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Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

17  07 2011

Pelos caminhos de Portugal: Santa Maria do Bouro

Nem sempre as imagens que mais nos marcam nas viagens são os grandes panoramas. Muitas vezes são as pequenas coisas que mais nos dizem.

A visita à Abadia de Santa Maria do Bouro é disso um exemplo. O edifício e o rio fazem um conjunto único e todos os recantos do parque cumprem os requisitos para nos impressionar, mas são tantos e tão bonitos que se torna difícil escolher o melhor.

Chave antiga
A chave da Abadia

Desse dia há uma fotografia que traz sempre um sorriso, a da velha chave ferrugenta escondida atrás de uma pedra que quem sabe ao que vai encontra. Não sabemos se ainda é capaz de abrir a porta certa, ou se a fechadura ainda é a mesma, mas representa o certo mistério que a Abadia silenciosa transmite.


16  07 2011

Pelos caminhos de Portugal: Freiria

Chaminé típica
Chaminé com chapéu na Freiria

A pequena povoação de Freiria, no Concelho de Torres Vedras é conhecida pelos vizinhos como Freiria dos Chapéus, por causa de uma fábrica de chapéus que lá existiu. E foi por lá que encontrei uma chaminé com chapéu.


15  07 2011

A cabeça de São Gonçalo (primeira parte)

O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em várias partes. Esta é a primeira.

As águas calmas do Douro escondem um rio muito fundo e perigoso e as barragens que o tentam domar apenas incutem uma falsa sensação de segurança. É o terceiro maior rio da Península Ibérica, alimentado por uma bacia hidrográfica que se estende de Soria ao Porto e de Verin à Guarda.

Ao contrário do Tejo, que se pode espraiar pelas planícies do Ribatejo quando chove muito, o Douro corre encaixado num vale profundo e é alimentado por muitos afluentes importantes e qualquer tempestade fora do normal fará com que o seu nível suba, imparável.

As cheias do Douro marcaram a vida de todas as povoações ribeirinhas ao longo dos séculos, desafiando as soluções que o Homem inventou para o domar. Durante as cheias mais importantes as próprias barragens parecem não ter nenhum efeito no rio, com a mesma altura de água a montante e a jusante. Até a Ponte D. Luís, a imagem do Douro na cidade do Porto, por pouco não perdia o tabuleiro inferior no Natal de 1909. A água do rio quase lhe tocava e chegou-se a ponderar cortar a ponte com explosivos para que o tabuleiro superior não fosse arrastado.

Quando o Douro está em regime de cheia, eclipsa quaisquer cheias dos seus afluentes. Um destes, o Rio Tâmega, também corre em vales apertados e é alimentado por uma rede de afluentes densa, tal como o Douro onde desagua. As suas cheias marcam a história de Chaves e Amarante. Curiosamente, marcam também a História de Vila Nova de Gaia.

Foz do Douro
Foz do Douro em dia de bonança

O Tâmega nasce na província espanhola de Ourense, em Verin, no extremo norte da falha activa que passa por Chaves, Régua e Penacova. Segue ao longo dessa falha até Chaves, famosa pelas suas nascentes quentes, e inflecte para Oeste poucos quilómetros a jusante, em direcção a Amarante.

Antes de chegar a Amarante passa no estreito vale do Fridão onde, em caso de cheia, sobe rapidamente. Assim que se vê livre do aperto deste vale, uma torrente furiosa galga as margens e espalha-se pelos terrenos mais baixos, invadindo toda a zona ribeirinha de Amarante.

Há uma mão-cheia de séculos, numa destas ocasiões em que o Tâmega deixou o seu leito, a água chegou à Capela de São Gonçalo de Amarante e, até própria imagem do santo foi arrastada pelas águas, deixando a capela vazia. Este santo do final do séc. XII, curiosamente, de santo nem o nome tem, porque é só Beato. Caíu em esquecimento e o processo de santificação parou, talvez por todos assumirem que já se alcançou a santificação por usucapião religioso.

Diz-se que é santo casamenteiro, que casa velhas e novas por, em vida, ter oficializado muitas uniões de facto. Em Aveiro, onde é conhecido por São Gonçalinho, as donzelas que procuram marido fazem-lhe promessas e pagam-nas atirando cavacas do alto da torre da igreja durante as festas em sua homenagem.

