Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

28  01 2009

O ritmo do Albano Machado

Na pista de aviação do Huambo, o aeroporto Albano Machado, se olharmos com atenção, encontramos muitos testemunhos do que é a vida num aeroporto pouco movimentado de uma cidade pacata.

Huambo_4
Pouco tráfego

Cravadas no asfalto, à custa de muita calcadela com roda de avião e pisadela de bota da tropa, vemos centenas de caricas de cerveja e Coca-cola. Aqui e ali também se vêem chaves de latas de conserva, do tempo em que a abertura fácil ainda não era considerada padrão. As mais recentes serão do tempo em que o velho Antonov que apodrece na pista ainda voava. Mas até esse apodrece devagar, acompanhando as estações tropicais.

Huambo_5
Envelhecendo

Ritmo descontraído, em que entre cada avião se pode beber uma cerveja ou aconchegar o estômago…

Huambo_28
Umas poucas ligações diárias, nada mais


27  01 2009

Uma partida de futebol

A vista da janela do meu quarto, quando cheguei a Luanda, consistia num lote vazio cheio de lixo. As crianças jogavam à bola lá dentro, evitando pisar cacos e latas enquanto faziam pontaria às balizas improvisadas.

Um dia limparam o lote e os jogos passaram a ser mais animados, com mais olhos na bola que no chão. Muitos gritos e risadas mostravam o divertimento.

Entretanto, o dono do terreno resolveu vedar o lote. Ergueu chapas altas, fechou os portões a cadeado e os jogos de futebol acabaram. Pelo menos até alguém soltar duas chapas.

Agora, com um verdadeiro estádio para jogar, as equipas são mais numerosas e os jogadores ensaiam jogadas habilidosas.

Eu, que até nem gosto de futebol, ganhei um camarote com vista para o campo. Mas aprecio a alegria dos rapazes que, lá em baixo, correm atrás da bola e uns dos outros, marcando golos sonoros contra as chapas onduladas.


Fintas   


26  01 2009

Escola de mosquitos

O Huambo esteve isolado do mundo muito tempo. Esta situação teve reflexos na educação das gentes e, espantem-se, dos bichos. Descobri-o num quarto de hotel…

Bem lançado para o meu quinto sono, fui despertado por um zumbido familiar. Esvoaçava erraticamente pelo quarto um vector, armado em parvo.

Acendi a luz e dei-lhe caça. Acabei por lhe executar a sentença com a almofada. Ficou uma mancha castanha na fronha. Menos mal.

Apaguei a luz e fiz os possíveis por retomar o que tinha sido tão rudemente interrompido.

Alguns minutos depois, o zumbido regressou. Novamente acendi o candeeiros, que me ofuscou. Depois de muito pestanejar, vi o cadáver do mosquito de há pouco no sítio onde o tinha deixado. Afinal era um par de vectores que me andava a rondar, cobiçando-me o sangue.

Mais uns minutos de olhos arregalados e ouvidos atentos, enquanto procurava o bicharoco. Acabou por ter o mesmo destino que o parceiro. Desta feita a arma do crime ganhou uma mancha castanho-escuro, sinal de que aquele mosquito já conhecia o gostinho do sangue humano.

Felizmente para mim, matei-a antes que lhe servisse de refeição. Sabe-se lá se a vítima anterior não tinha paludismo. Os mosquitos mordem cada coisa…

Resolvi tomar medidas. Fui à mala buscar o repelente electrónico de mosquitame. Virei-o para a cama e deitei-me.

Parece que os mosquitos andam a ouvir música demasiado alta. O aparelho dizia-lhes claramente, em ultra-sons, que não valia a pena ir para ali, que o sangue do humano adormecido era amargo, que fazia diarreia, que era azedo. Fizeram orelhas moucas e não desistiram de me rondar a cara e os braços.

Percebi que a noite seria longa quando descobri um pequeno espaço aberto na parede para passar os tubos do ar condicionado. Servia de entrada ao raio dos mosquitos.

Como os bichos não fazem caso da maquineta de ultra-sons, voltei à mala e desencantei repelente líquido.

Borrifadelas no pescoço, nos braços, nos ombros e nas costas. Fiquei a cheirar a eucaliptal e cânfora.

«Venham lá agora!»

