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02
2009
Percorrer as ruas do Huambo e ser capaz de não ver as marcas de guerra é tarefa difícil.
À excepção da Praça Agostinho Neto, onde taparam todos os buracos e cicatrizes da batalha do Huambo, cada esquina oferece um mapa da tragédia que se abateu sobre a cidade.
Ao fim de alguns minutos, os ouvidos começam a acompanhar o que os olhos vêem e as fotografias que se tiram ganham onomatopeias como nomes.

Takatakatak-takatakatak tak-tak-tak
Fachadas pintalgadas de buraquinhos pouco certeiros, que não se agrupam em nenhum alvo específico, sugerem disparos por cima das barricadas, feitos com a esperança que não se percam na atmosfera.

PUM! BUM!
As granadas das bazookas e lança-foguetes fizeram estragos em quase todos os edifícios mais altos.

BUUUM!
Os tanques, quase invulneráveis às armas ligeiras, percorreram as ruas, distribuindo tiros de canhão pelas fachadas.

Takatak – Pang! Pang!
A cada varanda estratégica, quer esteja numa esquina, quer esteja a meio de uma qualquer rua, vemos as marcas deixadas pelos atacantes. Paredes reconstruídas apressadamente, procurando fechas ou buracos deixados pelos explosivos.

Bum!
Nos momentos em que não se disparava contra o inimigo, usavam-se alvos de ocasião para treinar a pontaria. As estátuas de bronze deixadas pelos colonos, painéis de azulejos nas igrejas, letreiros e placas toponímicas.

Pang!
Cidade Baixa e Cidade Alta ostentam as mesmas marcas, mostrando que a guerra chegou a todo o lado com a mesma violência.

Bang!
A artilharia e a aviação martirizaram a cidade, juntando aos edifícios por acabar, edifícios acabados.

Fiiiiiiiiiii…. PUUUUM!
A sensação com que se fica é que a maioria dos disparos foram aleatórios, apontando mais ou menos para o local onde se julgava estar o inimigo.

Bum! Pum! Buum!
Outra ideia com que se fica, é que havia muitos treinos de pontaria sem alvos definidos. Escolhia-se um edifício alto e disparava-se até fartar. Curiosamente não eram as fachadas principais os alvos escolhidos, mas sim as laterais, parecidas com alvos onde se podia aferir a precisão do artilheiro.

Bam! Pum! Bum!
Pela direcção dos disparos, adivinhamos que a artilharia estaria agrupada perto do centro da cidade. A maioria das cicatrizes feias nas paredes dos prédios mais altos está virada para lá.

Pum! Pum! Pum! Pum! Pum! Pum! Um tiro a cada andar.
Ficamos sem a certeza se os estragos maiores na cidade se devem à luta entre os dois exércitos ou aos momentos de ócio dos artilheiros.
1
02
2009
Por deformação profissional ou pessoal, comecei a tratar Luanda como se já a conhecesse há mais tempo, procurando vivê-la como quem nela cresceu. Vou decorando os pontos de referência, as ligações de uns bairros para os outros e os caminhos mais curtos (ou rápidos) daqui para ali.

Ponto de referência: Liceu Salvador Correia
Mas já me apercebi que outros estrangeiros, que cá moram há mais tempo que eu, não conhecem muito mais que o nome da rua onde vivem e, talvez, o percurso até ao local de trabalho. A relativa confusão que existe em torno do nome das ruas da cidade faz com que a maioria dos expatriados desista sequer de tentar fazer sentido da coisa.

Ponto de referência: Igreja de Fátima
Chega-se aos sítios de três formas diferente: por tentativa e erro, experimentando ruas e avenidas até à exaustão; seguindo indicações baseadas em pontos de referência populares ou então alguém, já conhecedor das manhas da cidade, serve de guia e nos mostra o trajecto que devemos decorar.

Ponto de referência: Edifício da Sonangol
Cada um começa a criar mapas mentais da cidade, com as distorções próprias de uma terra onde o comprimento de uma rua não se mede em metros, mas sim em horas. É que há dias em que uma rua de aspecto inocente pode demorar mais a percorrer que a estrada que liga duas cidades do interior.

Ponto de referência: Letreiro da Cuca
Dizem que a cidade não é segura e que o medo que se tem de se ser assaltado se sobrepõe à vontade de conhecer as ruas, quer a pé, quer de janela aberta. Mas, se não o fizermos, a experiência humana perde-se, o que é triste.

Ponto de referência: Prédio da Lagoa
É a missão de cada um ir preenchendo os espaços em branco do seu mapa e ir perdendo o medo da cidade, apagando os Hic Sunt Leones com que nos atemorizam.
31
01
2009
Chegámos ao Huambo num dia de chuva que descia de um céu cinzento-escuro, rasgado aqui e ali por relâmpagos brilhantes. Gotas grossas e quentes precipitavam-se com violência, mas com espaçamento suficiente para conseguirmos distinguir uma por uma a bater na placa do aeroporto.
A chuva molhava e ensopava, tornando transparente a camisa branca e colando as calças às pernas. A chuva molhava e escorria pelo corpo, mas não enregelava. A sua temperatura fazia lembrar o suor nos dias quentes e húmidos do Verão de Luanda.
Ainda antes de sair do aeroporto percebemos que não estamos em Luanda. Alguém se aproxima e pede licença para passar entre duas pessoas que conversavam.

