Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

22  11 2008

A necessidade aguça o engenho

Ao fundo da Rua do Laboratório de Engenharia de Angola, uma loja vendia móveis e electrodomésticos. O seu letreiro azul e branco fazia uma relação pormenorizada de todos os produtos disponíveis, com as normais gralhas angolanas.

Entretanto, mudou de ramo. Durante umas semanas esteve fechada, com jornais a cobrir os vidros da montra. Foram ficando amarelos e ressequidos porque o clima de cá não perdoa.

Um dia vemos um mestre pintor a mudar a relação dos produtos vendidos. Passou a ser mais uma loja de peças de automóveis. Ainda por cima só de carros caros. Mas nem todos com o nome correcto, como seria de esperar.

Durante uns dias pude apreciar o desenhar das letras a lápis e o preenchimento cuidado de cada uma com tinta azul. Aquele azul-cueca fez-me lembrar a Faculdade de Ciências… belos tempos.

Mas o Verão já está a chegar. O Sol brilha com mais vigor e o cacimbo já não mantém o calor afastado. Só se está bem na sombra. Até as zungueiras passaram a usar o pano a cobrir a cabeça.

O nosso artista não tinha chapéu e a altura do Sol amedrontava as sombras, que se colavam às paredes. Reparei que trazia uma t-shirt alusiva a um programa de televisão onde se remodelam casas. Era adequada.

Como o trabalho tinha de ser feito, há que proteger a cabeça. Juntando um cartão com um buraco redondo no meio a uma caixa de chá Lebest, obtemos um magnífico chapéu, capaz de proteger a moleirinha do Sol tropical que tem aquecido Luanda.

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Engenheiro!


21  11 2008

O drama, a tragédia, o horror!

Quando não se sabe muito bem o que fazer para o jantar é preciso recorrer à imaginação e inventar qualquer coisa com o que se encontra nos armários e no frigorífico.

Como já tinha descongelado um peito de frango brasileiro (halal, por sinal), pensei que um arroz de carne não fosse má ideia. No entanto, só no final é que teria a certeza do que resultaria.

Ainda antes de saber o que vai sair, começamos por pôr um pouco de azeite num tacho para fazer um refogado, a base da culinária portuguesa!

A seguir pica-se uma cebola. Se a encontrarmos… O drama! A tragédia! O horror! Não há cebolas! E agora? Como se faz um refogado sem cebola?

Quando fomos ao Jumbo não trouxemos cebolas. As que lá tinham estavam tão podres que até cheiravam mal. Fui à mercearia da esquina. À noite, todos olhavam para mim e pensavam no mesmo que eu: «Haverá alguma coisa mais deprimente que um branco de calções?»

Tinham sete batatas, um abacaxi, alguns pêssegos com bolor e bananas com aspecto de terem sido atropeladas por um candongueiro. Nada de cebolas.

Estava-me a parecer que um refogado decente se mostrava cada vez mais difícil.

Quem não tem cão, caça com gato. E quem não tem cebola, refoga com… alho? E porque não? Logo se verá como sai.

Alho picado para o azeite. Deixa-se ganhar cor. Junta-se o tomate. Foge-se do PSHHH e dos salpicos. Junta-se o sumo do tomate. Juntam-se alguns condimentos.

O frango brasileiro vai para o tacho cortado aos cubos. Junta-se pouco de água quente e deixa-se apurar. Uma chávena de arroz basmati acaba lá dentro. Juntam-se vinte minutos de lume brando.

Ponho-me a pensar no frango halal. É morto à mão por causa do preceito Islâmico ou porque as máquinas são caras? Lembro-me da comunidade judaica em Lisboa que, à falta de talho kosher, se abastece no talho halal. O talhante muçulmano agradece a freguesia. Se em Lisboa são bons vizinhos, porque não o conseguem ser lá na ponta do Mediterrâneo?

O cronómetro começa aos saltos no armário e desperta-me dos pensamentos de judeus, muçulmanos, brasileiros e frangos. Está pronto. Tudo para a mesa!

Até nem correu mal. Deixa cá provar. Bolas, esqueci-me do sal!


20  11 2008

Afinal somos boas pessoas!

Os angolanos são crentes. Não interessa se nas religiões animistas e tradicioniais, se no cristianismo católico ou protestante, se nas confissões evangélicas de igreja-espectáculo. Acreditam no misticismo, nos feiticeiros e nos poderes dos santos de todas as formas e feitios.

A padroeira de Angola, a Nossa Senhora da Muxima é das figuras mais veneradas. A sua crença está bem enraizada nos angolanos. Dizem ser muito poderosa, capaz de realizar as graças mais difíceis, os pedidos impossíveis e as curas milagrosas.

Todos os anos, pelo quinto dia de Setembro, milhares de angolanos rumam à Muxima, a Sul de Luanda. No ano de eleições legislativas, antecipou-se esta data e a festa decorreu a meio de Agosto. Estou curioso quanto ao nome que se dará aos crentes que partem para a Muxima. Os peregrinos vão a Santiago de Compostela e os romeiros vão a Roma. Muximeiros?

