29
12
2008
Se as obras dos chineses forem tão boas como as suas traduções, Angola está tramada!

Perigo de queda de objectos
É que estes senhores especializaram-se em fazer as coisas três vezes, por metade do preço.
Da primeira vez fazem a obra e cobram metade do preço do concorrente mais directo. Dois meses depois, está tudo estragado e pior do que antes da obra. Nova empreitada, também por metade do preço. Refazem-na com um pouco mais cuidado.
Mais uns meses e tudo como dantes. Terceira empreitada, terceira vez que cobram metade do preço. Se não ficar bem desta vez, será o concorrente seguinte a fazer a coisa, aquele que a devia ter feito logo da primeira vez…
28
12
2008
Às vezes penso que já disse tudo quanto há para dizer acerca dos táxis de Luanda. Aqueles que não são táxis porque fazem serviço de carreira, mas que toda a gente chama táxi por tradição.

Medo, tenham muito medo
À primeira vista, são milhares de furgões Hiace pintados de azul e branco. Depois percebemos que não são só iáces, há muitas outras versões japonesas e coreanas do pequeno furgão citadino. Há também muitas variações nos esquemas de cores com que as frotas são pintadas.

Honesto
Em Luanda, a cor dominante é o azul clarinho, a que damos o nome de azul-cueca. Os táxis oriundos de outras províncias podem vir pintados com um azul escuro. Não sei bem a que se deve essa distinção.

Novo acordo ortográfico
Em África, a vaidade impera e nem os táxis escapam. Cada proprietário procura decorar a sua viatura com um toque muito pessoal. Geralmente opta por pintar nos vidros ou nos painéis laterais uma chavão que o distinga dos demais.

Mas não respeito os direitos alheios
Para os pulas e tugas, são sempre motivo de interese, uma desculpa para levar a máquina fotográfica à rua. Nunca se sabe quando se vai encontrar um nome mais engraçado que os outros.

Promessas, promessas…
Ao fim de algumas semanas em Luanda, o CCRRUUIICC que as portas de correr fazem já nos é familiar. Adivinhamos os milhares de vezes que são abertas e fechadas, testando os limites estabelecidos pelo fabricante como aceitáveis. Algumas já não correm, saltitam na calha com um rangido mal oleado, ameaçando entalar um dedo quando escapam da mão.

Sai da frente!
Imagem de marca é a super lotação. Carrinhas de nove lugares levam facilmente quinze ou vinte pessoas. O cobrador senta-se com o rabo de fora da janela da porta de correr e grita aos passageiros «Emagreçam»!

Cabe sempre mais alguma coisa
A condução inimaginavelmente agressiva faz parte da ideia que se tem dos taxistas. Tudo vale para se ganhar dois ou três metros. Circular nas bermas, em contra-mão ou fechar cruzamentos, tudo é lícito. Ultrapassagens quase sempre mal calculadas e atirar a carrinha para cima de tudo quanto é buraco são apenas sintomas da ganância para ganhar mais uma corrida, mais um cliente.

Dura Lex. Sed Lex.
Nos cruzamentos compram latas de Red Bull, para afastarem o cansaço e as preocupações com a integridade do carro e dos passageiros. Por vezes os planos saem furados e os acidentes acontecem. O aparato é, geralmente muito superior às consequências. Um pequeno toque atrai sempre uma multidão para discutir acaloradamente as circunstâncias do acidente, decidir o culpado e quem paga o arranjo e cobre o prejuízo (mesmo que não haja danos).

Vou chegar primeiro, vou chegar primeiro!
Se os cobradores andam de rabo de fora, os condutores conduzem apenas com a mão esquerda. A direita vai pendurada na janela ou a segurar a pega junto à porta. Os espelhos não são usados. É preferível ir encostando ao carro do lado. O outro condutor acaba por desistir.

Cuidadinho
As generalizações costumam ser injustas, até mesmo nos candongueiros, porque nem todos são assim. Há alguns, poucos, que perceberam ser mais rentável fazer menos corridas por dia do que ganhar muito mas depois ter de reparar a viatura porque andaram aos saltos nos buracos. Levar demasiados passageiros também não é sensato, porque acabam por perder muito mais tempo nas cargas e descargas enquanto os passageiros se contorcem uns por cima dos outros e procuram um espacinho onde se encostar.

