Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

01 2009

Ex-rua. Mais ou menos.

Uma característica fantástica que os nomes das ruas de Luanda possuem é a sua magnífica ambiguidade. Qualquer rua pode ter vários nomes, desde o nome popular, até ao nome do tempo colonial, passando pelas várias versões do nome pós-independência.

As avenidas mais importantes, com nomes associados ao regime fascista foram, como é natural, baptizadas com nomes mais adequados à nova era da História Angolana. Os heróis do MPLA foram homenageados com uma placa posta à esquina de uma rua, anunciando aquela via como sua.

Só que os hábitos morrem devagar e os nomes das ruas são aprendidos com o hábito. Mais de três décadas passadas sobre o fim da era colonial, as ruas mais importantes ainda mantém os seus nomes na boca das gentes.

É frequente haver confusões sobre moradas, que se resolvem invocando o nome que já não devia ser, mas que ainda é.

«Ali, na Comandante Valódia.»
«Onde?»
«Na rua que sai do Kinaxixi em direcção ao São Paulo.»
«Ah! Nos Combatentes. Podias ter dito logo.»

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Afinal de contas, a placa antiga ainda lá está…

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Simplesmente Combatentes

Que os nomes demorem a morrer na boca do povo ainda se compreende, mas acontece que as novas placas toponímicas não substituíram verdadeiramente as antigas. As duas Luanda, a colonial e a actual, sobrepõem-se em tantos aspectos e este é mais um deles.

Resolvi dar uma volta pelos quarteirões mais próximos de casa e encontrei muitas surpresas.

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Dois-em-um!

Podemos ver as antigas placas toponímicas lado-a-lado com as novas. O nome que se quis censurar acabou por resistir, nem que seja do outro lado da rua. Preguiça de retirar a placa antiga? Urgência em erguer as novas?

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A antiga Rua do Governador Eduardo Costa

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É a actual Rua Serqueira Lukoki

No edifício da Administração Municipal de Luanda, antiga Câmara Municipal, persiste a placa que indica estarmos no Largo Alexandre Herculano, frente-a-frente com a nova nomenclatura.

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Largo Alexandre Herculano

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No edifício da Administração ainda está a morada da Câmara

Até mesmo a Rua Frederick Engels, já alvo de um artigo, ainda ostenta, meio escondida, a placa com o nome antigo.

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Rua de Frederick Engels

A rua do estádio dos Coqueiros, paralela a esta, já mudou de nome. Mas ainda podemos adivinhar como se chamava noutras épocas.

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Rua Francisco das Necessidades Castelo Branco

O Largo do Pelourinho é capaz de ter nome novo. Não sei bem qual será. A placa antiga desapareceu e a nova não se vê. É triangular e tem três frentes de quarteirão. Duas têm agora o nome das ruas que chegam ao largo, a terceira é anónima. Toda a gente lhe chama Largo do Pelourinho…

Nem mesmo a avenida com o nome mais carregado de simbologia ideológica, a Avenida do 1º Congresso do MPLA, teve direito a uma purga completa de todas as marcas coloniais.

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Avenida do 1º Congresso do MPLA

Aliás, não só não se eliminou o nome antigo, como também não se decidiu bem a categoria do arruamento.

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A meio é avenida

Não deixa de ser um facto curioso que a Assembleia Nacional tenha como morada uma rua com o nome do partido no poder… parece-me um pouco promíscuo, sei lá.

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Uns metros mais abaixo, passa a rua

Com este passeio descobri a praga que hei-de rogar a quem me desejar mal: «Que sejas carteiro em Luanda»!


01 2009

AAN e um haiku

Há muitos anos atrás, quando o boletim meteorológico não era apresentado por senhoras escolhidas a dedo pelos seus dotes de fazer boas poses em frente à câmara, mas sim por uns canastrões do Instituto de Meteorologia vestidos para um funeral, havia muito mais a dizer acerca do tempo que faria no dia seguinte.

Hoje em dia sabemos tudo quanto há para saber apenas com meia dúzia de símbolos meio infantis. Ora temos um Sol bem amarelinho e cheio de raios, ora temos umas nuvens fofinhas, ora temos uns risquinhos que tentam dizer que vai chover. Às vezes aparece um borrão que indica nevoeiro ou um cristal de neve. Acrescentam a isto, uns números aproximados das temperaturas máximas e mínimas. Todos sabemos que a máxima anunciada nunca é tão fresca e que a mínima será bem mais gélida. Temos de tentar adivinhar nós como será o dia seguinte. No fundo, é como adivinhar a lotaria apenas com a terminação.

