A duas centenas de quilómetros da capital angolana, numa curva do Kwanza, encontramos mais um sítio interessante, o Dondo.
Tenho reparado que o Kwanza tem um recanto a conhecer a cada curva que faz. A Cabala fica no Kwanza, a Muxima também e agora, já mais distante, o Dondo surge em mais um cotovelo do rio.
Quem não tiver um mapa à mão, pode pensar que o Kwanza faz umas voltas muito esquisitas. Se saímos para Sul, encontramo-lo, mas, se saírmos para Este, damos por nós a cruzar o rio que dá o nome à moeda nacional novamente.
Luanda nunca esteve em guerra. Houve alguns desacatos com alguns tiros disparados aqui e ali, mas guerra a sério nunca teve. Acabamos por nos esquecer que, até há meia-dúzia de anos, a guerra civil ainda fazia parte do quotidiano do resto do país.
Ao sair de Luanda em direcção ao Leste, somos confrontados com a realidade que muitos viveram. Dois velhos tanques guardam uma lomba da estrada para Malanje. Acabaram abandonados e as pessoas refizeram a vida à sua volta.

Sentinela adormecido
O clima de paz é evidenciado pelos postos de controlo abandonados e até pela duração das viagens, que antigamente estavam sujeitas a atrasos devido a situações militares instáveis.
O Dondo, que não mudou de nome com a independência, está agora a pouco mais de duas horas de viagem de Luanda. Pelo caminho encontramos as relíquias da guerra e um posto de controlo à entrada da província do Kwanza Norte. Controlo de passaportes no meio do nada. Já vinha avisado do controlo, mas julguei sempre que se trataria de polícias. Afinal, na berma da estrada está um funcionário do Serviço de Migração e Estrangeiros, com a sua camisa branca e as perguntas da praxe.
Esta será a coisa que mais me custa a habituar em Angola, o constante controlar de movimentos. O constante relembrar que sou estrangeiro. O olhar desconfiado para o visto e passaporte… adiante!
O Dondo surge após a travessia de uma ponte sobre um leito seco. Há poucas casas de chapa. O bairro mais recente tem aspecto de ter sido construído na década de 1950. Semelhante, à sua maneira africana, aos edifícios do Centro Emissor Ultramarino, em Pegões.

Dondo
O centro da povoação, que é pequena, tem um aspecto mais antigo. As casas são de alvenaria de pedra, de paredes grossas e janelas grandes. Fiquei a pensar que terra portuguesa era aquela. Lembrei-me do Alvito ou de Alter do Chão, mas com cores garridas.

Centro
Na esquina oposta ao BPC, encontramos a cervejaria Sol e Pó, do mais-velho Tomás. Está pintada de branco e azul, tal como o banco estatal. O balcão de cimento está polido de tanto uso. A sua cor acastanhada não esconde os milhares de mãos que já lá deixaram gordura.
No frigorífico há gasosas frias e cervejas mornas. Algumas mangas maduras enchem os espaços vazios. A cada cerveja pedida, sai o aviso de que ainda não está fria. Ninguém se importa.

Terra com história
Quando se pergunta se ali só se bebe ou também se pode comer, o dono grita pela Escurinha. A Escurinha, que se chama mesmo assim, gere um negócio paralelo. Cozinha nas traseiras da cervejaria e serve petiscos numa sala com três mesas tortas com vista para o interior do balcão do mais-velho Tomás. Ele cobra as bebidas e ela a comida.

Paredes velhas e tinta nova
A Escurinha faz uns pregos no pão fantásticos, a que chama sandes de bife. Têm um tempero apurado. Acabei por pedir mais um, mesmo sabendo que os médicos da consulta do viajante se estavam já a retorcer antes de eu provar o primeiro. Como não se passou nada, recomendo uma visita à Escurinha!

Telefone 42
A rua principal do Dondo, com as suas árvores velhas de risca branca a fazer de polaina, trazem aquela sensação de familiaridade estranha. Quando se vai a um país estrangeiro, é natural que se vejam coisas diferentes, mas aqui…

