Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

12  02 2009

Monandengues

Em kimbundu, as crianças são chamadas de monandengues. Mas, na verdade, não interessa o nome que se lhes chama. São crianças e pronto.

Lobito_20081124-160220-S12-44050_E013-53958_35
Monandengues do Lobito

Brincam com o que as rodeia, quer seja com latas, pneus ou lama. E os seus sorrisos são sempre lindos!

blog_021
Monandengues do Cacuaco

Mesmo as que têm de ganhar a vida guardando gado, conseguem transformar as tarefas aborrecidas numa correria cheia de gargalhadas e olhos brilhantes.

Huambo_22
Monandengues do Huambo

Por essa imensa Angola encontro crianças a brincar. Tenho reparado nos brinquedos com que preenchem os dias. Na cidade são mais simples. Um qualquer pedaço de lixo é aproveitado por umas horas e depois abandonado. Nas terras mais pequenas, qualquer objecto é estimado e transformado em brinquedos mais duradouros.


Monandengues da Muxima


11  02 2009

Aventuras culinárias, parte XXVII

Não perguntem, porque eu também não sei o que está no prato. Era o que havia no frigorífico.

nani_ka_tabesu_ka
Ima nani ka tabemasu

Devo estar a ficar doente. Cenouras e bróculos… bleagh!


10  02 2009

O cheiro do medo

Luanda fica a pouco menos de uma hora do Huambo e todos os dias há várias ligações entre ambas as cidades, efectuadas quer pela companhia estatal, quer por mais algumas companhias aéreas privadas. Desta feita, viajei na TAAG, num Boeing que é incapaz de esconder a idade, nem que seja pelo desenho dos seus motores.

No regresso à capital, com algumas horas de atraso em relação à tabela, ficámos a aguardar a nossa vez de aterrar. Sobre Cacuaco e a foz do Bengo, o 737-200 entrou no carrossel de Luanda e mostrou fábricas, contentores, navios carregados, navios encalhados, ruas castanhas com candongueiros azuis e brancos, camiões cobertos de pó e carros vermelhos, telhados de chapa amontoados e muita, muita gente.

TAAG_737-200
Descolando do Huambo

A nossa vez de aterrar chegou ao fim de algumas voltas. O avião começou a fazer-se à pista, mas seguia demasiado depressa e muito alto. O piloto, sacrificando o conforto dos passageiros em detrimento da sua pressa, corrigiu a altitude e a orientação com duas descidas repentinas em curva, que faziam lembrar poços de ar violentos.

Ninguém contava com esta surpresa, nem mesmo eu, que já experimentei emoções fortes na altura de escolher a pista do 4 de Fevereiro. Seis dezenas de estômagos subiram repentinamente até às respectivas bocas e cobriram os seus donos de suores frios. O casario desorganizado lá em baixo a aproximar-se das janelas em ângulos pouco habituais e a velocidades absurdas faziam imaginar o que seria se…

Futebol
Não queiram interromper o jogo

No curto intervalo entre as duas descidas, a cabine encheu-se com o cheiro acre do medo. Após o segundo mergulho, cheirava intensamente a catinga. Cento e vinte palmas de mãos suadas, sessenta nucas com os cabelos em pé, cento e vinte olhos arregalados. Reflexos condicionados de mamíferos que somos…

O avião acabou por descer mesmo na cabeceira da pista 23, mas continuou a sobrevoá-la até quase meio. Demasiado depressa para aterrar em segurança… aquelas descidas súbitas corrigiram a altitude, mas pioraram a velocidade. Os travões aéreos ficaram esquecidos logo após a chegada ao rádio-farol.

Perto do meio da pista, onde deveria sair para a placa, o avião tocou no asfalto com violência. De imediato se armaram os inversores para o ajudar a parar. Motores antigos em máxima potência, para poupar os travões. Devia ser ao contrário, mas enfim…

A pista desfilava debaixo de nós, bem mais depressa do que qualquer um desejaria, provavelmente até o piloto. Agora sim, travões a fundo. E os inversores também armados. O avião lá parou, quase, quase onde os 747 o fazem. É obra!

Meia-volta no fim da pista. Há que fazer backtrack até à saída da placa. A tal que ficou para trás onde as rodas tocaram no chão. Motores ao máximo, como se fosse para descolar de novo. Cada vez mais depressa, as guaritas ao longo da vedação do aeroporto passavam pelas janelas pequeninas pelas quais os passageiros espreitavam a terra firme que anseavam.

Perto da curva para a placa, os inversores armam outra vez. Motores a fundo durante uma eternidade. A velocidades tão baixas não servem de nada. O jacto não tem pressão suficiente para abrandar o avião. É só para estragar o compressor, fazendo-o aquecer demasiado.