E vieram mesmo. Chegaram a ter o descaramento de me pousar no pescoço, ignorando completamente o fedor a repelente.

Acendi as luzes e persegui mais uma meia-dúzia de analfabetos voadores. Bem lhe mostrei o rótulo do frasco. Dizia lá repelente de mosquitos, indicado para insectos tropicais. Nada, não conseguiam sequer soletrar o nome do produto. Ou então, a angolanidade dos bichos sobrepôs-se a tudo o resto. Se não se cumpre o código de estrada, porque se haveria de cumprir o rótulo de um repelente?

Foi uma noite longa, dormindo com um olho aberto, como os cães. Pela madrugada, com olheiras pelos joelhos, contemplei a pilha de cadáveres alados que acumulei na mesinha-de-cabeceira e as manchas castanhas e vermelhas na fronha da almofada.

Huambo_3
Carnificina

Só dois me provaram o sangue, mas ambos foram justiçados.

O Governo de Angola tem de tomar medidas urgentes. Esta carnificina era evitável. Bestava que se ensinasse os bichos a ler. Ou pelo menos a cumprir as indicações dos repelentes.

Escolaridade mínima obrigatória para os mosquitos, já!


25  01 2009

Casa de Luanda, até breve

Companhia de muitos dias desde que cheguei, a Casa de Luanda tem sido um espaço onde se partilham outras visões do sítio onde estou.

Mas como nada na vida é estático, as pessoas crescem e mudam e, com elas, também a sua vida e as suas escolhas. Os mentores da Casa de Luanda, que tive o privilégio de conhecer pessoalmente, partem hoje para novos projectos e novas descobertas.

A Casa de Luanda não fica mais pobre, apenas mais vazia. A riqueza fica e será partilhada noutras paragens.

Ao F. e à P., um grande abraço, do tamanho do mundo e que abram uma nova Casa, talvez a Casa do Mundo, porque têm cada vez os horizontes mais largos.


24  01 2009

Massangano

Na estrada para o Dondo, quase a chegar à terra onde se faz a cerveja Eka e no cimo de uma lomba, começa uma pequena estrada com um aspecto diferente das demais. Não é de terra batida, pelo que indica ir dar a algum lugar de maior relevância, mas também não vê conservação há décadas, o que poderá significar a perda de importância do sítio, ou falta de interesse de quem decide quais as estradas que se reparam.

O seu destino é um mistério. As tabuletas já desapareceram há muito e a estrada anónima não promete grande coisa. No entanto, deve conduzir a um local mágico. Não é em todos os sítios que encontramos uma povoação com bandeiras da UNITA e MPLA frente-a-frente, a escassos metros uma da outra. O habitual é ver uma aldeia com uma das bandeiras e a aldeia seguinte com outra.

Massangano_009
UNITA e MPLA, lado-a-lado

Não fosse andar à procura deste acesso ao Kwanza em mapas e fotografias de satélite, nunca adivinharia que esta é a estrada que liga a Massangano.

Massangano_14
Ruínas do Tribunal de Massangano

Em boa hora me aventurei. Massangano é uma verdadeira pérola. Uma pequena povoação com cubatas de adobe e capim esconde-se no meio das palmeiras de um vale abrigado. No terreno mais alto erguem-se as ruínas da Câmara Municipal, do Tribunal e do Forte. Mais longe, ao lado do novo Hospital, que não passa de um pequeno posto médico, fica uma igreja imponente.

Massangano_001
Forte de Massangano

Massangano foi uma terra importante. As ruínas dos seus edifícios mais importantes atestam-no. Mas o que define a importância de uma povoação é a sua força económica. Massangano está longe da estrada que liga a Malanje, Huambo, N’dalatando e Dondo. Encarrapitada num monte, o acesso ao Kwanza é difícil, especialmente para as mercadorias. A cidade mais próxima, o Dondo, que se atravessa na estrada principal, com o sua praia no Kwanza e o caminho-de-ferro, roubou, naturalmente, a importância a esta terra.

Massangano_003
Sombra centenária

Hoje em dia tem um novo posto administrativo, uma esquadra da polícia, um hospital e mais um par de edifícios com aspecto oficial, entre os quais, um comité do MPLA, como não poderia deixar de ser.

