Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

06 2011

O poleiro desaparecido

Cresci num pacato bairro dos arredores de Lisboa. Passei a infância a brincar no quintal, a escavar minhocas e a mostrá-las à minha mãe, que me dizia, com um sorriso amarelo «Sim, sim, são muito bonitas, agora vai lá pô-las outra vez.»

As formigas, as lagartas e as aranhas eram entretenimento para uma tarde inteira, embora algumas tenham sido vítimas da crueldade inocente que alimenta a curiosidade das crianças. Foram as suficientes para me lembrar disso, mas não tantas que me tenham deixado com problemas de consciência – meras vítimas da curiosidade científica.

Recordar as maldades que fiz aos bichos trouxe-me à memória a primeira discussão filosófica que tive com o meu pai. Foi exactamente sobre a licitude da experimentação em animais e concluímos que nalguns casos era admissível, mas quando feita apenas para demonstrar o que já se conhece resume-se a crueldade. Pouco depois desta conversa as aranhas do quintal deixaram de aparecer pernetas. Já sabia que sem patas ficam surdas.

Trepei aos ramos mais altos de todas as árvores, mas a minha preferida sempre foi o limoeiro que, em momentos de maior afoiteza, dava para subir por um dos ramos finos e passar para o telhado do anexo. Os pardais usam-no como poleiro enquanto esperam pelo momento mais oportuno para ir saquear a tijela do cão, isto é, pousam só para saber se há muito movimento, porque o rafeiro parece não se incomodar com os gatunos alados, quer sejam pardais, melros ou pombos.

Este limoeiro, mais velho que eu, é uma das árvores que mais me preenche a memória. Emoldurava a vista da janela da casa-de-banho e pareceu-se com uma árvore normal até ao dia em que um dos ramos mais grossos se partiu. Ficou reduzido a um ridículo ponto de interrogação arbóreo, carregado de limões grandes e amarelos, que ameaçava partir-se a cada tempestade mais violenta. Resistiu a todas.

Poleiro-limoeiro
O poleiro-limoeiro em dia de chuva, ainda com os ramos todos

Esta semana, sem ventania merecedora desse nome, o último ramo tombou sem alarido. O ramo carcomido pela idade e pelos bichos torceu-se até cair por cima do muro do vizinho. Do limoeiro sobrou o tronco curto, quase oco, e um pequeno raminho coberto de folhas brilhantes.

Encostado à ombreira da porta da cozinha, tentei perceber porque razão a hera da parede do anexo preenche agora o lugar do limoeiro que me ensinou a trepar às árvores. Um sítio tão familiar tornado estranho de um momento para o outro.

Mas não fui o único a estranhar a mudança. Nas horas seguintes, dezenas de pardais atrevidos, num cortejo contínuo, foram chegando para se empoleirarem num dos ramos altos do limoeiro, mas ficavam a pairar por uns instantes, indecisos e confundidos pela falta do poleiro fiel, antes de optarem pelo telhado do anexo ou pelas árvores do vizinho. Como os percebo.


30  05 2011

Devolutos pintados

O último meio século de Lisboa não lhe tem sido simpático. O crescimento desordenado dos subúrbios e a reorganização da cidade em torno da circulação dos automóveis levou a que o centro ficasse despovoado, e os bairros típicos perdessem a sua alma, vazios de novas gerações.

Hoje, o centro da capital está pejado de edifícios devolutos. Esvaziados lentamente, não só por não haver habitantes suficientes na própria cidade, mas também porque se começaram a degradar e a oferecer cada vez menos condições, acabaram por ficar abandonados à sorte de quem lhes arrombava as portas durante a noite.

Há poucas décadas eram frequentes os incêndios em prédios devolutos, quase sempre causados por mendigos que neles procuravam um tecto. Nalguns casos, pairava a suspeita de fogo posto para apressar a demolição e libertar o espaço para mais uma construção de traça modernaça – feia, alta e chapeada a vidro.

Para acabar com os incêndios acidentais e evitar que os prédios devolutos servissem de abrigo para quem deseja mais do que pernoitar, passou a ser obrigatório entaipar portas e janelas até ao segundo andar. Os velhos edifícios vazios deixaram de ter os restos das portas penduradas nos gonzos. Têm agora todos os vãos revestidos a cimento e tijolo.

Degradam-se de uma forma mais discreta, primeiro com o apodrecimento do telhado, que acaba por cair, arrastando os pisos até que sobrem apenas as paredes. Apesar de tudo, o seu ar decrépito não é nada cativante. Os centros das cidades querem-se vivos, não com prédios mal embalsamados.