De qualquer das formas, quem vai à Muxima leva consigo um pedido que sabe será atendido pelos poderes infinitos da Senhora.

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Medicamentos inspirados

Até há bem pouco tempo, cada um pedia vida melhor para si e para os seus. Hoje em dia, com uma cidade cada vez mais complicada do ponto de vista das relações humanas, há quem vá pedir desgraças para os vizinhos. A Senhora da Muxima é encarada como um feiticeiro que lança maus-olhados, desgraça e morte.

Nestas coisas que misturam ritos cristãos com crenças tradicionais em feitiços, até os muitos acidentes que acontecem a caminho do santuário têm uma explicação simples.

Os defensores da Santa dizem que ela se fartou. Que se aborreceu de tanto pedido feio, de tanta maldade. Passou a castigar aqueles que se dirigiam ao santuário com más intenções. A Senhora da Muxima começou a virar os barcos que atravessavam o Kwanza, atirando os espíritos impuros para a boca dos jacarés que, como bons devotos agradeciam ter visto as suas preces atendidas. Uma Santa tão poderosa atende as preces de todos, humanos ou jacarés.

Quando contámos que fomos visitar a Muxima, perguntaram-nos, preocupados, se tínhamos passado sobre as águas. Dissemos que sim. Contaram-nos a história dos barcos que se viram e dos jacarés que fazem a obra da Senhora… o nosso não se virou, por isso está provado, somos boas pessoas!


19  11 2008

Negro que brilha

Quando cheguei a Luanda, o nome das frotas de candongueiros dava-me, na maioria das vezes, para sorrir. À primeira vista, era cada um mais parvo que o anterior. Iáces azuis-e-brancas que se distinguiam pelo nome da frota. A pouco e pouco comecei a perceber que os chavões eram a melhor maneira de fazer o táxi ficar na memória. Há diferenças nos serviços e a concorrência é feroz.

Quem circula nos carros da frota Kamikaze tem a garantia de um rádio a tocar num volume desumano, que se sente mais do que ouve. Os passageiros chegam ao seu destino surdos, mas com os músculos relaxados, tal é a massagem dos buracos na estrada e das pancadas da aparelhagem. A frota Vampiro tem os vidros fumados e passa música electrónica. Depois há os Ferrari, os Fortaleza do Guetho, os Defesa do Prenda e muitos outros.

No meio de tanta oferta, houve um em particular que me chamou à atenção. A frota dos Negro que brilha! Numa terra em que o tom da pele chega quase a ser tabu, é curioso como se usava para distinguir uma frota de candongueiros.


Brilhante!

Mas a parte mais estranha era a do brilho. O que é um negro que brilha? Porque não chamar à frota apenas Brilhante ou algo similar? Agora que sei mais das gentes e da terra que me acolhe, percebo que tinha mesmo de ser Negro que brilha. Na verdade, é quase um grito nacionalista, que não tem equivalente em mais nenhuma parte do mundo.

Desde sempre me achei capaz de distinguir os angolanos dos demais africanos. Não sabia bem porquê. Ou melhor, sabia, mas não o conseguia explicar de forma coerente. Foi durante uma conversa com os nossos técnicos que me apercebi que o verdadeiro angolano tem brilho. É um negro brilhante. Brilha no sorriso e na pele. Os congoleses são baços e os namibianos cinzentos. Tal como os guineenses são quase azuis, os angolanos são luzidios e brilham! Era esse o termo que me faltava. Agora já o consigo explicar. Há pequenas notas de cultura que não vêm nos livros e que só se aprendem pelo contacto próximo. Esta é uma delas. os angolanos comparam-se aos vizinhos dizendo que são brilhantes! Assim sendo, a frota Negro que brilha bem se poderia chamar Angolano de gema

É engraçado como, aquilo que parecia ser mais um nome parvo, afinal acaba por ser o mais genuíno de todos!


18  11 2008

Regresso à Muxima

Luanda dá cabo dos nervos a qualquer um. De vez em quando é preciso esticar as pernas ao espírito, só para não dar em maluco.

A vida fora da capital tem ritmos e bases diferentes. As pessoas são pessoas. Não foram desumanizadas pelos esquemas e jogos da cidade grande. Ninguém nos pede dinheiro para ficar a controlar o carro e os olhares trocados já não denunciam a cobiça pela carteira do pula.

Depois de uma curta visita ao mangueiral do outro lado do rio, na Cabala, ficou decidido voltar a fazer a viagem, rumando até ao Santuário da Muxima. Os últimos dias em Luanda exigiam-no!

Como sempre, os planos de sair cedinho foram postos de parte lá pelas onze. Mesmo assim, resolvemos sair. Tratámos de compôr o farnel e fizemo-nos à estrada. Cerca de duas horas depois, esperávamos o fim da pausa dos barqueiros.

A Cabala estava, na sua maneira especial, linda. Nesta travessia, que julgo ter sido a última, porque a ponte está quase concluída, nem tirei fotografias. Voltei a perder-me nos pensamentos dos barcos e dos rios.

