Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

24  12 2008

Natal tropical

Há certas tradições trazidas pelo colono que acabam por parecer deslocadas nos trópicos. Uma delas é o Natal.

A celebração do Solistício de Inverno, culto antigo que acabou por ser cristianizado,fazia todo o sentido no hemisfério norte. O dia mais curto do ano marcava o pico da estação mais difícil e, a partir daí, já se começava a antever a abundância da Primavera.

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Rito pagão: linchar o Pai Natal

A celebração do Natal, como rito cristão, faz sentido em Angola, mas toda a simbologia e folclore importados de outras paragens dá a ideia de uma má colagem. Uma imitação foleira, digamos.

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Um Pai Natal preto e um Pai Natal branco, só falta o mulato

As tradições não são muito diferentes das portuguesas. A Consoada tem um prato a que se chama simplesmente Cozido. É necessário aplicar a técnica das meias palavras para se descobrir que se trata de bacalhau cozido com batatas, couve e grão-de-bico. O almoço do dia de Natal já tem um toque mais africano, com um funge familiar.

As decorações natalícias são simples. Algumas luzes aqui e ali, na sua grande maioria de cariz nacionalista e patriótico, revelando uma certa angolanidade na celebração. Não seria de esperar coisa diversa de um país onde até a publicidade a água de mesa enche de orgulho patriótico qualquer cidadão.

Desde o final de Novembro que se vê zungar pinheiros de plástico e jogos de luzes para as decorar. Os brinquedos de plástico chineses também invadiram as ruas.

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Árvores de Natal com 30º

As visões mais estranhas são os Pais-Natal nas lojas. Alguns, de carne e osso, suam debaixo das suas barbas postiças, cuja alvura contrasta com a cor de pele do portador.

Sempre que oiço falar no Natal penso em castanhas assadas e algum frio. Olho à volta e nada me parece familiar… o Natal dos trópicos é estranho.


23  12 2008

O “Especialista”

Há dias em que se tem de gramar um ou outro comentário mais racista, que nos relembra a cor da pele ou falta de angolanidade. Já faço de conta que não oiço. Mas nem sempre ser branco é mau sinal.

Já tenho servido para tirar umas teimas aqui e ali, onde é necessária uma opinião imparcial. O mais engraçado é tirar dúvidas aos homens que vão às compras.

Dois homens discutem entre si enquanto viram uma caixa de vinho em todas as direcções. Roda daqui, diz que é vinho. Roda dali, diz que é whisky. Põem-na na prateleira e tiram outra caixa igual. Mais umas voltas e não chegam a nenhuma conclusão. Nisto, passo por eles.

«Mais-novo», que eles já eram entradotes, «sabe ler inglês? É que não percebemos se isto é vinho ou whisky.»

Era vinho branco seco Sul-Africano, obviamente só com um rótulo em inglês e sem qualquer desenho que pudesse ajudar a adivinhar o conteúdo.

Depois de explicar o que era, perguntaram-me se era bom. Eu até nem aprecio vinho…

Noutra ocasião, tive de prestar declarações numa espécie de interrogatório sobre azeites. «Este é bom?» «Sim, esse é Extra-Virgem, é o melhor.» «Então e este, não presta?» «Esse também é bom, mas usa-se mais para cozinhar. O outro é para temperar.» «Mas com este também se pode cozinhar?» «Sim, mas o Extra-virgem é mal-empregue para fritar. É melhor para temperar.»

Acabaram por levar o Extra-Virgem, mas só porque era mais caro…


22  12 2008

Horizontes largos

Será que a paisagem molda o espírito das gentes? Nunca tinha pensado seriamente no assunto, até ao dia em dei por mim no meio de África, admirando um horizonte infinito, com pássaros a fazer a banda sonora.

Portugal é um país pequeno. Muito variado, é certo; mas acima de tudo, é pequeno. No horizonte está sempre à espreita uma povoação qualquer, uma marca de civilização.

Em África, até bem para lá do horizonte só há mais África. Muito, muito longe, encontramos uma povoação. Se tivermos sorte, haverá uma estrada que nos leva de volta à civilização de que dependemos para sobreviver.