Pinturas no devoluto
Na Av. Fontes Pereira de Melo

Recentemente, tornou-se moda encomendar um pouco de maquilhagem para disfarçar um pouco o ar engelhado ou espalhar cânfora pelas esquinas, na tentativa de esconder o cheiro a morte do tecido urbano.

O resultado final não disfarça o prédio devoluto, pelo contrário, agora tornou-se o centro das atenções. Mal por mal, quem por lá passava já nem lhe ligava, mas talvez tenha sido este o melhor efeito das pinturas gigantescas que adornam alguns edifícios tristemente vazios do centro de Lisboa. Agora é impossível ignorá-los.


23  05 2011

Só pode ser sina

Certa vez, quando trabalhava em Luanda, tive o desprazer de partilhar um gabinete com um sistema de baterias de emergência avariado. A avaria em si não era aborrecida, mas o estridente sinal de aviso a cada dois segundos dava cabo da paciência a qualquer um. Durante quase duas semanas tive as ideias interrompidas por apitos incansáveis, escrevia ao ritmo dos apitos e sonhava com os apitos.

Felizmente, a bateria nova chegou com um atraso invulgar para Angola e foi possível calar o aparelho. Descobri mais tarde que tão rápida entrega se devia ao facto de a nova bateria não era assim tão nova e que o técnico se tinha limitado a tirar uma de outro aparelho instalado num cubículo onde os apitos não incomodariam ninguém. Desconheço se essa tenha sido trocada ou se, até hoje, haja um cubículo com um apito a cada par de segundos.

Agora, passado tanto tempo, em paragens mais familiares, vejo-me quase na mesma situação. Faltam poucas semanas para o Verão, como lá faltavam, e sou novamente alvo de uma tortura chinesa. Desta feita não com os apitos ritmados, mas com a muito mais tradicional gota de água na tola.

Tenho o infortúnio de trabalhar no gabinete imediatamente abaixo da máquina de ar condicionado central, e, escondidos pelo tecto falso, estão os tubos que levam o fresquinho a todos os gabinetes do piso. Como há sempre alguém com o ar condicionado ligado, o tubo da refrigeração está permanentemente gelado e, nos dias um pouco mais húmidos, condensa muita água.

Até aqui tubo bem, não fosse a curva do tubo para a máquina ser o ponto mais baixo de todo o andar. Toda a água que nele se condensa e pinga para o tecto falso e depois vai escorrendo até formar uma gota perfeitinha mesmo por cima da minha cabeça. Já descobri que nos dias mais quentes, ou tomo um banho de chuveiro gota a gota, ou chego a cadeira para o lado, o que não é grande solução, porque a gota acerta no tampo da secretária e salpica para todo o lado, monitor e teclado incluídos. O encarregado da manutenção diz-me que não há volta da dar, que o tubo há-de pingar em qualquer lado e saíu-me a mim a fava.

Mal por mal, irrita menos que o apito em Luanda.


16  05 2011

Os vulcões de Homero

Quando procurei descobrir os vulcões que pudessem ter ajudado a descrever o Adamastor camoniano descurei a comparação com a Odisseia, a principal fonte de inspiração de Camões, um verdadeiro admirador dos Clássicos da Antiguidade.

O roteiro de Ulisses é a epopeia com a qual se comparam todas as outras e não poderia ser ignorado no estudo d’«Os Lusíadas». A principal diferença entre a epopeia portuguesa e a Odisseia é exactamente o facto de ser uma epopeia Portuguesa, que descreve os feitos de uma nação inteira e não apenas de um só herói. Camões foi mais longe que os escritores das obras clássicas e fez um povo inteiro o herói da sua epopeia.

Mas se há uma grande diferença, há também inúmeras semelhanças e o Adamastor é uma delas. Na Odisseia, Ulisses tem de enfrentar vários perigos. Os mais famosos são o Cíclope Polifemo, com o qual Adamastor partilha parte da personalidade, Sila e Caribdes. Estes dois últimos monstros habitavam o Estreito de Messina, a importante passagem marítima entre a Itália e a Sicília.

De um lado Caribdes, que, duas vezes por dia, engolia e voltava a vomitar as águas do mar com tal violência que tragava barcos inteiros. Representava o próprio Estreito de Messina, famoso pelas suas fortes correntes e regimes de ventos muito diferentes de ambos os lados, capazes de atirar os navios contra as rochas sem aviso. Do outro lado Sila, o monstro com longos pescoços e que silva quando projecta as cabeças para fora da caverna escura onde vive, aniquilando pessoas e animais. Passar perto era demasiado arriscado.