Haja alegria
27
12
2008
O Verão tropical não é particularmente quente. A avaliar pelas temperaturas mínimas e máximas, apenas a sua extraordinária monotonia se destaca. Trinta graus de máxima, vinte e cinco de mínima. É quente, mas nada de inusitado.
Aquilo que mais difere dos Verões temperados é a humidade no ar. O ar saturado, com o vapor de água a condensar aos 24º, torna a atmosfera pesada e pastosa. E isso é uma coisa que os termómetros não explicam.
O ar denso cola-se à pele e aos cabelos. Inspirar passa a dar trabalho porque o gás a que estamos acostumados é agora um fluido parecido com o melaço que não quer passar pelas narinas e se acumula no fundo dos pulmões.
Com esta humidade toda, o suor não evapora e os 30º do termómetro parecem muito mais. Tal como o vento aumenta a sensação de frio, a humidade exagerada aumenta a sensação de calor.
Não sou o maior fã de ar condicionado do mundo, mas dou por mim a ansiar o pequeno botão com a luz verde que diz A/C. Na maior parte das vezes até acho desagradável ter uma corrente de ar frio no meio de uma atmosfera tão opressiva, mas, assim que o desligo e começo a suar em bica, mudo logo de ideias.
No escritório cá de casa costumamos ter o aparelho de ar condicionado ligado, tentando manter uma temperatura civilizada entre os 24º e os 26º e sem muita humidade. Com os computadores ligados é essencial. Acontece que a purga entupiu e, até se resolver o problema, não o podemos ligar. Se o fizermos podemos assistir a um espectáculo de águas vivas a salpicar do ventilador até ao chão. Agora está desligado, mas vou-lhe deitando o rabinho do olho na secreta esperança de que tenha pena de mim e comece a trabalhar.
E com tanto suor que não evapora, andamos sempre com a roupa colada ao corpo, envolvidos num banho maria de água salgada. O cabelo empapa suor, a roupa empapa suor, as meias empapam suor e até as notas de Kwanza nos bolsos ficam húmidas e peganhentas.
Os pêlos do corpo habitualmente permitem dar conta dos mosquitos indesejados ainda mesmo antes de terem tempo de nos provarem o sangue. Agora, todos colados à pele, obrigam-nos a estar mais atentos aos bichos voadores.
No final do dia, a roupa tem um cheiro adocicado misturado com o pó de Luanda. Dou por mim agoniado com este meu cheiro a catinga e sensação de sujo. Passo as mãos na cara e no cabelo. Estão húmidos e peganhentos. A pele está reluzente, gordurosa. Meto-me nojo!
Vou para o duche.
26
12
2008
O passado recente de Angola deixou marcas profundas nas gentes e na terra. Algumas dessas marcas são cicatrizes feias como minas e blindados abandonados ou buracos de balas em sítios indevidos. Outras, mais discretas, aparecem nos nomes das coisas, das pessoas e das terras.
As ligações a Cuba e à União Soviética fazem com que já tenha conhecido a minha conta de Vladimirs e de Fidéis. E, devido à guerra recente, também um monte de ex-generais (que agora procuram não referir muito essa sua patente).
A idealogia do Partido Único que, durante décadas, comandou os destinos de Angola, orientou também a nomenclatura “recomendada”. Os altos ideiais da revolução do proletariado dizem que só com esforço se consegue a liberdade. Só o suor garante a independência. Vai daí, nos tempos áureos do socialismo angolano, que é uma coisa muito difícil de explicar, foram surgindo comunas, associações proletárias e de camponenes, com o intuito de fomentar a produção agrícola do país. Os nomes atribuídos a algumas mostram bem que a ideologia não se escondia.

Revolução proletária
E às vezes, basta dar uma olhadela aos mapas do país para se descobrir mais umas pérolas nascidas de uma revolucionarite galopante que varreu o país imediatamente a seguir à independência.
Perto do Dondo, encontramos facilmente nomes sugestivos como a Unidade de produção Lenine, as povoações de Che Guevara, Vitória é certa, 4 de Fevereiro e 1º de Maio, só para citar alguns exemplos…

4 de Fevereiro está em maioria
25
12
2008
Algures na margem do Kwanza, numa terra cheia de História e de histórias, encontrei uns meninos. Acompanharam-me enquanto eu me deixava invadir pela atmosfera calma da povoação e pelo doce fluir do rio lá em baixo.
Enquanto tirava fotografias, fiz perguntas, muitas perguntas, acerca da terra e das casas que via. Perguntei nomes de árvores e de bichos, ouvi histórias de pedras e de feitiços, de miséria e de felicidade.
No caminho por onde seguíamos, surgiu uma árvore diferente das demais. Com a minha tendência ocidental para catalogar as coisas, de lhes dar nome e sentido, perguntei que nome lhe davam ali.
Não tinha nome especial. Era só uma árvore como as outras.
Insisti. Era tão diferente das restantes, que tinha de ter um nome especial.
«A gente chama-lhe a árvore de Natal.»
«Porquê?»
«Porque quando fica assim, vermelha, é sinal que a quadra festiva está a chegar…»

A árvore de Natal angolana
A acácia rubra afinal é a árvore de Natal. É adequado. A que via estava carregada de vagens. Muitas cobriam já o chão. Parecia que não as aproveitavam. Perguntei também o nome e para que as usavam. Fiquei a saber que as sukaias não servem para nada. Provavelmente fazem apenas parte da decoração natalícia.