Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

02 2009

Até que enfim chove!

Oficialmente, o Verão Austral já chegou há muito a terras angolanas. Por todo o país começou a chover com alguma regularidade. Mas em Luanda, que é excepção em tudo, ainda não soube o que é a chuva. Ainda não foi desta que o pó assentou e se transformou em lama.

É certo que há dias em que as ruas acordam molhadas, mas chuva mesmo, ainda não se viu.

Numa noite, em que a visão da montanha de roupa suja venceu a minha preguiça de a lavar, esperava que a máquina parasse quando ouvi um ruído diferente.

A princípio não consegui distinguir o que era, mas depois fui à janela e gotas grossas caíam na rua. Por breves instantes eram iluminadas pelos candeeiros. Depois esborrachavam-se no chão com um baque surdo.

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Chegou a chuva

A conversa dos seguranças foi abafada pela espécie de aplauso líquido que começou a lavar o pó da cidade. Algumas pessoas estugavam o passo e procuravam uma varanda ou toldo que as abrigasse e os carros circulavam mais devagar, com as escovas a secar os pára-brisas.

Os sujeitos que costumam passar de mota de escape livre a alta velocidade, disparando alarmes e acordando as gentes, resolveram não arriscar o banho ou o tombo nas estradas escorregadias. Que sossego!

Um quarto de hora depois, a chuva parou. As ruas começaram a secar e o pó voltou a surgir dos seus esconderijos…


02 2009

Made in China

Parte da mística de Angola é a falta de alojamentos turísticos com condições. Nos grandes centros urbanos ainda se vai encontrando um ou outro hotel, mas, nas cidades mais pequenas, essa tarefa pode ser difícil.

Geralmente, as condições não são as melhores. Pode não haver água, casa-de-banho ou até mesmo portas no quarto, mas de diárias de 100 dólares ninguém escapa.

Quando se viaja pelo país, conta-se logo com o pior. Desta forma, somos surpreendidos quando encontramos alguma coisa a que chamamos hotel sem esboçar um sorriso irónico.

No Huambo fiquei hospedado numa destas excepções. Um hotel com H grande, parafraseando os comentadores de futebol. Obras recentes, decoração cuidada, elevador a funcionar, água quente e com pressão, restaurante com empregados eficientes.

Aos poucos, comecei a notar que havia um certo padrão dominante no hotel. Quase tudo era chinês. No entanto, as coisas não tinham o aspecto desmazelado e frágil que habitualmente associamos aos produtos chineses. As imitações eram boas!

As camas eram confortáveis e o ar condicionado funcionava, embora com pequenas contrariedades. O único senão eram os mosquitos que insistiam em dormir comigo. Suponho que esses não fossem feitos na China, mas nunca se sabe…


02 2009

A utilidade dos Trânsitos

Uma figura muitas vezes criticada, odiada e comentada é o polícia de trânsito angolano. Por estes lados é Trânsito, apenas. É preciso usar a técnica das meias-palavras para sentir a angolanidade da coisa.

Os Trânsitos, de colete cor-de-laranja com letras brancas escrevendo TRANSITO e uma braçadeira vermelha com um grande T maiúsculo, distinguem-se à distância. São altivos e sabem que a sua palavra é lei.

Na maior parte das vezes, associamo-los a gasosas e outros pecadilhos. Há, no entanto, outros que são conhecidos pelas coreografias imaginativas que usam para coordenar o fluir do trânsito nos cruzamentos.

Comum à maioria dos polícias de trânsito do mundo, estes também atrapalham um bocado o normal funcionamento das coisas. Se numa estrada que não é habitual estar engarrafada, os carros se começam a apertar mais e andar devagar, é certo e sabido que na outra ponta está um Trânsito a agilizar.

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Pouco movimento

Ora, aconteceu que a rua que dá acesso ao escritório foi cortada. Fazem isto regularmente, para cobrir alguns buracos. Geralmente fazem-no quando os carros começam a ter dificuldades em sair dos buracos mais fundos. Fecham a rua numa ponta, com um camião atravessado no cruzamento, e depois vão despejando entulho nas covas. Um cilindro compressor ajeita as pedras e a terra e os buracos desaparecem. Durante algumas horas, pelo menos. No dia seguinte está igual, ou pior, que na véspera.