Uma coisa de que me lembro muito bem é a sigla AAN, que costumava aparecer sobre o mapa do país por alturas do Natal. Deixem lá os números e os bonecos, isto sim, descreve bem o tempo. AAN – Acentuado Arrefecimento Nocturno!

Durante o dia, o frio até se suporta. Olhamos pela janela e vemos os pardais inchados, eriçando as penas por causa do frio. Os relvados fumegam e fazem desaparecer o horizonte numa neblina fina, que o Sol baixo não consegue penetrar.

Vemos o nosso bafo e brincamos um bocadinho aos combóios a vapor. Depois cansamo-nos e metemos as mãos nos bolsos. A história do nosso corpo, contada através de quedas e entorses, é-nos relembrada à custa de algumas dores aqui e ali. Começamos a compreender os mais velhos, que se queixam do tempo a mudar.

Mas chega a noite e o frio começa a fazer-se notar. É mais um casaco que se veste, é a cadeira que se aproxima um pouco da lareira. Começamos a desejar ter aproveitado melhor o Sol de Inverno, fraquinho, mas que sabe tão bem nas costas. Até merece um haiku!

Ouvindo um regato que murmura,
Com o Sol de Inverno nas costas.
Paraíso num momento!

Chegada a hora de deitar, percebemos o verdadeiro significado do AAN, quando nos despimos e tentamos entrar na cama à herói. Os lençóis, que nunca se queixam do tempo, parecem estar molhados, de tão frios que estão. A nossa entrada triunfante na cama, com vontade de nos esticarmos, acaba num cobarde tiritar em posição fetal. Os braços seguram os joelhos e expiramos para o peito. Teria sido tão mais sensato ligar o aquecimento umas horas antes… agora não vale a pena.

Acabamos por aquecer a cama e, lentamente, vamo-nos esticando até a ocuparmos toda. Adormecemos profundamente. Sonhamos com um AAN que queira dizer Acentuado Aquecimento Nocturno.

Mas já tinha saudades de um friozinho da Zona Temperada Setentrional. O calor dos trópicos aborrece-nos com a sua monotonia.


01 2009

Ano Novo e um Dardo

O Aerograma entrou no novo ano com uma prendinha. Recebeu o Prémio Dardos de Sal Ober (http://coresemtonsdecinza.blogspot.com/). É bom saber que há quem ache que as minhas aventuras africanas mereçam um prémio.

Transcrevo o texto que acompanha a distinção:

«Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogger, emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Este prémio obedece a algumas regras:
1) Exibir a imagem do selo;
2) Linkar o blog pelo qual se recebeu a indicação;
3) Escolher outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos.”»

Agora só me falta escolher os próximos premiados. Vai ser tarefa difícil, uma vez que gostaria de distinguir aqueles que ainda não receberam este prémio.

– Diário da África (http://diariodaafrica.blogspot.com/)
– Alto Hama (http://altohama.blogspot.com/)
 – Crónicas de Guardanapo (http://cronicasdeguardanapo.blogspot.com/)
– Morro da Maianga (http://morrodamaianga.blogspot.com/)
– NALGA (http://nalga.wordpress.com/)
– Ah! Libanesa! (http://ahlibanesa.blogspot.com/)
– Paletó de Linho (http://paletodelinho.blogspot.com/)

Sei que faltam alguns. Terei tempo de completar a lista quando regressar a Angola. Até lá, deixo o artigo por terminar…


31  12 2008

A revolta dos embondeiros

Que os embondeiros são umas árvores cheias de personalidade, ninguém põe em causa. O que não se esperava deles era uma coisa destas.

Reparei nisso no regresso a Luanda, quando eles seguiam em sentido contrário, apressados e com cara de caso.

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Corre-corre

Habitualmente têm só aquele ar sonhador e paciente. Cruzam-se connosco e quase juramos que nos dão uma chapelada à antiga, segurando a aba do chapéu verde de Verão com aqueles dedos longos parecidos com ramos.

Parei e perguntei a um arbusto que passava o que havia com os mais-velhos vegetais. Não sabia ao certo. Desde manhãzinha que pareciam inquietos. Não paravam de falar, mas não contavam histórias aos mais novos. Era diferente. Quase gritavam, pelo menos a julgar pelo vento que faziam.