Está associado a cultos ainda mais antigos, como atesta a Dança dos Mancos realizada só por homens em Aveiro, celebrando a cura de maleitas ósseas com falsos estropiados que se curam milagrosamente durante a cerimónia, e também a ritos de fertilidade que antecedem o próprio cristianismo. Em Amarante as cavacas assumem uma forma fálica, qual ex-votos, mais de acordo com ritos pagãos e dignos de figurar ao lado da cerâmica típica das Caldas da Rainha. São os caralhinhos de São Gonçalo embora sejam pedidos só pelo apelido para não ofender os restantes clientes das pastelarias. Durante o Estado Novo chegaram a ser proibidos mas, como sempre em Portugal, apenas com a convicção necessária para que parecesse que sim.

Mas houve um dia aziago em que o São Gonçalo de Amarante foi rio abaixo, fazendo companhia ao recheio de muitas casas e gente menos afortunada. Em Castelo de Paiva virou à direita e continuou pelo Douro, juntando-se aos destroços do Peso da Régua porque se o Tâmega vai cheio, o Douro vai mais.


07 2011

Por terras de Basto

As estradas que levam os automóveis a todo o lado e a omnipresente televisão quebram o isolamento que os vales e as serras impunham, diluindo as fronteiras que a toponímia insiste em preservar. As regiões definidas por diferentes costumes e tradições esvaziaram-se de significado. As pessoas mudam de ares com tanta facilidade que as gentes de cada aldeia e vila se tornam mais iguais a todas as outras.

Ginjas
Em Mondim de Basto

Ainda assim, a toponímia antiga esclarece-nos quanto à localização das terras, porque estas são, para já, incapazes de se fazer à estrada, um pouco como as árvores, que se agarram tenazmente às raízes. Amiúde, as regiões herdam o nome do principal rio que por elas passa.

Quase sempre são os rios mais importantes que dão o nome à região. Algumas das mais célebres são as do Ave, do Corvo, do Douro, do Liz e do Tejo, mas há excepções, como acontece nas Terras de Basto, que devem o seu nome não ao Rio Tâmega, importante rio internacional que passa pela cidade de Chaves, mas ao Rio Basto, um pequeno afluente deste último.

A Região de Basto resume-se a quatro Concelhos e, apesar de pequena, tinha uma identidade muito própria, encravada entre as serras da Cabreira e do Alvão. Hoje em dia, como tantas outras, perdeu muito da sua singularidade e, em termos humanos, confunde-se agora com grande parte do Minho e Douro Litoral.

Mondim de Basto
Mondim de Basto

A cidade de Mondim de Basto fica encavalitada numa pequena elevação à beira da foz do Rio Cabril, e o Rio Tâmega separa-a do Concelho de Celorico de Basto. Por aqui a água nunca falta, como atestam as levadas que se vêem à saída da cidade, mas, segundo dizem os mais velhos, a terra arável não é muita nem das mais férteis. Os cereais eram produzidos nos Concelhos vizinhos e trazidos para serem moídos nas muitas azenhas que juncam os vales em redor da cidade, junto dos rios ou das levadas. As últimas azenhas deixaram de funcionar há poucas décadas e nos Moinhos de Piscaredo há um interessante conjunto de ruínas de azenhas que aproveitavam a água umas das outras.

Levada do Piscaredo
Levada do Piscaredo

Nem sempre a ideia de que as povoações resistem à mudança de hábitos está correcta. O plano de construção de barragens ao longo de todo o curso do rio Tâmega irá tornar grande parte dos vales que conferiram as características únicas da região em grande albufeiras. Grande parte da memória da sua identidade perdura nestes vales, nos monumentos, nas pontes medievais, nos caminhos rurais e nas casas com traça característica.

Uma visita urgente à região impõe-se. Dentro de poucos meses, a Barragem do Fridão fechará o vale a montante de Amarante, escondida por uma curva do Tâmega. Os vales de Celorico, Mondim e Cabeceiras começarão a ser limpos de árvores e matos, e alguns monumentos, muito poucos, desmontados e mudados de sítio. A Senhora da Graça, etapa de montanha incontornável da Volta a Portugal em Bicicleta passará a dominar um lago em vez de vales pedregosos.