À entrada da rua, junto ao camião, estavam dois Trânsitos. Abri o vidro e fiz-me de desentendido. Como podia eu chegar ao trabalho? O portão do complexo ficava a menos de 100 metros da esquina.

A solução que me deram era, no mínimo, engenhosa. Contornava o complexo pela única estrada aberta, na esquina seguinte voltava à direita, para um sentido proibido e depois repetia a façanha, subindo a rua cortada em contra-mão. Mais de um quilómetro para fazer menos de 100 metros. Pareceu-me excelente.

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É só um pulinho

Como a única rua aberta é de via única e há trânsito nos dois sentidos, a progressão foi lenta, muito lenta.

Meia-hora depois, já na esquina seguinte, a tal em que tinha de virar à direita para um sentido proibido, estava outro polícia de colete laranja. Recusou terminantemente permitir-me fazer aquela manobra. Era sentido proibido, afinal de contas. Estava cheio de razão e arranjou-me uma alternativa simples e prática. Continuava na direcção em que estava e voltava três vezes à esquerda. Ía dar ao início da rua que queria, a tal que dá acesso ao complexo, mas que está cortada. Pedi-lhe outra sugestão. Podia seguir em frente e entrar pela outra ponta da avenida. Uma volta de oito quilómetros pelo Rocha Pinto, Samba e arredores.

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Será que é aqui que se abastecem para reparar a rua?

Disse-lhe que já estava a seguir as indicações do seu colega, que me tinha dito que era ali que virava por causa do corte de estrada. O condutor do carro de trás tinha o mesmo destino que eu e, se não tinha ouvido as indicações do outro, pelo menos não se descoseu.

O Trânsito olhou para a rua e viu três filas de trânsito compacto onde só cabe uma. Deve ter maldito a vida. Mas resolveu cumprir a sua missão. Foi abrindo caminho à minha frente, cerca de 200 metros, para que se pudesse chegar ao final da rua cortada e entrar em contra-mão. Atrás de mim seguiam umas valentes dezenas de carros e carrinhas. A rua só é de sentido único naquele quarteirão e o atalho deu muito jeito. Os condutores que circulavam em sentido contrário reclamavam que a rua era de sentido único e o polícia explicava que era só por causa do corte de estrada. Fui avançando devagar na faixa reservada.

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O sentido único que se fez em contra-mão

No fim do quarteirão agradeci-lhe por ter tomado uma boa decisão. O Agente B. Facilitou a vida a muita gente. Aqueles dez minutos pouparam horas de engarrafamento.

Voltei à direita, contornei as escavadoras e os cilindros e cheguei ao escritório. Demorei cerca de uma hora a dar a volta ao quarteirão. Outros colegas desistiram, deixaram o carro algures e vieram a pé.


02 2009

Brisa nas Pétalas do Lótus Perfumado

Num hotel angolano, recentemente construído e equipado por uma empresa chinesa, encontrei os confortos esperados naquela categoria de alojamentos. Toalhas limpas, televisão e ar condicionado.

Infelizmente, os chineses que o equiparam, fizeram-no para outros chineses, esquecendo-se de que há outras pessoas no mundo para além dos outros chineses. Poucas, mas há. Quando agarrei no comando do ar condicionado, para fazer descer a temperatura do quarto para algo civilizado, deparei-me com um enigma.

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Aparelho confuciano

Só reconheci três botões. Um, rosa e redondo, só poderia servir para ligar e desligar. Dois outros, triangulares deveriam permitir regular a temperatura. Quanto aos restantes… só adivinhando.

Suponho que os caracteres chineses que os ornamentavam poderiam indicar funções desconhecidas no mundo ocidental mas muito apreciadas no Extremo Oriente. Fui carregando nos botões, procurando descobrir o que cada um fazia. O aparelho na parede apitava e rangia a cada comando, mas com efeitos práticos escassos.

