceu coberto com uma laje de betão armado, em jeito de lápide caída ou campa rasa. Alívio, gritaram os candongueiros! Alívio, gritaram as mães de miúdos pequenos!

Os varredores começaram a arriscar trabalhar naquela esquina e o lixo foi desaparecendo aos poucos. Até ao dia em que se acabou. Não mais houve montes de lixo perto da toca do jacaré. Mas o trabalho precisava ser feito e, como a esquina até é agradável e bem localizada, os varredores foram por ali ficando. Quase podíamos jurar que tentavam puxar o lustro à estrada, pelas inúmeras vezes que a varriam depois de varrida.

À superfície o lixo tinha desaparecido e, não sei se por incitamento dos supervisores ou por iniciativa própria, começaram a olhar, cobiçosos, para a campa do jacaré que tanto os assustava. Dizem que os crocodilos levam as presas para o fundo, onde esperam que apodreçam. O Jacaré da Revolução de Outubro não era diferente dos demais. Aquela toca devia estar cheia de cangalhada. Sorriram uns para os outros e mandaram vir um carro para aspirar fossas. Era preciso tirar a água que escondia o Tesouro do Jacaré!

A máquina veio e o longo tubo esverdeado, parecido com um verme que se contorce, mergulhou no líquido cinzento e espesso da sarjeta. Aos poucos, engasgando-se e tossindo, foi sugando o esgoto da toca do jacaré. Antes de entrar para o tanque, parte do líquido espichava de volta para a rua, enchendo as valetas e o ar com um líquido nojento e um cheiro nauseabundo. As pessoas tapavam o nariz e franziam o sobrolho. Os cantoneiros, esses, esticavam os pescoços para o buraco, tentando controlar a vontade de vomitar.O fedor fazia-os chorar, mas insistiam. Talvez já se visse o tesouro, sonhavam.

Um, mais afoito, começou a remexer o fundo do buraco com um gancho. De vez em quando prendia-se em alguma coisa e ela puxava-a, decidido. Uma lata de óleo de palma. Um chinelo. Uma embalagem de lixívia. Dois sapatos amarrados pelos atacadores. Pedaços de cartão empapado. Nada de riquezas. Nada de fortuna. Desânimo. Mais chinelos…

Outro tomava o seu lugar manobrando o gancho e pescava mais calçado e umas quantas latas de refrigerante amassadas. Outro ainda, de luvas grossas, atirava tudo para um carrinho-de-mão, verificando sempre se não tinha escapado algo de interesse.

A tentativa de encontrar alguma coisa de valor fê-los desviar a atenção da enorme quantidade de sapatos que pescavam. Quantas vítimas fez aquele jacaré? E os sapatos amarrados um ao outro? Será que alguém se livrou de um indivíduo incómodo, atirando-o ao bicho? As histórias de atirar pessoas de helicópteros para as matas ou para o mar são pouco imaginativas, comparadas com atirar um rival ao jacaré da sarjeta. Isso sim, é ser cruel!

Muitos chinelos pequeninos mostravam a preferência do animal pelas carnes tenras. Suponho que a mortalidade infantil tenha descido em flecha desde que o mataram… acho que é esse o verdadeiro Tesouro do Jacaré!


16  02 2009

Zé Dú, o salvador de Portugal

Durante a Idade Média, o empréstimo de dinheiro com juros era considerado um pecado capital. Como não é um ser vivo, era contra-natura que se multiplicasse. Para o devedor, caso fosse gente importante, dava um jeitaço invocar este pequeno pormenor. Num instante, a dívida e o credor desapareciam.

Essas preocupações foram esquecidas em tempos mais recentes. A teoria de que o mercado se regula a si próprio acabou por dar origem a instrumentos financeiros tão rebuscados, assentes em mecanismos obscuros, que minaram o sistema financeiro mundial de tal maneira que hoje ninguém sabe para onde se virar.

Lucros obscenos sobre dinheiro que nunca existiu fora das imaginações dos especuladores, associados à ganância de cada gestor de conta e corretor de bolsa em apresentar resultados e receber comissões, levaram a que se baixasse as guardas e o bom-senso foi pelo cano abaixo.