Duas voltinhas pela placa e depois travões a fundo outra vez. O avião parou e a porta abriu-se. Descobri que este piloto, cujo nome sei, mas não digo, é um grande feiticeiro. Pela porta pequena saíram sessenta brancos. No autocarro para o terminal foram retomando as cores dos passageiros que tinham embarcado no Huambo. Na recolha de bagagens já havia pretos, brancos e mestiços outra vez!


02 2009

Antigo Novo

Quem segue a costa para Sul, afastando-se de Luanda, vai encontrando algumas povoações importantes. A primeira é Porto Amboím, centro pesqueiro de renome. A segunda é Sumbe, a antiga Novo Redondo.

Sumbe_01
As pinturas recentes mantiveram a sigla antiga

Nota-se que a cidade também sofreu com o abandono, mas, talvez por estar um pouco à margem das principais operações militares, não se orgulha de muitas cicatrizes de guerra. Envelheceu com uma certa dignidade, digamos.

Sumbe_02
Os Leões do Sumbe

A arquitectura de quase todos os edifícios da cidade baixa, pequenos e grandes, é a esperada. Muitas construções das décadas de 1950 e 1960, em estado fóssil, mas bem preservadas.

Sumbe_03
Cidade alta

Na parte mais antiga da cidade, logo acima do Palácio do Governador, as casas são mais pequenas e baixas. Remontam ao período em que o Novo Redondo começava a assumir-se como importante entreposto comercial.

Sumbe_04
No parque dos namorados, o coreto é redil

Sumbe é uma cidade limpa. No centro não se vê lixo amontoado aos cantos e a marginal é varrida continuamente, afastando a poeira dos lancis pintados de branco e preto. Nos musseques que apertam a cidade contra o mar, o lixo já é visão corrente, mas nunca em tão grandes quantidades como em Luanda.

A aposta do governo do Kwanza-Sul em recuperar as aptidões turísticas da capital da região está a começar a dar resultados. A praia é convidativa e os restaurantes e hotéis têm condições.

Sumbe_05
Catedral do Sumbe, concluída em 1975

Símbolo da modernidade desta terra é a Catedral de traça original que se ergue numa elevação sobranceira à baía. Sabemos que é uma igreja, mas não deixamos de estranhar a insistência nos triângulos. É a versão triangular de uma obra hiperbólica de Oscar Niemeyer.

Os vitrais, aparentemente simples soma de triângulos coloridos, emprestam uma atmosfera mística ao interior. E as paredes rendilhadas, apesar de ajudarem a refrescar não nos dão a sensação de estar desabrigados.


02 2009

Feitiços na Ilha de Luanda

Aquela língua de areia que abraça Luanda, minúscula, quando comparada com Angola, é berço de muitas tradições de feitiçaria e encantamentos. A proximidade do mar e a vida perigosa dos pescadores a isso convida. Conta-se que na Ilha do Cabo há feiticeiros poderosos, capazes de trazer a prosperidade ou a desgraça. E, às vezes, até mesmo as duas em simultâneo.

Chamam-lhes os Feiticeiros das Mulembas. Quando o peixe não vem e os pescadores reclamam, executam os seus rituais, enfeitiçando as ondas e o mar para que tragam os peixes de volta às redes. Mas não fazem só o bem. Por vezes, usam as suas magias para virar barcos e afogar os pescadores. São respeitados e temidos pelos poderes que possuem.

Para além destes feiticeiros, existem também as Mamãs Bessanganas, outras figuras importantes, que são sempre referidas em voz baixa e deferente. Ninguém as quer ver ofendidas. Mais vale prevenir. Essas falam directamente com a Kianda, sem precisar de marcar hora. Desgraçado do pescador que ofender uma. Não volta ao mar. Se o fizer, a Kianda puxa-o do barco e afoga-o. Se não o fizer, morrerá com moléstias várias e dolorosas.

Distinguem-se pela roupa e pelo lenço amarrado à cabeça. Quando peço mais pormenores, dizem-me que as Bahianas se vestem da mesma maneira. O culto a Iemanjá nasceu aqui, nas Mamãs Bessanganas…

Nos seus rituais, que envolvem sempre muita música e alguma bebida forte, é costume que algumas sejam possuídas pelo espírito da Kianda. O mar entra nelas e elas entram no mar. Nessa altura estão a xinguilar, agitando-se no chão, revirando os olhos e gritando palavras desconhecidas. Língua do mar, talvez.

Contaram-me a história do taxista que atalhou caminho pela areia, atropelando redes e alguidares de peixe. Conseguiu ultrapassar meia-dúzia de carros, mas teve a pouca sorte de ter afrontado uma das Bessanganas, que logo lhe lançou uma onda poderosa em jeito de vingança. O rapaz começou a sentir-se mal, a ter dores pelo corpo, a vomitar e a largar cabelo. Poucos minutos depois, morreu. Serviu de exemplo para os que não respeitam as tradições da Ilha…


« Previous PageNext Page »