Assumi que haveria diminutas diferenças entre cada modo de funcionamento. Tão diminutas que apenas um oriental, habituado a lidar com uma míriade de interpretações e significados de cada palavra ou gesto, consoante o contexto, entoação, hora do dia, cor das meias da vizinha do lado ou estado de embriaguez, seria capaz de delas se aperceber. Para um ocidental, acostumado a uma menor subjectividade e incapaz de compreender as aplicações das filosofias orientais às máquinas de ar condicionado, pareceu-me que continuava só a soprar ar frio com intensidade moderada. Se calhar, numas vezes soprava ar um-pouco-menos-frio-que-o-ar-frio, com intensidade-quase-quase-moderada e, noutras, ar um-bocadinho-antes-de-se-poder-chamar-morno, com uma intensidade-que-umas-vezes-parece-forte-outras-não.

Respirei fundo e deixei que todas as energias místicas do singelo comando que empunhava me invadissem. Percebi que seria necessário acertar na combinação correcta de teclas para notar diferenças.

Como não tinha dicionário que me ajudasse, tentei interpretar o melhor que pude as aragens que emanavam da máquina e comparar com o que lia no comando. Dei por mim a encarar ventos quentes ou frios, misturados com ar húmido ou seco. A minha, tradução para algumas das teclas, foi a seguinte:

 

Temperatura

Humidade do ar

Velocidade do ar

Direcção do ar

Modo

Frio

Seco

Moderada

Tecto

Gentil Descanso do Panda Dourado

Muito Quente

Muito seco

Cuspido com violência

Variável

Grande Sopro do Dragão

Fresco

Normal

Variável

Tecto e chão

Suspiros Afortunados na Floresta de Bambú

Morno

Normal

Muito baixa

Chão

Delicados Zéfiros Agitam os Juncos

Quente

Húmido

Baixa

Tecto

Verão Auspicioso

Frio

Muito húmido

Média

Variável

Doce Fluir do Rio Amarelo

Gélido

Muito seco

Alta

Chão

Majestoso Leão Branco do Norte

Frio

Muito húmido

Muito alta

Variável

Batráquio Enfurecido

Acabei por me decidir pela Brisa nas Pétalas do Lótus Perfumado. Tive uma noite descansada!


02 2009

Cascas vazias

Quando falamos das várias ruínas com que nos cruzamos em Angola, quer sejam casas do tempo colonial, quer sejam traçados de ruas que recordam outrras paragens, ou até mesmo os navios encalhados na Praia de São Tiago ou as locomotivas abandonadas em Catete ou Huambo, na verdade, estamos só a falar de cascas vazias. Tentamos imaginar o conteúdo destes receptáculos de memórias, sabemos que já houve uns anónimos que as fruiram, mas somos incapazes de os sentir.

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Catete

De vez em quando recebo comentários às fotografias que publico ou às histórias que conto, que enriquecem a minha experiência de Angola. Passam a dar-me outra perspectiva daquilo que vi e senti. Dão-me outros olhos com os quais posso ver as cascas que se me depararam vazias. Encho-as um pouco, digamos.

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Liceu Salvador Correia

Mesmo os edifícios que vão sendo recuperados, são agora marcas do tempo presente e não da altura em que foram construídos. O país mudou demasiado para que o sejam. Não digo que tenha mudado para melhor ou pior. Mudou, apenas.

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Cinema Ruacaná, Huambo

Quando escrevi o artigo acerca dos navios enferrujados que foram encalhados na Praia de São Tiago, tratei-os como cascas vazias, dizendo que o seu nome já não interessava. Preocupei-me com a história deles como um todo e não com as histórias vividas em cada um. Que foi feito dos marinheiros que os manobraram e que, durante meses a fio, os chamaram de casa?


Cargueiro Joaquim Kapango, em segundo plano

Afinal, parece que os nomes não eram assim tão irrelevantes. Um dos dois navios que se amparavam na velhice chamou-se Joaquim Kapango, facto que continuaria a não me dizer nada, não fosse ter descoberto histórias vividas a bordo dele, contadas na primeira pessoa.

É engraçado como, a pouco e pouco, vamos conhecendo mais um pedacinho do mundo e colorindo uma imagem com os tons que os outros nos emprestam.


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