De um dia para o outro, pedacinhos de coisa nenhuma deixaram de valer os milhões que se dizia valerem e voltaram ao seu preço justo, isto é, nada. Países inteiros, como a Islândia, faliram. Bancos, seguradoras e firmas de investimentos precisaram de injecções de capital medonhas, oriundas dos impostos que todos pagamos, tudo para que os depósitos não desaparecessem subitamente.

Por definição, os bancos são todos insolventes. Gastam mais dinheiro do que têm, mas fingem que são capazes de honrar os seus compromissos mostrando não o dinheiro que lá depositámos, mas sim o que acabou de ser depositado por outro crente. Esperam sempre que não haja mais de duas pessoas a levantar as economias.

Os bancos portugueses, tão ingénuos como os demais, talvez até mais, por serem pequeninos e gostarem de seguir as pisadas dos grandes, caíram nas mesmas asneiras. O Estado teve de apagar alguns fogos, à custa de subsídios e benesses. Para quem paga impostos, pode parecer injusto que sejam premiados pelos seus erros, mas a verdade é que já estamos tão dependentes do sistema bancário para nos esconder o dinheiro, que não nos podemos arriscar a ter repetições das falências de bancos na Argentina, no final do século passado.

Angola diz que escapou imune a esta crise. Tenho as minhas dúvidas. O rombo deve ter sido grande, mas há muitos negócios onde se pode encontrar as verbas necessárias para disfarçar as perdas. Até mesmo a subida continuada do preço do petróleo acabou por ajudar a mascarar as coisas.

O certo é que Angola, com a sua taxa de crescimento económico altíssima e a constante entrada de fundos derivados da venda de matérias-primas à China e às várias petrolíferas que cá operam, tem liquidez para fazer bons negócios em tempos de recessão.

A compra de grandes fatias do capital de bancos e empresas portuguesas tem feito a manchete de muitos jornais. Há quem fique chocado. Eu não. Era esperado. Na sua maioria, eram já entidades que tinham laços estreitos com Angola.

Antes da Revolução dos Cravos já se começava a perceber que o centro de empreendedorismo e motor económico de Portugal estava no continente africano. As ideias mais inovadoras começavam cá e só depois chegavam à Metrópole. Por essa altura pensou-se em transferir a capital do Império para uma Nova Lisboa, mesmo no centro de Angola. O projecto morreu, asfixiado pelas forças conservadoras. Hoje, quase quatro décadas depois, as previsões confirmaram-se. A capital económica é Luanda.

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Os borra-paredes já mudaram os slogans


15  02 2009

O Aerograma tem bicho!

O Aerograma não vive só nesta espécie de papel-de-carta-de-avião dos tempos modernos. Como tenho uma memória abençoada, muitos assuntos que achei interessantes acabaram por cair no esquecimento. Passei a tomar notas. Muitos artigos nasceram numa folha de papel quadriculado de um bloco muito surrado, já sem capa, que anda dobrado num bolso, junto da caneta.

O Aerograma, nesta forma tangível, acompanha-me a todo o lado. Nunca sei quando surge a inspiração para mais um texto. Conseguir ter qualquer coisa menos má publicada todos os dias, dá muito trabalho.

No dia em que jantei com o Diário da África e a Casa de Luanda, fui apanhado pelo A., em flagrante delito, a escrevinhar o início de um artigo. Teve origem numa pequena conversa telefónica, em que alguns nomes de ruas e pontos de referência foram trocados em vão. “Ainda não me oriento com os nomes em Luanda”, ouvi do outro lado. Achei que seria interessante voltar a abordar o tema da toponímia indeterminada.

Mas houve um dia em que não fui eu quem acrescentou mais uma história ao bloco. Foi o próprio assunto que o encontrou! Descobri que tinha o Aerograma bichado.

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Tem bicho, tem bicho!

Felizmente que o escaravelho estava apenas interessado em seguir a lombada azul para trás e para diante. Se o achasse menos indigesto, por esta altura tinha perdido quase tantos textos ao esquecimento quanto à fome do bicharoco.


14  02 2009

Galinha rija

As expressões idiomáticas de cada povo dão um colorido muito especial a esta língua que nos une, mesmo que com sotaques e ritmos diferentes.

O quotidiano vai moldando os discursos das pessoas, criando expressões muito características. O curioso é que, na maioria das vezes, o seu significado por ser fechado para os estrangeiros, mesmo que dominem bem a língua. Só com a convivência com os locais é que se começa a perceber algumas. Outras são-nos traduzidas, mas ficamos com a ideia de que metade da piada se perdeu.