Etna
O Etna

Socorro-me da adaptação em prosa do ilustre João de Barros para completar a descrição de Sila segundo Homero.

«Dos dois escolhos que te falo – um ergue-se até ao firmamento; cercam-no nuvens obscuras que nunca se dissipam; nunca ali reina o dia; e nenhum mortal subiu ou desceu, pois é feito de pedras unidas e lisas, como se fossem polidas. No meio, abre-se uma caverna negra e de altura descomunal. Navega o mais rapidamente possível! Mora na caverna a maldosa Sila, que dá uivos como os animais ferozes, monstro horroroso cuja vista agonia. Possui doze garras afiadas, seis pescoços de enorme comprimento; e, sobre cada um, cabeças assustadoras, de goelas hiantes guarnecidas de três filas de dentes, que, mordendo, logo matam. Metade do corpo está deitado na caverna; e atira para fora as seis cabeças pavorosas, alongando os pescoços colenates.»

Da mesma forma que o Adamastor é, em parte um vulcão, Sila é-o também. Muito perto do Estreito de Messina há dois vulcões famosos e, curiosamente, os mais activos da Europa, o Etna e o Stromboli. São também conhecidos pelas suas erupções explosivas, com bombas vulcânicas incandescentes cuspidas a grandes distâncias que deixam um rasto de cinza e vapor como um longo pescoço de uma qualquer besta mitológica que habite nas profundezas das suas caldeiras.

As semelhanças com a descrição não se ficam por aqui. Quando solidificam, as bombas vulcânicas ganham formas afiadas, como se cheias de dentes, a  vertentes escarpadas e negras parecem polidas à distância, e a coluna de cinzas que perpetuamente sai da chaminé vulcânica, e os vapores das fumarolas fazem as vezes de nuvens que não se dissipam.

O Etna fica na Sicília, à vista do estreito. O Stromboli formou uma ilhota exactamente a meio da rota mais segura para o norte, e ainda mais activo que o Etna. De noite é possível ver-se o brilho laranja que a lava emite na sua funda caldeira fumegante. É fenómeno de tal forma conhecido que, desde a Antiguidade, lhe dão o nome de Farol do Mediterrâneo. Sempre que entra em erupção poucas pessoas são autorizadas a viajar para a ilha por causa das "dentadas" que Sila inflinge.

Stromboli
Stromboli, o monstro Sila

Parece-me plausível que, se Homero criou um monstro para descrever um vulcão e se Camões se inspirou na Odisseia para os Lusíadas, o Adamastor tenha, também ele, uma costela vulcânica. Talvez não inspirado pelo vulcão de Ternate, nem sequer pelo Stromboli, mas é certamente um primo do monstro Sila.


10  05 2011

Entretanto, em Berlim

Em 1989 terminou a Guerra Fria. A linha da frente, devidamente assinalada com um muro de centena e meia de quilómetros, passava por Berlim e serpenteava por entre os bairros e canais, dividindo a cidade em duas.

Desse muro de má memória resta uma secção à beira do Rio Spree e uma linha no chão que marca a sua posição junto da Porta de Brandenburgo. O resto foi transformado em entulho, que é agora vendido em pedacinhos colados em postais turísticos quase sempre pirosos.

Antes de se tornar a frente da Guerra Fria, Berlim foi também a última frente europeia da Segunda Guerra Mundial. Nos últimos dias de Abril de 1945, o centro da cidade foi conquistado rua a rua às últimas forças alemãs fiéis a Hitler por americanos, ingleses, franceses e russos. Passadas mais de seis décadas, as marcas dos tiros ainda são visíveis em quase todos os edifícios monumentais.

Cicatrizes da guerra
Museu Pergamon

Nota-se que há uma preocupação em não esquecer a História. Reconstroem-se as pontes e as casas, mas não se apagam por completo as marcas da destruição e, um pouco por todo o lado, pequenos monumentos prestam homenagem silenciosa às várias vítimas das guerras – os homens, as ideias e as cidades. Nas primeiras categorias, os mais significativos são o memorial às vítimas do Holocausto e a biblioteca vazia para dentro da qual se espreita por uma janela no chão em frente à Universidade Humbolt, que assinala o local onde se queimaram os livros proibidos pelo Terceiro Reich.

