Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

17  11 2008

Mataram o jacaré

Na Avenida Revolução de Outubro havia um buraco fundo que costumava engolir iáces inteiras. Como estava sempre coberto de água, parecia inofensivo. Só um borbulhar sinistro fazia prever os perigos que escondia.

Dizíamos que as bolinhas denunciava um jacaré antropófago, que saltava do seu buraco para devorar criancinhas.

Os condutores evitavam aproximar muito as rodas do buraco. Se uma escorregasse lá para dentro seria o cabo dos trabalhos tirá-la de lá. Mesmo assim, alguns candongueiros, com a ânsia de ganhar mais três ou quatro metros, arriscavam passar com uma roda na água. Acordavam o jacaré e a iáce já de lá não passava. Uma espécie de justiça poética.

Veio o dia em que começaram a desentupir os esgotos e a roubar a água da sarjeta onde o jacaré dormia. O buraco passou a ser bem mais visível e poucos carros lá caíram. O bicho deve ter morrido de fome. Uns dias depois puseram uma laje sobre o buraco. Os operários dizem que serve para fechar a sarjeta. Eu estou desconfiado de que é uma lápide.


16  11 2008

A Cabala do Kwanza

Na minha primeira tentativa para a Muxima, o trânsito para Sul fez-me desistir de seguir pela costa até ao desvio para o santuário. Nos mapas aparece um caminho mais curto, que começa em Catete e atravessa o Kwanza numa povoação chamada Cabala. Com as seguintes tentativas frustradas para chegar à Muxima, comecei a pensar se não seria tudo uma cabala para eu não conhecer o sítio.

Lembrei-me que no Jornal de Angola vinha a notícia de que a nova ponte da Cabala tinha sido adjudicada já em 2006, pelo que seria bastante provável haver uma passagem transitável. Entre ficar parado no trânsito ou ir conhecer outros recantos de Angola, optei pela segunda opção.

À saída de Catete esperava-me uma estrada acabada de arranjar. Bom sinal. Vinte e muitos quilómetros de asfalto novo, com obras de arte capazes de resistir às chuvas e tudo.

A seis quilómetros do Kwanza, o asfalto acabava. As obras de compactação das terras ainda estavam a decorrer. Há, concerteza, avenidas com mais buracos em Luanda.

Aos poucos, o povoamento vai ficando menos disperso. As duas ou três cubatas à beira da estrada passam a meia-dúzia e depois a uma vintena.


As crianças estão em todo o lado

Algumas lavras encaixadas entre colinas, com o Kwanza ao fundo, denunciam uma terra fértil. É natural que cá haja gente.


A primeira impressão da Cabala

À medida que nos aproximamos daquilo que parece ser a curva mais bonita do Kwanza, adivinhamos uma terra bonita, a descer para o rio. As cubatas modestas e as casas degradadas relembram os anos de privações, mas o cenário é excelente.

Claro que o ponto alto da Cabala é o rio e a famosa ponte. A estrada que liga a Catete termina mesmo no rio, por isso damos logo com ele. O que se passa do outro lado parece que foi montado para um filme. As árvores, a curva da estrada e a própria jangada azul. A qualquer momento se espera ouvir um “Corta!” e pessoal a correr de um lado para o outro, desmontando o cenário. Mas não, é tudo verdade. Só a ponte é que ainda não…

Um pouco a jusante da jangada, começou-se a montar uma ponte flutuante. Para já, a jangada vai funcionando, como tem feito nos últimos anos.


Cenário de filme

A princípio, não percebi porque razão estava a jangada pintada de azul. Não é uma cor que estivesse à espera. Antes de a ver, contava que fosse verde-tropa ou vermelha e preta.

Depois percebi. É um transporte público. Só lhe falta uma risca branca! E, como bom candongueiro, buzina às árvores, aos peixes e aos pássaros.


Adorna um pouco para bombordo, é certo

A jangada tem um barqueiro de cada lado. Cada um controla uma hélice, procurando não atrapalhar o outro. A atracagem é feita de forma algo rudimentar, acelerando a fundo perto da margem, para que as rampas se enterrem um pouco. Às vezes é preciso usar uma enxada para encher o buraco deixado.


Tomando balanço

A jangada transporta tudo e todos. De uma margem para a outra.


Marcas da guerra

Se não houvesse esta travessia, a estrada que se vê do outro lado estaria a quase trezentos quilómetros. A Cabala é, portanto, um local de passagem importante. É claro que tem o seu mercado. Vendem-se cá os produtos da terra. E quem atravessa o rio, costuma cá vir espreitar a mercadoria.


Regateando as cebolas

Da primeira vez fui sozinho e ao final da tarde. Da segunda, fomos os três, para preparar a ida à Muxima por um caminho alternativo.