Marcas do tempo
Desde há muitos anos que me fascino com portas. Separam o mundo privado do espaço público, a vida privada da que mostramos aos outros.
Nalguns países, as portas são tratadas apenas como a fronteira. São objectos funcionais, que aumentam o conforto e impedem acessos. Noutros locais, são mais que isso, protejem os ocupantes de espíritos e feitiços e são decoradas com símbolos poderosos.
Outras civilizações preocupam-se não só com o aspecto funcional da porta, mas também com o seu aspecto estético, criando conjuntos interessantes.
Tenho fotografado portas por esse mundo fora. Algumas lindas, outras banais. Todas partilham a magia de serem portas. E cada local tem um estilo próprio de portas. As mais feias que vi, foi na Letónia…
Há locais onde a arquitectura é semelhante, como na fronteira entre França e Suíça, mas de cada lado da fronteira as portas apresentam estilos diferentes.
Em Angola esperava ter a mesma sensação, mas dei por mim a fotografar as portas com que cresci…

Porta dos Paços do Conselho
Ao contrário do que acontece perto de Luanda, andar de máquina fotográfica na mão no Dondo não levanta problemas. Excepto se não quisermos fotografar pessoas. Todos querem que lhe tirem o retrato. Todos sorriem e pedem mais uma fotografia. Mas depois não querem ver o resultado nem perguntam quando lhes dou a foto. No Kwanza Norte são diferentes.
Sendo o único branco na terra, fui o centro das atenções. Todos me queriam conhecer. E alguns cometeram a proeza de me reconhecer!
Durante o almoço, dois polícias à paisana até se ofereceram para me acompanhar e mostrar a terra. Começaram a conversa tentando adivinhar qual a minha nacionalidade. Tentaram dizer umas palavras em chinês, com sotaque africano. Eu sorria. Depois arranharam o inglês. «Português», disse eu. Do outro lado da esplanada disseram que era angolano.
Com o calor a apertar e o apelo de uma cerveja morna à sombra, acabaram por ficar sentados na esplanada da cervejaria e fui sozinho, com o número de telefone de um deles, não fosse o caso de alguém me incomodar enquanto fotografava a cidade.

Compañero João Ambriz
Uns quarteirões mais à frente, um mais-velho olhou para mim e começou a falar em Castelhano. Ubiera estado em La Havana y tenia mucho orgullo en todos los compañeros de Cuba, gracias!
Porreiro, em Angola já sou confundido com árabes, chineses, brasileiros e cubanos, que mais faltará?
A resposta surgiu na esquina seguinte.

Ana Maria
A Ana Maria veio-me cumprimentar efusivamente. Pediu que lhe tirasse a fotografia e depois perguntou se estava tudo bem comigo, que já não me via há muito tempo. Disse-lhe que devia estar enganada, porque era a primeira vez que vinha ao Dondo. «Mas não és o filho do Sr. que morava ali naquela casa»? Apontou para uma casa em ruínas. Confundiu-me com o filho de um dos colonos.

Ferro forjado
A minha primeira impressão da cidade foi a de que a construção era oitocentista. Fui descobrindo, aqui e ali, algumas portas de casas e candeeiros de ferro fundido confirmavam as suspeitas.
Os candeeiros mostram que nas colónias, mesmo no séc. XIX, já havia locais onde o progresso chegou primeiro que à metrópole.

Jogos de sombras
Mas o Dondo não é só a cidade. É, acima de tudo, o Kwanza. É lá que se passa tudo. Durante todo o dia a azáfama das margens contrasta com a pacatez das ruas.
As lavadeiras ocupam uma grande extensão da praia e partilham a água com banhistas, que levam câmaras de ar para o rio. Mergulham, nadam e chapinham na água a cheirar a sabão. Canoas fazem serviço de táxi de uma margem para a outra.
Algumas canoas são conduzidas a remo e outras à vara. O rio não é muito profundo. Pelo tráfego e pelo aspecto das margens, ficamos com a impressão que se lava na margem esquerda e que se põe a roupa a corar na margem direita.

Lavadeiras e banhistas
No meio das canoas-táxi, que deviam ser pintadas de azul e branco, para evitar confusões, circulam outras, com menos gente. São os pescadores, que procuram um local onde lançar a rede.

Barqueiros
E, como não poderia deixar de ser, há crianças por todo o lado. Algumas brincam no rio, outras acompanham as mães a vender fruta e peixe frito.

Quatro crianças, duas cuecas
Duas mais curiosas, vieram pôr-se a jeito para a fotografia. A mãe dizia para virem ter comigo. Um irmão mais tímido nunca foi capaz de se aproximar de mim. Tinham saias feitas do mesmo pano e missangas coloridas iguais no cabelo. Não havia dúvida de que eram irmãs.

Djanela e Débora
A mais nova quer ser professora quando for grande. A mais velha, do alto dos seus quatro anos, diz que ainda não sabe. Mas faz perguntas, muitas perguntas.
No fim do dia deixei o Dondo, mas sei que vou voltar.