Mondim de Basto - Rio Cabril
A ponte sobre o Rio Cabril

O delicioso vale do Cabril, cheio de velhas azenhas e bosques à beira-rio deixará de existir, bem com a sua ponte medieval. Talvez a desmontem e reconstruam noutro lugar, como fizeram com o Cromeleque do Xerês, em Évora. Pode-se dizer que é melhor que nada, mas o património sem contexto fica sempre coxo.

Algumas aldeias, encarrapitadas em pequenas colinas, passarão a ser ilhas. Muitas estradas e pontes terão de ser construídas em substituição das que ficarem submersas e, à primeira vista, o impacto social desta barragem será muito maior que os das Barragem de Alqueva e Vilarinho das Furnas, que implicaram a destruição de duas povoações, mas se localizavam em zonas menos povoadas.

As gentes da terra não querem a barragem. Mondim vive muito do turismo e albufeiras há muitas. A principal escola de canoagem de águas bravas do país, a Pista do Fridão, será destruída, no seu lugar está prometida uma pista artificial para daqui a alguns anos – se a chegarem a construir. Por outro lado, as gentes da terra querem mais electricidade e empregos durante a construção da barragem. Não se pode ter tudo e o progresso nem sempre chega sem custos.


27  06 2011

Os holandeses e as vedações

Tenho vindo a descobrir que a terra molda mais o carácter das pessoas do que imaginava. A paisagem mais ou menos acidentada, a dureza do solo e o curso dos rios exercem uma influência semelhante à da língua na forma como determinam a maneira de pensar. Talvez seja até o meio que nos rodeia que acabe por moldar a língua que, por sua vez, nos baliza as ideias.

Há conceitos que parecem perfeitamente naturais para certos povos mas que para outros não passam de exotismos improváveis, especialmente quando esses outros tentam lê-los no contexto da sua terra natal. O melhor exemplo que disso conheço é a primeira reacção dos holandeses aos muros de pedra solta que rendilham grande parte do Portugal rural.

Nos idos de 2001, mais ou menos por altura dos atentados em Nova Iorque, estava nos Açores. Connosco viajava um estudante holandês, que falava inglês com um sotaque escocês digno de Sean Connery. Estava fascinado com a fabulosa ineficiência dos muros de negra rocha vulcânica que transformam a metade ocidental da ilha Terceira numa manta de retalhos verde.

Perguntava-nos porque razão faziam os portugueses muros de pedra tão altos. Deviam ser caros e demorar muito a construir. Uma vedação de arame ou madeira, como as que se faziam na Holanda, seria muito mais prática, barata e, sobretudo, eficiente.

A custo, tentámos explicar que os muros não serviam apenas para delimitar as parcelas. Os campos não arroteados tinham mais pedras que mato e antes de se poderem cultivar era necessário ir empilhando as pedras em algum lado. Os muros altos, explicámos, servem também para proteger as culturas dos ventos fortes e grandes variações de temperatura, tal como se faz nas cepas do vinho do Pico.

Para nosso desalento, não se mostrou convencido. Os nossos muros eram o paradigma da ineficiência quando comparados com as ordeiras vedações holandesas. Contrapunha todos os argumentos a favor dos muros com um displicente «Ainda assim…» A teimosia durou até que viu uma horta que não tinha sido limpa de pedras. Dois pés de couve galega cresciam no meio de um imenso pedregal de bombas vulcânicas, em pequenos caldeiros de pedras mais arrumadas. Entre as restante não cresciam ervas nem se conseguiam pôr os pés. Depois de alguns passos desiquilibrados sobre as rochas de arestas afiadas começou a perceber a utilidade dos muros e deixou de nos falar da sua ineficiência.

Muros de pedra solta
Muros de Vilar Maior

Poderia pensar que este holandês era um caso isolado, mas eis que, passada uma década, oiço o mesmo argumento de um holandês diferente. «Estes muros são bonitos, mas não são muito caros? Porque não fizeram uma vedação de arame ou madeira?»

Parece-me que quem cresce numa terra sem rochas maiores que calhaus rolados é incapaz de imaginar que as haja noutras partes do mundo, especialmente em grupos de mais de duas. Pilhas de pedras não conceitos estranhos e pilhas a formar muros é coisa inconcebível. Na Holanda, diz-me ele, há vedações de madeira que se espetam na terra com um martelo. São muito mais eficientes e devem demorar menos a fazer que estes nosso muros.


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