Continuei a viagem e fui espreitando os gigantes cinzentos. As suas formas estavam a mudar lentamente, como que sofrendo uma metamorfose. Dos seus ventres brotavam membros novos, de aspecto agressivo.

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Metamorfose

Apesar de arriscado, resolvi barrar o caminho a um. Estava curioso. Onde iria ele com tanta pressa? Tentei meter conversa, mas quase fui mordido e tive de fugir. Nunca pensei que existissem embondeiros carnívoros!

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Sai-me da frente! Olha que te mordo.

Um outro, que já estava cansado de tanto correr, parou para descansar as raízes. Aproveitei para lhe perguntar o que se passava. Pareceu-me menos irado, mas igualmente com cara de caso. A princípio tive alguma dificuldade em percebê-lo. A linguagem das árvores exige muita concentração e, com tanto rebuliço e o sotaque carregado do embondeiro, a tarefa mostrou-se complicada.

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Descansando as raízes

Os embondeiros tinham iniciado uma revolta! Estavam fartos da prepotência humana. Abatem-se árvores por tudo e por nada e já não se escuta os mais-velhos. África não pode continuar assim. Plantem-se árvores! Os embondeiros dirigiam-se para o interior, onde não havia homens. Fundariam o seu país vegetal.

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Farto do Homem

Mas depois veio um pôr-do-Sol de estampa, daqueles que nos deixa de boca aberta, e os embondeiros pararam de correr. Todos, eu e eles, ficámos a ver o Sol pintar o céu de laranja. Foi nessa altura que se aperceberam que o sítio onde mais querem estar é a terra que os viu nascer e abandonaram a ideia da revolta.

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Mas ainda fizeram estragos

Os mais velhos dos mais-velhos fizeram soar a sua voz gasta e contaram histórias acerca de outras tentativas de revolta, lá no tempo em que tinham sido novos. Alucinações da velhice pois, como diz o provérbio, não há embondeiros novos…

Todos os dias se abatem estes gigantes. Ninguém os planta. Um dia acabam-se, sem que se dê por isso. África inteira, não só Angola, tem de olhar pelas suas florestas.

O que vale é que amanhã é um novo ano e isto passa-me!


30  12 2008

Angolanitas

Estava eu entretido a ler um livro à sombra de uma árvore sem nome e sem idade, na pacata cidade do Dondo, quando me comecei a sentir observado.

Olhei em volta, mas consegui apenas ver as zungueiras esperando que um táxi parasse no posto de combustível para abastecer. Ao contrário das de Luanda, as zungueiras do Dondo não perseguem os clientes. Esperam que cheguem, com vontade de esticar as pernas e alguma fome.

Do outro lado da estrada, o funcionário da bomba estirava-se numa cadeira desconjuntada. Os poucos clientes da tarde e o calor puxavam à indolência.

No rio, as lavadeiras estavam escondidas pelo talude das margens e os pescadores prestavam atenção a outras coisas.

Ninguém olhava para mim, mas a sensação de estar a ser mirado de alto abaixo persistia.

Talvez os lagartos que se passeiam nos ramos lá em cima… mas não, hoje não havia lagartos à vista.

Levantei um pouco a cabeça e espreitei pelas costas do banco. Dois pares de olhos pequeninos olhavam para os minhas botas, para as minhas calças, para a minha pele branca.

Duas jovens angolanas semi-nuas prestavam atenção ao que fazia. Já me tinham avisado que as angolanas, desde muito cedo, aprendem a não largar os brancos, mas tão novas é ridículo!

Olhavam para mim e estavam desejosas de fazer perguntas, mas não sabiam como começar. A mais velha brincava com uma flor e desviava os olhos sempre que lhe falava. A mais nova olhava para um e para outro. Procurava segurança na irmã mas não disfarçava a curiosidade. Não, ainda não ando na escola, mas ela sim, já vai. E já sabes ler? Ainda.

A mãe ria-se e dizia para ficarem bonitas para a fotografia. O Toninho, primo das duas queria vir também ver o branco, mas tinha medo e corria para as saias da mãe sempre que eu o encarava.

A mais velha lá ganhou coragem e perguntou o que fazia a máquina amarela do outro lado da estrada. Tentei explicar o melhor que pude o que faz um GPS, mas duvido que tenha percebido. Como se explica isso a quem não conhece mais do que as ruas onde a mãe vende?

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Djanelle e Débora

Despediram-se com um aperto de mão e um sorriso. Voltaram para a mãe, fazendo barulho com as contas coloridas que traziam no cabelo.


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