Outra vez de cara lavada
A breve visão que se tem da cidade enquanto se vai do aeroporto ao hotel é a de se ter chegado a um qualquer lugar importante, com as ruas bem organizadas e cheio de potencial. Só depois reparamos nos buracos de balas nas fachadas, nas cicatrizes deixadas pelas granadas nos edifícios, nas construções inacabadas há décadas, nas fábricas esventradas…
Tal como no resto de Angola, só se vêem mulheres a trabalhar. Os homens esperam nas filas para a gasolina, procurando abastecer o seu táxi de duas ou quatro rodas com que passeiam pela cidade. Mas estes cumprem o código. Param nas passadeiras e respeitam os semáforos.

Taxista em serviço, taxistas abastecendo
Ao contrário do que acontece em quase todo o país, os jardins públicos estão cuidados. A relva é aparada e propagada para talhões novos folha a folha. Não há jardineiros, só jardineiras…

Jardineiras
Muitas das ruas não chegaram a perder o seu antigo nome, até mesmo aqueles que teriam sido mudados com a queda do regime fascista. Na verdade, as ruas mudaram de nome, mas tiveram o bom senso de manter todas as placas.

Avenida da Independência
Se, em Luanda, os empreendimentos procuram ter um nome patriótico, no Huambo têm nomes familiares para os que deixaram esta terra em 1975. O empreendimento Norton de Matos, em construção, é um bom exemplo.
A praça central do Huambo, só por si um monumento à arquitectura do Estado Novo, foi recuperada. Mudou de nome, homenageando o primeiro Presidente Angolano, no entanto, as placas toponímicas homenagenado o primeiro Presidente Português ainda lá estão.

Agostinho Neto, na sua praça, antiga Praça Manuel de Arriaga
Os edifícios dos ministérios viram as suas feridas saradas e até o Palácio do Governador, que ficou em muito mau estado durante a guerra civil, parece novo.
Agora é preciso esperar que deixe de chover, para ir conhecer as ruas e as pessoas do Huambo.
30
01
2009
Ainda acho bizarro contemplar dias de Verão em pleno Janeiro, época em que habitualmente se tirita de frio e se sonha com a chegada da Primavera.
No entanto, um dia de Verão no Planalto Central de Angola é algo de agradável e variado.

Apreciando a brisa
Em Janeiro ainda não começaram as grandes chuvadas e só caem uns pingos por dia. O céu vai-se enchendo e esvaziando de nuvens como se sofresse os efeitos de uma maré celeste. Nuvens altas e finas, quase farrapos, e nuvens baixas, que parecem um rebanho de ovelhas a caminho da tosquia. Ao longe, em três ou quatro pontos do horizonte, vê-se chover. Uma mancha escura liga o céu à terra. Daqui a pouco uma dessas manchas passará por aqui. O vento precedê-la-à, mas sem grande convicção. Depois vêm as gotas grossas e quentes, que vão molhar a terra. Assim que passa, o que costuma ser rápido, a água que desceu começa a evaporar em fugidias neblinas e procura voltar ao céu, para não perder a boleia das nuvens. Daqui a umas horas volta a cair.

Farrapos de nuvens
Com um pouco de sorte, ainda somos brindados com um tímido arco-íris ou alguns relâmpagos e trovões abafados, que quebram o cinzento do horizonte.
O Sol vai furando as nuvens, cobrindo a terra de malhas claras e escuras, fazendo-nos querer ficar mais umas horas a apreciar esta dança da Natureza.

Dança lenta
Só posso concluir que os Generais que fizeram a guerra nunca assistiram a este espectáculo. Se o tivessem feito, de imediato mandariam calar as armas, porque perturbavam a contemplação desta Paz de que nos invade.

Calmaria
29
01
2009
Por toda a Angola se vêem mulheres com coisas à cabeça. Cargas grandes e peuqenas, leves ou tão pesadas que são precisas duas pessoas para as erguer, desde comida a combustíveis, passando por ferramentas ou guarda-sois.
Acredito que se, de um momento para o outro, as estradas e os camiões falhassem, os circuitos de distribuição não parariam. As mulheres meteriam mãos à obra, ou melhor dizendo, cabeças à obra, como fizeram desde sempre, e manteriam o país abastecido.
Tenho assistido a verdadeiros prodígios do equilíbrio e força em cada mulher com quem me cruzo que leva a vida à cabeça.
Aquilo que vemos no Circo, com equilibristas que dançam equilibrando uma pilha de jarrões chineses na testa, é brincadeira de crianças. Transportar um alguidar de mangas mais pesado que a própria, enquanto se amamenta a criança equilibrada nas ancas e se faz negócio, isso sim, é uma proeza. Aliás, julgo até que estes números de equilíbrio não sejam muito apreciados pelo público africano. É talvez como um português ir ao Circo e assistir a alguém a comer caracóis…
Desde que começam a andar, que as meninas se habituam a equilibrar coisas no alto da cabeça. Aprendem a mexer apenas os olhos quando é preciso mirar algo que não esteja mesmo em frente. Aprendem a menear o pescoço para manter sempre a cabeça direita e não entortar a carga. Baixam-se olhando em frente e seguem caminho, arqueando as costas a cada passo.

Cuidado
Ganham um andar elegante, que faria inveja a muita debutante austríaca que se esforça por dar dois passos com um livro à cabeça.
Se levassem Angola à cabeça e não apenas as coisas de Angola, tendo um papel mais activo na governação do país, aposto que esta seria uma terra bem diferente.