21
08
2011
A crise das vocações dos padres há muito que é notícia. Há algumas décadas, quase todas as aldeias tinham um padre residente, mas estes foram envelhecendo e morrendo, passando a ser padres de várias paróquias. Especialmente aos Domingos circulavam de terra em terra para rezar missa.
Continuaram a envelhecer e a morrer sem que as novas ordenações fossem capazes de suprir as faltas. Muitas aldeias do interior têm padre semana sim, semana não ou só nas festas.
Mas os mais velhos mantêm a Fé e não passam sem a missa dominical, por isso são os diáconos a fazer a vez de padre ou, quando também estes faltam, um dos habitantes. E, nalgumas aldeias, chegam mesmo a ser as mulheres a fazê-lo.
Octogenária a rezar missa
Talvez esta crise vocacional seja o precursor da ordenação de mulheres que alguns defendem.
20
08
2011
Há uns meses reclamei porque os calendários do talho cá do bairro tinham deixado de ter o modelo dedicado à oficina automóvel e sapateiro remendão. Mantiverem as cenas pastoris, as naturezas mortas de enchidos, os símbolos de clubes de futebol, mas abandonaram os calendários com mamas. Era o fim de uma época, pensei.
Afinal ainda existem
Foi preciso ir a Évora e passar em frente à oficina de um velho sapateiro para poder contemplar o fruto do trabalho de uma senhora que ganha a vida a despir-se para celendário de talhos – a mostrar as carnes, por assim dizer.
Julgava que desta tradição já só sobrassem os anúncios de uma revista de motos que tenho cá por casa. Num deles, em que uma oficina de motos apresenta uma fotografia do seu torneiro mecânica encostado ao torno, consegue-se ver, afixado em lugar de destaque na bancada de trabalho, uma delicada donzela que expõe uns fartos seios às carícias das limalhas projectadas do torno. Um homem não é de ferro e parece que os tornos também não.
19
08
2011
Num dos nossos passeios pela zona saloia visitámos uma pequena povoação quase abandonada. A poucas dezenas de quilómetros da capital há já muitas aldeias completamente vazias ou com dois ou três moradores apenas.
Nesta, apesar de próxima de Pêro-Pinheiro, as actividades económicas não se resumiam à agricultura ou à exploração de pedreiras. Numa das casas mais afastadas da estrada, paredes-meias com um afluente da ribeira de Cheleiros, estão os restos de uma oficina de máquinas de pinball.

Pinball Minefields – construída na Malveira
No meio de paredes e telhados arruinados vêem-se painéis coloridos, interruptores, lâmpadas estilhaçadas e muitos fios ligando molas e motores. No meio do lixo há bastidores completos com as entranhas das máquinas vandalizadas e penduradas por fios envelhecidos.
São da época em que as máquinas dos salões de jogos não eram televisores ligados a um computador e podiam ser construídas por quem tivesse paciência e habilidade com um ferro de soldar. O mundo avançou e as máquinas de pinball viram-se relegadas para museus. São mais difíceis de reparar quando avariam e não podem ser actualizadas com programas novos de um dia para o outro. Quem viu uma destas a funcionar em condições nos últimos anos?
18
08
2011
Um pouco por todo o país, as azenhas abandonadas há algumas décadas começam a ser recuperadas. Por vezes são o que de mais importante as pequenas aldeias têm de património para mostrar para além das igrejas e capelas.
A maioria caiu no abandono com ao surto migratório da década de 1960, quando deixou de haver mãos suficientes para as ceifas e não se justificava ir moer o centeio à azenha.
Azenha recuperada
Grande parte das recuperações passa apenas pelo arranjo estético do edifício. levanta-se o telhado de novo, põe-se a mó no sítio, umas peças de madeira novas com aspecto funcional e um bonecos a fazer a vez de moleiro. A azenha cumpre a sua função de património visitável mas já não trabalha nem há quem a saiba fazer trabalhar.
Na Quarta-feira, uma pequena aldeia do Concelho do Sabugal, recuperam uma das azenhas. Sempre achei que tinha sofrido obras de fachada, mas na última visita encontrei a porta aberta e descobri que a recuperação tinha passado também pelas pás que movem a mó. Esta ainda funciona e suponho que deve moer de vez em quando para as escolas.
17
08
2011
Três anos e uns trocados depois de concluir o mestrado, a Universidade do Porto enviou-me a Carta Magistral. O gigantesco envelope cheio de avisos para não ser dobrado prometia um diploma todo bonito e delicado. Como me enganei.
É certo que não esperava um diploma lavrado em Latim, com um pesado selo de lata prateada lacrado. Esperava que fosse algo com um ar digno, que levasse o seu detentor a considerar seriamente se deveria emoldurá-lo ou guardá-lo numa latinha parecida com a da licenciatura. Já me daria por contente se o aspecto do diploma estivesse dois ou três furos acima dos certificados de participação na corrida de sacos organizada pela Junta de Freguesia.
Que poderei eu dizer de um pedaço de cartolina quadrado em que imprimiram o que parece ser um e-mail. A própria certidão de grau é mais interessante. De esguelha, as grandes letras roxas brilhantes com a palavra Mestre quase parecem anunciar Viagra. Ainda por cima, tem um formato de tal forma abstruso que nem cabe num arquivador normal. O aspecto gráfico da coisa é de tal forma deprimente que me arrependo de ter aberto o envelope. Sempre podia imaginar que fosse o tal certificado de participação no torneio infantil.
As universidades são locais de tradição e, por vezes criticadas por serem demasiado conservadoras, e quase aposto ser esta uma das formas de melhorar essa imagem. Ao invés de começar pela raiz, começa-se pelo aspecto gráfico dos documentos e seguem-se as linhas modernas, estilizadas e despojadas de requinte. É a abordagem IKEA aos diplomas.
Desilusão de Carta Magistral
Um tímido selo branco e a assinatura do Magnífico Reitor compõem um bocadinho, mas o meu certificado de presença no Cabo da Roca, emitido pela Câmara de Sintra, tem um aspecto muito mais digno. Até vem lacrado.