A sombra do velho forte é o local de encontro das crianças da terra. Lá têm o seu mundo de faz-de-conta muito a sério. Nos dias em que não há escola, juntam-se todos para brincar. Mas, pelos conhecimentos que demonstram na leitura e escrita, os dias de escola também devem ser lá passados.

Massangano_011
Brincando às mulheres crescidas

Eles jogam à bola ou correm atrás uns dos outros, atirando pedras aos que ficam para trás. Mesmo quando acertam no alvo não se ouvem choros, apenas uma risada alta e solta. O alvejado também ri, embora com menos convicção.

Elas, sabedoras do que lhes reserva o futuro, brincam às cozinhas, repetindo o que as suas mães e avós sempre fizeram à sua frente. Descem ao rio e pescam um peixe. Trazem-no para o forte, onde o amanham e cortam aos pedaços. As mais novas já trataram de fazer lume entre três pedras e de encontrar uma panela ou uma lata que cumpra a mesma função.

Massangano_010
Cacusso das meninas

Alguns meninos, mais pacientes e engenhosos, transformaram latas de leite em pó e concentrado de tomate em verdadeiros bólides de duas e quatro rodas. E conseguiram algo que a indústria automóvel anseia há anos, máquinas não poluentes e económicas. Estas, afinal de contas, não deitam fumo e funcionam com um simples cordel.

Massangano_013
Motociclista com os calções ao contrário

As vantagens destas máquinas não se ficam por aqui. As avarias são raras e, mesmo quando acontecem, não impedem a viagem de modo algum. Um puxão mais vigoroso no cordel resolve atascanços, ultrapassa buracos e pedregulhos inoportunos. E, se o veículo carecer de reparação, as únicas ferramentas necessárias são uma faca e uma pedra.

Massangano_002
Circula sem luzes, como muitos em Luanda

Melhor ainda, é que a polícia fecha os olhos a estes condutores sem carta e com carros desprovidos de matrícula, inspecções ou selos de imposto. Estou para ouvir a história do menino que foi multado enquanto rebocava o seu Rav4 na ponta do cordel.

Dizem os mais pessimistas que estas máquinas têm defeitos. Eu cá não vejo nenhum.

Massangano_004
Repouso

Numa das pontas da povoação, ergue-se a igreja, dedicada a Nossa Senhora da Vitória, a Mamã Vitória. Tem dimensões semelhantes à da Muxima, mas está em muito mau estado de conservação. Foi recuperada há alguns anos, mas depois voltou a ser esquecida.

Massangano_007
Nossa Senhora da Vitória

As árvores começaram a crescer no telhado e nos contrafortes, desfazendo paredes e empurrando telhas. Os morcegos e as cabras invadem o templo fora das horas de culto, uns pelas janelas abertas, outros pelas portas que não fecham.

Massangano_005
Já viu melhores dias

À entrada, pela porta lateral, cruzamos a campa de um padre. Morreu no séc. XVIII, na altura em que Massangano vivia os seus tempos áureos.

Lá dentro, o cheiro a humidade e guano aperta-nos a garganta e faz-nos lacrimejar. Alguns bancos corridos, muito gastos, alinham-se num chão de tijoleira escura, com aspecto antigo. De frente para o altar, no fundo da nave, está o coro, carcomido pelo caruncho e pela chuva. O dia em que cairá já esteve mais longe.

Cinco esculturas adornam a igreja. Quatro, mais pequenas, habitam os nichos laterais. Santo António de Lisboa, duas Nossas Senhoras, uma das quais de Fátima e um santo que não identifiquei. A estátua já estava incompleta e faltavam-lhe os símbolos que o distinguiam dos restantes santos barbudos. Ao centro, sobre o altar, a Nossa Senhora da Vitória tentava abrigar-se da chuva e do Sol a que está exposta. Alguns panos coloridos decoram o templo, numa simplicidade que contrasta com o tamanho do edifício.

Massangano_012
Cá fora, as crianças brincam

Voltamos ao exterior, não vá uma telha cair-nos na cabeça. As crianças que nos acompanharam desde o Forte correm descalças sobre as pedras aguçadas e fazem-nos inveja por poderem viver num mundo sem preocupações.

Mas os mistérios de Massangano não se esgotam só nas suas crianças e marcas do passado. Há tantas coisas, grandes e pequenas, para ver. Basta estar atento…

Massangano_006
Jogando à bola


« Previous PageNext Page »