Vi os porcos deitados na lama olhando as lavadeiras quase nuas ali ao lado. Vi dois homens a lavar a roupa enquanto três mulheres assistiam. Vi as crianças a atirar água umas às outras. Reparei que a espuma branca que saía das hélices completava o jogo de cores da jangada azul. A sombra das mangueiras estava à nossa espera para o almoço. Atracámos.

A estrada até à Muxima ainda está a ser reparada. Depois da época das chuvas vai ficar em mau estado, mas, até lá, circula-se bem. Cerca de três quartos de hora depois de comer, o cotovelo do Kwanza aparece no sopé de um monte. O verde das margens contrasta com a paisagem vermelha e cinzenta que nos tem acompanhado nos últimos quilómetros.

Desta vez já não vi lavar a igreja. Voltei a não entrar. Toda a gente se descalçava e deixava os chinelos à porta. Eu estava de botas.

Muita gente dormia a sesta à sombra da igreja. No rio, homens e mulheres tomavam banho. Elas, com as crianças, perto das pedras onde lavam a roupa. Eles, uns metros mais abaixo.

No jardim da igreja, cada arbusto ou sebe tinha uma peça de roupa a corar ao sol. Algumas crianças brincavam com os tachos e panelas vazios. Dois rapazes esticavam a pele de um tambor alto com capim a arder. Noutro recanto, mais quatro rapazes formavam um quadrado e rezavam o terço, com as mãos levantadas como se segurassem uma bandeja.


Afinando o tom

O serviço religioso começou. Os adultos foram entrando e as crianças continuaram as suas brincadeiras, agora com menos constrangimentos. Riam quando escorregavam pelo muro. Bateram palmas quando o mais novo aprendeu a fazê-lo.


Acrobacias

Chegada a hora do regresso, despedimo-nos da Muxima. Voltaremos em breve. É um sítio bonito em tantos aspectos. Apetece ficar cá mais tempo e falar com as pessoas, aproveitar cada momento.

Na berma da estrada, uma menina retribuia o aceno, enquanto o Kwanza ficava para trás. Um pouco mais à frente, à saída da povoação tivemos direito a mais um momento raro. Miúdos a brincar com brinquedos feitos por eles. As brincadeiras em Luanda são mais raras e as crianças não têm oportunidade de construir coisas com tanto esmero.


A corrida

Parámos para conversar. Que diferença para os miúdos de Luanda que, desde pequenos aprendem a ser desconfiados e a dominar esquemas! Estes sorriem, mostram-se orgulhosos da sua obra. Não pedem kwanzas…

Apresentei-me a cada um deles. E cada um falou da sua máquina.


O Bitó tem um Land Cruiser que vai a todo o lado

Com muito engenho, latas de salsichas, óleo ou margarina são transformadas nos carros de sonho de cada um.


O Simão tem um camião grande

Dobras e cortes estratégicos dão forma às carroçarias e às suspensões de cada carro.


O Alberto tem um Unimog da Polícia

O Alberto mostrava um Unimog com todos os detalhes. Grelhas de radiador, encostos de cabeça e, acima de tudo, polícias armados na caixa de carga, como vê no quartel da polícia da Muxima.


Com polícias armados na traseira

Os detalhes com que construíu este brinquedo são impressionantes. Até podemos reconhecer uma AK-47 nas mãos de um polícia de ar espantado.


O Gerson tem um Nissan Patrol

Se não fosse um acto criminoso, ter-me-ia oferecido para comprar os carros todos. São obras de arte! É claro que nunca me seria capaz de voltar a olhar ao espelho sem sentir remorsos. Estes miúdos correm à frente dos sonhos que puxam na ponta de um cordel. Não será a minha cobiça que os impedirá.


O Simão mais novo tem um Toyota Rav4

De qualquer das formas, nunca poderia encontrar nada que pudesse ser uma troca justa. Não se pode oferecer um brinquedo já feito a artistas destes. Não se pode oferecer dinheiro.

A solução que vejo, é ser eu a fazer um igual. Preciso é de um mestre. Um destes mestres que correm descalços, gozando a sua obra. Já me começa a faltar aquela ingenuidade que às crianças sobra. Como engenheiro, começava logo a fazer medidas e a tentar manter as proporções. Eles são guiados pelo sonho. E sabem que aquele seu carro é muito mais bonito que o verdadeiro. Já agora, eu também acho o mesmo!

Despedimo-nos destes condutores de sonhos e continuámos estrada fora.

Uns quilómetros adiante, parámos numa escola à beira do caminho, longe das povoações, mas com alunos. A última lição tinha sido quatro dias antes. Aqui, ao contrário de muitas salas de aula do país, há carteiras para os alunos. São um pouco toscas, mas partilham a magia dos brinquedos que vimos.

Como diziam na rádio há uns dias, a escola não é só o lugar onde as crianças aprendem a ler e a escrever. É onde aprendem a ser homens.


Aqui aprende-se


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