Entrar com o carro requer alguns dotes de equilibrismo. As pranchas estão tão afastadas, que não há muito espaço para descuidos.


O piloto

Quem vir os pilotos a trabalhar, pode julgar que o controlo mais importante é o botão que acciona a buzina.

Acelerador a fundo e uns toques no leme chegam para que a jangada se atire para o meio do rio. Um pouco depois, um choque indica que chegámos à outra margem. A travessia é rápida. Em menos de três minutos já se tem o carro em terra. Quase nem temos tempo de tirar fotografias.


Operando o motor de estibordo

Do rio temos uma visão diferente do mundo. Por momentos somos apenas viajantes. Dentro da jangada não havia pretos ou brancos. Todos observavam a margem com atenção.

Os barcos têm esta capacidade especial de nos fazer focar a atenção nos pormenores que nos mexem cá dentro. Não é só a paisagem, é tudo o resto; as emoções e as memórias que se misturam com a agitação das águas. Dei por mim a pensar na Baía de Setúbal, que deve ser das mais bonitas do mundo para se ver de barco. De imediato me lembrei da comparação que fiz entre a partida da cidade e ao final dos filmes de Jacques Tati. Nostalgia do tempo que já passou? Saudade do tempo que nunca foi?

Nisto, a vida do rio mistura-se com estes pensamentos e um pescador lança a rede com mestria.


Pescando

Do outro lado esperava-nos um mangueiral com uma sombra acolhedora. Almoçámos. Algumas pessoas tratavam de pôr as sestas em dia, gozando a leve brisa que corria ao longo do rio.


A ponte flutuante, quase acabada

Também nós contemplámos a paisagem e olhámos, com uma certa cobiça, para as mangas que amadureciam por cima das nossas cabeças.


Marcas da civilização

As águas do Kwanza, a montante de Luanda, não estão muito poluídas. A pressão humana é pequena e as lavadeiras não sujam assim tanto a água. Mesmo assim, ainda vimos uma garrafa de cerveja passar por nós. Duvido que levasse alguma mensagem.

Enquanto as crianças chapinham e riem nas águas menos profundas, as mães lavam a roupa numas pedras grandes colocadas na margem. Algumas carregam o filho às costas enquanto lavam. As outras fazem-no, com a maior naturalidade, de tronco nú.


As mães lavam e os filhos brincam

É curioso que, tão perto de Luanda, se encontre um recanto tão pacato, onde os ritmos são bem mais ajustados à vida das pessoas. Aqui ainda se vive, não se corre.


Tradições

A despedida da Cabala acabou por ser só um até já. Daqui a uns dias voltamos a cá passar, em direcção à tão esquiva Muxima.


Como sempre, a companhia foi excelente


15  11 2008

Os brancos não andam a pé!

Com algumas ruas fechadas para obras e um trânsito ainda pior que o do costume, a opção de ir até à alfândega do aeroporto de carro não me parecia a mais acertada. Ainda por cima, como o engarrafamento se restringe a três ruas, na verdade nunca chegamos a parar em lado nenhum e avança-se exclusivamente à custa de um longo ponto de embraiagem. Também já é sabido que não há estacionamento perto da alfândega. Ponderei a hipótese de deixar para outro dia, mas sabia que não podia.

A meia-dúzia de quarteirões para cada lado ajudou-me a decidir. Era bem mais rápido ir a pé. Isso implicava violar uma regra fundamental, que eu desconfio estar escrita a tinta invisível na legislação angolana. Os brancos não andam a pé!

De facto, bastou chegar ao final do primeiro quarteirão para reparar nas cabeças que se viravam. Ainda pensei que tinha a braguilha aberta, mas não, era mesmo a cor da pele. No final do segundo quarteirão, os cobradores dos táxis paravam os seus pregões a meio quando me viam. Uma mais-velha perguntou-me se eu tinha preferência em andar a pé…

Em cerca de meia-hora de caminho, não vi mais nenhum branco nas ruas. O primeiro que vi, estava já no aeroporto. Trazia um papel na mão e era seguido por um negro que trazia um monte de caixotes. Começo a pensar se a imagem mental que os pretos fazem dos brancos não será um bicho amorfo, sem pernas ou braços, incapaz das coisas mais simples…

Tratei dos assuntos pendentes e regressei. Desta vez vim pelas ruas secundárias, onde tive de contornar buracos e charcos de lama, como os locais. Passava por entre os carros que se engalfinhavam uns nos outros. Buzinadelas impacientes e braços a gesticular mostravam que alguém tinha fechado o cruzamento. Se tivesse vindo de carro, estaria por aqui, a tentar decidir se valia a pena desligar o motor ou não.