Começo agora a compreender o espírito empreendedor dos retornados, que tomavam cada obstáculo como mais uma oportunidade. Lá em África (no tempo deles) e cá em África (no meu tempo), as coisas que damos por certas em Portugal, não existem. Se se quer alguma coisa é preciso fazê-la, ser auto-suficiente, lutar.

É que, lá no meio de África, temos a sensação de que não podemos depender de mais ninguém para além de nós mesmos. Todas aquelas pequenas coisas que achamos significarem civilização estão ausentes. Água, electricidade, comida, tudo são desafios.

Em Portugal, também devido ao seu tamanho, as pessoas são mais reservadas. Há sempre alguém por perto, observando o que fazemos ou deixamos de fazer. Na imensidão de África, as gentes são poucas e o espaço é mais que muito para dar largas até às emoções.

No cimo de um monte, tendo o Kwanza a inspirar-me lá em baixo, enchi os pulmões com cantos de pássaros e os olhos com os verdes que não acabam. Pensei na magnífica sensação de liberdade que me invadia e senti o espírito a crescer. Maravilha!


A fotografia não lhe faz jus

Quem aqui cresceu tem de ser diferente!

Imaginei o que seria poder percorrer as matas que me rodeavam. Depois lembrei-me dos paus vermelhos e brancos que tinha visto umas horas atrás. Voltei a contemplar o que me rodeava e tentei imaginar quantas minas ainda se escondiam por ali… a sensação de liberdade foi-se. Ficou apenas um amargo de boca. Olhava o fruto proibido…


21  12 2008

Pastilhas Gorila

Na sala de espera do aeroporto do Lobito há quatro ventoinhas no tecto. Três delas rangem alternadamente enquanto agitam o ar e as moscas à sua volta. Lá fora, ao Sol, as cigarras rangem também, fazendo coro com as ventoinhas. Sons de Verão.

Tal como nos restantes aeroportos do mundo, aqui também já chegaram as cadeiras desconfortáveis. Começo a achar que servem apenas para moderar as expectativas dos passageiros. Em comparação com estas, os bancos dos aviões são o cúmulo do conforto.

Na sala quente ninguém se mexe. Só mesmo as lâminas das ventoinhas e os seus reflexos distorcidos nas cadeiras de braços cromados perturbam a imobilidade da sala e da paisagem lá fora.

Num canto da sala há um bar minúsculo. Lá dentro trabalham duas empregadas, que usam batas azuis com folhos nas mangas. São tão parecidas que quase parecem farda, mas é evidente que foram compradas a uma qualquer zungueira.

Partilham o espaço com uma arca congeladora, um frigorífico, um fogão e uma mesa quadrada. Uma atende ao balcão enquanto a outra se senta num banco baixo, lá no canto. No chão, escondido atrás da mesa, está um alguidar verde onde tempera carne. As moscas, por alguma razão, não deixam aquele canto.

Longe de casa, quase tudo serve para despertar recordações. Comprei uma garrafa de água. Custou 90 Kz. Paguei com uma nota de 100 e recebi o troco em pastilhas… já não me aconteciam coisas destas há muito tempo. Eram pastilhas Gorila, fabricadas lá perto de Lisboa e fazem parte das minhas recordações de infância.

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Directamente do Algueirão


20  12 2008

Dondo

A duas centenas de quilómetros da capital angolana, numa curva do Kwanza, encontramos mais um sítio interessante, o Dondo.

Tenho reparado que o Kwanza tem um recanto a conhecer a cada curva que faz. A Cabala fica no Kwanza, a Muxima também e agora, já mais distante, o Dondo surge em mais um cotovelo do rio.

Quem não tiver um mapa à mão, pode pensar que o Kwanza faz umas voltas muito esquisitas. Se saímos para Sul, encontramo-lo, mas, se saírmos para Este, damos por nós a cruzar o rio que dá o nome à moeda nacional novamente.

Luanda nunca esteve em guerra. Houve alguns desacatos com alguns tiros disparados aqui e ali, mas guerra a sério nunca teve. Acabamos por nos esquecer que, até há meia-dúzia de anos, a guerra civil ainda fazia parte do quotidiano do resto do país.