Ruínas do parlamento
Velho parlamento

O memorial à destruição da cidade é mais emblemático. É o velho edifício do parlamento, cujo incêndio de 1933 serviu de pretexto para a suspensão da constituição e consequente subida ao poder de Adolf Hitler, é também uma memória da guerra. As suas ruínas ficaram numa zona de ninguém, a fronteira entre os sectores americano e russo, numa situação incómoda e, a partir de 1961, passou a ter o Muro a poucos metros das traseiras. Com um parlamento instalado em Bona e outro na Embaixada da União Soviética, ficou abandonado durante quase cinquenta anos. Foi reconstruído depois da queda do Muro.

Nova arqutectura
Novo parlamento

No tempo das duas Alemanhas, os filmes de espiões tinham passagem obrigatória pela cidade, e quase sempre faziam menção ponto de controlo à saída do sector americano da cidade, o Checkpoint Charlie. Hoje resta o sítio. O pequeno edifício do posto de controlo foi colocado num museu e, dizem, a famosa placa branca com letras pretas que o assinalava foi roubada durante a noite. Uma nova marca o sítio. Mas qualquer berlinense sabe indicar como lá se chega.

A adaptação dos alemães orientais ao capitalismo foi fácil, contou-me um amigo que cresceu na metade socialista da Alemanha. O difícil foi perder velhos hábitos, como da primeira vez a seguir à reunificação em que foi ver uma partida de futebol ao lado ocidental. Confessou que todos os berlinenses orientais, como ele, não repararam nos lugares sentados e ficaram de pé, como sempre tinham feito.

Para além destas pequenas diferenças de hábitos, há ainda pormenores na cidade que nos relembram ter havido décadas de separação. Os próprios semáforos para peões podem ajudar a perceber se estamos na parte ocidental ou oriental da cidade. No lado ocidental usam-se os sinais estilizados do código de estrada internacional. No lado oriental voltaram a ser instalados os antigos sinais, desenhados para que fossem facilmente percebidos até por crianças, em 1961. Grande parte não são originais, mas sim fruto de algum revivalismo da iconografia da RDA.

Unter den Linden, Ampelmann
Ampelmann oriental

No geral, as diferenças entre as duas metades da cidade não são hoje tão evidentes. Os centros comerciais com as lojas iguais às do resto do mundo ofuscam e escondem a arquitectura característica da RDA, como o centro de congressos e o colossal armazém socialista, que agora vende bens de consumo para capitalistas, parecem pequenos e antiquados ao lado das torres de vidro da nova era. Apenas a imensa torre de televisão com 368 metros de altura resiste orgulhosamente no centro da Alexander Platz. Acede-se de elevador ao restaurante giratório instalado a 207 metros de altura.

Fernsehturm
Atrás da Igreja de Santa Maria

Sentado num banco alto junto da porta, o ascensorista de cabelos brancos repete, mecanicamente e com a voz cansada, que se sobe a seis metros por segundo, que a viagem demora pouco mais de meio minuto e a saída é a esquerda, obrigado. As últimas palavras são mais difíceis de perceber porque toda a gente, excepto o ascensorista, se queixa dos ouvidos.

Mas há mais coisas curiosas acerca deste monumento. Segundo parece, a ideia da torre partiu de um dirigente socialista que já anteriormente tinha construído uma estrutura semelhante em Leipzig, mas que o tinha feito no lugar de uma igreja que mandou demolir, de acordo com a sua ideologia anti-religiosa. A torre de Berlim ficaria também no lugar da Igreja de Santa Maria, o pequeno edifício de tijolo vermelho que se situa a poucos metros da base da torre, escondido atrás de algumas árvores, mas a contestação popular, algo inaudito na Alemanha Oriental, fez com que se preservasse a igreja e a torre não dominasse por completo a Alexander Platz.

Para além desta história atribulada, a forma dos painéis que revestem a esfera do restaurante e miradouro reflectem a luz do Sol sempre como uma cruz brilhante, o que levou alguns alemães a dar-lhe uma alcunha curiosa, inspirada no nome e na anti-religiosidade do dirigente socialista – esta é a Torre de São Mateus.

A cruz de São Mateus
A cruz de São Mateus

Deste que é o mais alto edifício alemão, a vista sobre a cidade é magnífica, embora fiquemos sempre com a sensação de que umas colinas aqui e ali lhe dariam muito mais graça. À semelhança de tantas outras grandes cidades europeias, é completamente plana. Os rios sinuosos que atravessam a cidade apenas reforçam a ideia.


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