É como a frase mais repetida na Tunísia aos turistas, “Les Gazelles et les Gazous”, usada para referir raparigas e rapazes. Bem nos explicaram que, para os muçulmanos, as gazelas são um símbolo de beleza e que não é desprimor nenhum chamar uma rapariga de gazela, muito pelo contrário. E, sorrindo, disseram que a segunda parte, os “Gazous” era só para rimar. Cá para mim, há ali mais qualquer coisa…

Em Angola também há expressões muito peculiares, que reflectem a vida independente que o Português tem em África. Também elas são moldadas pelo que rodeia as pessoas.

Em Luanda, terra dos engarrafamentos e da gasolina barata (não necessariamente por esta ordem), os carros fazem parte da vida das pessoas. E devem ser uma parte muito importante, a julgar pelo esmero com que todos os dias são lavados, escovados, passados a pano, untados com sprays diversos, decorados com autocolantes, cortinas, altifalantes e aplicações cromadas.

Era inevitável que começassem a surgir alcunhas e definições curiosas para os carros. Os Olhos de Gatos e Rabo de Pato identificam Toyotas Corolla de várias séries, os Tubarões são Range Rover dos novos e as iáces sapatilha distinguem as Hiace das Liteace, com a sua frente alongada e o pára-choques a imitar uma sola.

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Está aqui para as curvas

Há muitos anos, a Toyota lançou um pequeno modelo a que deu o nome de Starlet. Como sempre, criou um carro pouco complicado, fiável e duradouro. Até mesmo com a tortura que é Luanda, alguns destes pequenos automóveis sobrevivem até perto do meio milhão de quilómetros. Quando começaram a chegar, todos os que podiam, compraram um. Eram tão frequentes os chamaram de Gira-Bairro. E os das primeiras gerações, por serem tão fiáveis e resistentes ganharam a alcunha deliciosa de Galinha Rija.


13  02 2009

Os quilómetros…

Quem chega a Angola e começa a ouvir os nomes dos locais, é capaz de achar que há uma certa histeria colectiva em torno das distâncias quilométricas.

Quando se fala das praias a sul de Luanda referimo-nos a elas com as do km 55, km 26 ou km 33. Da mesma forma, uma pequena povoação a caminho de Catete tem o singelo nome de km 40.

Durante séculos aquela povoação foi apenas a aldeia que todos conheciam. Não precisava ter nome. Cada um sabia que era a sua casa. Noutros lugares, outras aldeias se erguiam e partilhavam o anoniamato oficial. Estavam tão isoladas que não precisavam de mais essa complicação.

Apenas os mercados e os grandes centros tinham nome. Lá, onde morava muita gente ou se cruzavam muitos estrangeiros, havia a necessidade de invocar o nome de uma terra que não a sua. De resto, quase todos cresciam, viviam e morriam à vista da aldeia onde nasciam. Só com a abertura de estradas e a crescente mobilidade das populações é que passou a ser necessário baptizar cada aldeia e cada lugarejo.

Passou-se a ter uma forma de medir a progressão ao longo do caminho. Em vez de se contar o número de rios que se cruzava e o número de povoações onde se parava, é muito mais simples memorizar e organizar mentalmente se se derem nomes aos lugares. Cria-se um mapa mais completo com nomes. Aliás, um dos propósitos da contrução de mapas é a atribuição de nomes aos acidentes geográficos.

Algumas aldeias, por não haver consenso quanto ao seu nome, herdaram a designação do marco quilométrico mais próximo. Houve uma inversão das hierarquias e a estrada sobrepôs-se à povoação. A comunidade do km 44 apenas se chama assim porque a estrada fez aquele exacto número de curvas até lá chegar…

Por outro lado, quem sempre morou na aldeia, não se preocupa muito com o seu nome oficial. É a aldeia, é a sua casa. E, se calhar, até é feliz por saber que com aquele nome, todos sabem onde fica.

Este fenómeno não se restringe só Angola. Por todo o continente africano há milhares de aldeias anónimas, cujo nome é desconhecido até pelos seus habitantes. Também na Guiné há muitas tabankas que só se chamam tabanka. É a aldeia e basta.


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