Ao sair de Luanda em direcção ao Leste, somos confrontados com a realidade que muitos viveram. Dois velhos tanques guardam uma lomba da estrada para Malanje. Acabaram abandonados e as pessoas refizeram a vida à sua volta.

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Sentinela adormecido

O clima de paz é evidenciado pelos postos de controlo abandonados e até pela duração das viagens, que antigamente estavam sujeitas a atrasos devido a situações militares instáveis.

O Dondo, que não mudou de nome com a independência, está agora a pouco mais de duas horas de viagem de Luanda. Pelo caminho encontramos as relíquias da guerra e um posto de controlo à entrada da província do Kwanza Norte. Controlo de passaportes no meio do nada. Já vinha avisado do controlo, mas julguei sempre que se trataria de polícias. Afinal, na berma da estrada está um funcionário do Serviço de Migração e Estrangeiros, com a sua camisa branca e as perguntas da praxe.

Esta será a coisa que mais me custa a habituar em Angola, o constante controlar de movimentos. O constante relembrar que sou estrangeiro. O olhar desconfiado para o visto e passaporte… adiante!

O Dondo surge após a travessia de uma ponte sobre um leito seco. Há poucas casas de chapa. O bairro mais recente tem aspecto de ter sido construído na década de 1950. Semelhante, à sua maneira africana, aos edifícios do Centro Emissor Ultramarino, em Pegões.

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Dondo

O centro da povoação, que é pequena, tem um aspecto mais antigo. As casas são de alvenaria de pedra, de paredes grossas e janelas grandes. Fiquei a pensar que terra portuguesa era aquela. Lembrei-me do Alvito ou de Alter do Chão, mas com cores garridas.

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Centro

Na esquina oposta ao BPC, encontramos a cervejaria Sol e Pó, do mais-velho Tomás. Está pintada de branco e azul, tal como o banco estatal. O balcão de cimento está polido de tanto uso. A sua cor acastanhada não esconde os milhares de mãos que já lá deixaram gordura.

No frigorífico há gasosas frias e cervejas mornas. Algumas mangas maduras enchem os espaços vazios. A cada cerveja pedida, sai o aviso de que ainda não está fria. Ninguém se importa.

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Terra com história

Quando se pergunta se ali só se bebe ou também se pode comer, o dono grita pela Escurinha. A Escurinha, que se chama mesmo assim, gere um negócio paralelo. Cozinha nas traseiras da cervejaria e serve petiscos numa sala com três mesas tortas com vista para o interior do balcão do mais-velho Tomás. Ele cobra as bebidas e ela a comida.

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Paredes velhas e tinta nova

A Escurinha faz uns pregos no pão fantásticos, a que chama sandes de bife. Têm um tempero apurado. Acabei por pedir mais um, mesmo sabendo que os médicos da consulta do viajante se estavam já a retorcer antes de eu provar o primeiro. Como não se passou nada, recomendo uma visita à Escurinha!

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Telefone 42

A rua principal do Dondo, com as suas árvores velhas de risca branca a fazer de polaina, trazem aquela sensação de familiaridade estranha. Quando se vai a um país estrangeiro, é natural que se vejam coisas diferentes, mas aqui…

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Marcas do tempo

Desde há muitos anos que me fascino com portas. Separam o mundo privado do espaço público, a vida privada da que mostramos aos outros.

Nalguns países, as portas são tratadas apenas como a fronteira. São objectos funcionais, que aumentam o conforto e impedem acessos. Noutros locais, são mais que isso, protejem os ocupantes de espíritos e feitiços e são decoradas com símbolos poderosos.

Outras civilizações preocupam-se não só com o aspecto funcional da porta, mas também com o seu aspecto estético, criando conjuntos interessantes.

Tenho fotografado portas por esse mundo fora. Algumas lindas, outras banais. Todas partilham a magia de serem portas. E cada local tem um estilo próprio de portas. As mais feias que vi, foi na Letónia…

Há locais onde a arquitectura é semelhante, como na fronteira entre França e Suíça, mas de cada lado da fronteira as portas apresentam estilos diferentes.