Quem zungava também virava a cabeça. Habitualmente vêem os brancos sentados no carro. «Olha, afinal também sabem andar a pé…»

Mas acho que já sei porque razão os brancos estão proibidos de andar a pé. Podem provocar uma epidemia de torcicolos!


14  11 2008

Falando línguas

Angola, sendo um país grande, tem muitas línguas distintas. O Português é a língua oficial e a que, de facto, une e distingue os angolanos dos seus vizinhos.

Existem ainda todas as línguas nacionais, desprezadas no tempo do colono e olhadas de soslaio no tempo da independência, com receio de que reflitam o temido tribalismo, que ameaçou a integridade angolana.

Com os milhares de expatriados envolvidos no processo de reconstrução nacional, as línguas de trabalho crescem exponencialmente. Os refugiados e emigrantes do Congo, da Zâmbia e da Namíbia trouxeram consigo as suas línguas, enriquecendo ainda mais esta Babel.

Nos mercados de arte é frequente ouvir falar Francês. Grande parte dos artesãos aprenderam o seu ofício fora de Angola, fugidos da Guerra. Mesmo o seu Português, com os rr arrastados, denuncia qual a sua primeira língua.

No mundo dos expatriados, o Inglês é a língua franca. Não deixa de ser curioso que, há dois mil anos, o Latim, complicado como tudo, era a língua entendida por todos. Hoje em dia, usa-se uma das línguas mais simples, que com meia-dúzia de palavras nos fazemos entender em todo o lado.

Há uns tempos pus-me a pensar nestas coisas. Desde que cheguei a Angola, já dei comigo a regatear em Francês no mercado de arte, a discutir em Castelhano com um grego que também fala Hebraico, a falar Inglês com chineses, um dos quais, para além de trocar os rr pelos ll, enrola a língua nos dentes. Às vezes também falo Português…


13  11 2008

Energia

Angola importa tudo o que consome, com a honrosa excepção da energia eléctrica. O país é auto-suficiente em termos de produção, com uma capacidade instalada superior ao consumo registado.

Não é por isso que deixa de haver interrupções no fornecimento. Os maiores problemas não se centram no sector da produção, fácil de reparar e instalar. A crise vive-se na distribuição, com redes sub-dimensionadas, remendadas e emendadas para lá de todos os limites imagináveis. Os postos de transformação absorvem cargas mal geridas até ao dia em que avariam. Até as instalações eléctricas de cada casa, propensas a curto-circuitos e consumos excessivos, contribuem para a instabilidade no fornecimento.

O que é de admirar é que, tal como acontece na rede de águas, as coisas ainda vão funcionando. Com remendos consecutivos se vai mantendo a electricidade a fluir.

A maneira como os angolanos usam a electricidade também não contribui para a saúde da rede. Por estas bandas nunca se ouviu a palavra poupar. Há que aproveitar as vezes em que a electricidade vem e ligar tudo. Como também não há muitos contadores instalados, o incentivo à poupança é diminuto. Dou um exemplo: no prédio em frente está acesa uma lâmpada fluorescente dia e noite desde que cá cheguei – e já lá vão uns meses! É por estas e por outras que há a necessidade de centrais eléctricas largamente sobre-dimensionadas. Todos gastam quanto podem. E só não gastam mais porque as tomadas estão todas ocupadas. Mas mesmo com a electricidade barata, há quem prefira fazer puxadas ilegais a pagar a conta. Ou até mesmo não pagar a dita. O nosso vizinho de cima escolheu a segunda via. Curiosamente, o aviso do corte foi entregue na nossa casa… que estranho.

Os angolanos não desperdiçam apenas electricidade. Nas filas intermináveis que assolam Luanda, duvido que haja alguém que se lembre de desligar o motor do carro. E ainda estou para ver quem esteja à espera de um passageiro com o motor parado – mesmo que a espera se anteveja longa. Um país exportador de petróleo tem destas coisas.

Os carros de eleição são os de vários litros de cilindrada que gastam tanto num trajecto urbano como um carro pequeno numa viagem grande. Os nossos operadores são da opinião que se devia aumentar o preço dos combustíveis, para ver se as pessoas começavam a pensar em poupar. Sinto que são uma minoria, tal como nós, que vamos fazendo os possíveis por desligar o motor nos engarrafamentos complicados ou não acender muitas luzes em casa.

Nem tudo é mau. Há já alguns projectos de aproveitamentos hidroeléctricos em curso, procurando assegurar um fornecimento mais limpo e constante que o actual, que depende quase exclusivamente de geradores a gasóleo. Potencial é o que não falta em Angola. Não será de um dia para o outro, mas isto vai lá!


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