Em Angola esperava ter a mesma sensação, mas dei por mim a fotografar as portas com que cresci…

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Porta dos Paços do Conselho

Ao contrário do que acontece perto de Luanda, andar de máquina fotográfica na mão no Dondo não levanta problemas. Excepto se não quisermos fotografar pessoas. Todos querem que lhe tirem o retrato. Todos sorriem e pedem mais uma fotografia. Mas depois não querem ver o resultado nem perguntam quando lhes dou a foto. No Kwanza Norte são diferentes.

Sendo o único branco na terra, fui o centro das atenções. Todos me queriam conhecer. E alguns cometeram a proeza de me reconhecer!

Durante o almoço, dois polícias à paisana até se ofereceram para me acompanhar e mostrar a terra. Começaram a conversa tentando adivinhar qual a minha nacionalidade. Tentaram dizer umas palavras em chinês, com sotaque africano. Eu sorria. Depois arranharam o inglês. «Português», disse eu. Do outro lado da esplanada disseram que era angolano.

Com o calor a apertar e o apelo de uma cerveja morna à sombra, acabaram por ficar sentados na esplanada da cervejaria e fui sozinho, com o número de telefone de um deles, não fosse o caso de alguém me incomodar enquanto fotografava a cidade.

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Compañero João Ambriz

Uns quarteirões mais à frente, um mais-velho olhou para mim e começou a falar em Castelhano. Ubiera estado em La Havana y tenia mucho orgullo en todos los compañeros de Cuba, gracias!

Porreiro, em Angola já sou confundido com árabes, chineses, brasileiros e cubanos, que mais faltará?

A resposta surgiu na esquina seguinte.

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Ana Maria

A Ana Maria veio-me cumprimentar efusivamente. Pediu que lhe tirasse a fotografia e depois perguntou se estava tudo bem comigo, que já não me via há muito tempo. Disse-lhe que devia estar enganada, porque era a primeira vez que vinha ao Dondo. «Mas não és o filho do Sr. que morava ali naquela casa»? Apontou para uma casa em ruínas. Confundiu-me com o filho de um dos colonos.

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Ferro forjado

A minha primeira impressão da cidade foi a de que a construção era oitocentista. Fui descobrindo, aqui e ali, algumas portas de casas e candeeiros de ferro fundido confirmavam as suspeitas.

Os candeeiros mostram que nas colónias, mesmo no séc. XIX, já havia locais onde o progresso chegou primeiro que à metrópole.

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Jogos de sombras

Mas o Dondo não é só a cidade. É, acima de tudo, o Kwanza. É lá que se passa tudo. Durante todo o dia a azáfama das margens contrasta com a pacatez das ruas.

As lavadeiras ocupam uma grande extensão da praia e partilham a água com banhistas, que levam câmaras de ar para o rio. Mergulham, nadam e chapinham na água a cheirar a sabão. Canoas fazem serviço de táxi de uma margem para a outra.

Algumas canoas são conduzidas a remo e outras à vara. O rio não é muito profundo. Pelo tráfego e pelo aspecto das margens, ficamos com a impressão que se lava na margem esquerda e que se põe a roupa a corar na margem direita.

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Lavadeiras e banhistas

No meio das canoas-táxi, que deviam ser pintadas de azul e branco, para evitar confusões, circulam outras, com menos gente. São os pescadores, que procuram um local onde lançar a rede.

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Barqueiros

E, como não poderia deixar de ser, há crianças por todo o lado. Algumas brincam no rio, outras acompanham as mães a vender fruta e peixe frito.

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Quatro crianças, duas cuecas

Duas mais curiosas, vieram pôr-se a jeito para a fotografia. A mãe dizia para virem ter comigo. Um irmão mais tímido nunca foi capaz de se aproximar de mim. Tinham saias feitas do mesmo pano e missangas coloridas iguais no cabelo. Não havia dúvida de que eram irmãs.

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Djanela e Débora

A mais nova quer ser professora quando for grande. A mais velha, do alto dos seus quatro anos, diz que ainda não sabe. Mas faz perguntas, muitas perguntas.

No fim do dia deixei o Dondo, mas sei que vou voltar.


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