Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

05 2011

A Tempestade

Marcando o final de um mês de Abril que quase não fazia jus ao nome, uma tempestade de chuva, relâmpagos e granizo saldou as habituais promessas de pluviosidade primaveril.

O dia começou abafado, com aquele calor desconfortável que precede as trovoadas. A meio da tarde o céu escureu rapidamente e as primeiras gotas de chuva depressa deram lugar a granizo com pedras que cresceram até ao tamanho de berlindes.

As muitas toneladas de gelo que caíram nos minutos seguintes fizeram a temperatura baixar cerca de quinze graus em menos de meia hora. As folhas e rebentos das árvores, nascidos há poucas semanas, foram arrancados e arrastados pelo vento e pela água, deixando muitos carros quase camuflados de tantas folhas coladas nas portas e tejadilhos. As ruas no fundo das encostas, especialmente as que seguem ao longo de antigos leitos de ribeiras, encheram-se de lixo, folhas, água e gelo.

A enxurrada vinda da urbanização do Alto dos Moinhos, da zona do Califa e das transversais à Conde de Almoster encheu por completo o quarteirão da estação de correios da Estrada de Benfica. A pequena praceta em frente, que serve de parque de estacionamento aos moradores, transformou-se num lago com carros e caixotes do lixo a flutuar em vez de patos e barcos. 

Estrada de Benfica
Rio da Estrada de Benfica

Na altura dirigia-me para esse quarteirão. Nas ruas circundantes, a água ainda não cobria os lancis e corria relativamente devagar, mas naquela parecia um rio. Parei o carro numa praceta fora da corrente, em cima do passeio já submerso, perfeitamente consciente que o carro não seria capaz de por ali navegar. Saí e fui espreitar à esquina como estava a rua seguinte.

Seguindo pelo passeio, junto às montras, consegui avançar alguns metros sem molhar muito os pés. O panorama era desolador. Vários carros flutuavam de encontro aos sinais de trânsito ou outros carros estacionados. No meio da rua, três condutores que arriscaram demasiado viam-se presos nos carros sem saber o que fazer. A cada mão-cheia de minutos, outro condutor muito audaz ou apenas estúpido avançava rua abaixo, directamente para o lago, certamente imaginando que conduzia uma lancha. Quando o motor parava, afogado, aí sim, preocupava-se, deitava as mãos à cabeça e olhava em volta, para a água a subir e os carros a nadar no remoinho.

Estragos
Depois de esgotada a água avaliam-se os prejuízos

Por muito que os peões acenassem e gritassem para que não avançassem, havia condutores, certamente hipnotizados pela cadência dos limpa-pára-brisas, que pareciam pôr palas nos olhos e repetir para si mesmos, como se de uma fórmula mágica se tratasse, "Tenho um cacilheiro. Tenho um cacilheiro." Teimavam que haveriam de passar até ser tarde demais e se verem presos na água gelada. Só deixaram de tentar a loucura depois da polícia lhes barrar a passagem, mas, mesmo assim, insistiam na urgência que tinham em passar precisamente por aquela rua.

As sarjetas, mesmo que não estivessem irremediavelmente entupidas como é costume, foram incapazes de dar vazão a tamanho caudal. Lojas e garagens ficaram inundadas, alguns túneis da cidade transformaram-se em piscinas e o gelo foi-se acumulando por todo o lado. Parou de chover por volta das seis horas, duas horas depois de ter começado a tempestade. Pelos estragos que causou, poder-se-ia pensar que tivesse sido mais longa.

Gelo a cobrir as rodas dos carros
Gelo acumulado

Depois de esgotada a água, sobrou gelo em tamanha quantidade que parecia formar bancos de neve. Nalgumas ruas atingiu alturas superiores a meio metro. Demorará até que derreta todo, mesmo com os bombeiros e cantoneiros a usar agulhetas e escavadoras. 

Nas terras agrícolas em redor da cidade as culturas de primavera também sofreram grandes estragos, mas parece que, felizmente, o grosso da tempestade se restringiu às zonas urbanas.


27  04 2011

O sinal de trânsito mais antigo

É dado adquirido que não sabemos estimar o património. Só nos preocupamos, se para aí estivermos virados, depois das paredes arruinadas e dos edifícios demolidos. Mas esta é a forma natural de evolução das cidades, com os velhos edifícios substituídos por outros antes que alguém se aperceba do seu valor ou chegue a sentir a sua falta. Felizmente que também se rasgam novas avenidas, deslocando os centros das cidades para novos bairros, diminuindo o interesse pelas zonas mais antigas, que acabam ignoradas pela vida no resto da cidade. As marcas que resistem de épocas passadas sobrevivem da incúria, da falta de vontade de destruir o antigo para fazer o novo.

Esta não é característica exclusiva dos portugueses. Cidades inteiras caíram no esquecimento e são lentamente desenterradas por gerações de arqueólogos armados de pequenas pás e sonhos de glória.

Mas as marcas do passado não se limitam a edifícios inteiros. Há outras, mais pequenas, que subsistem por falta de uso a dar-lhes depois do seu propósito original se perder. Algumas vêem-se recicladas, como grande parte das estátuas de Roma que, durante a Idade Média, foi sendo transformada em cal ou entulho para enchimento de paredes – à falta de melhor destino.

O Futuro de cada centro urbano está cheio de pequenas cicatrizes, verdadeiras marcas de carácter que testemunham vidas passadas da cidade. São as estátuas mutiladas, os reclames de negócios falidos ou anacrónicos, ou os símbolos de municípios extintos.

Quando procurava documentar um artigo acerca da freguesia da Sé de Lisboa, tive notícia de uma destas cicatrizes desprezadas. Está escondida na Rua do Salvador, que foi importante há quatro séculos, quando ligava as portas do Castelo de São Jorge à Baixa. Hoje em dia é uma pequena travessa cheia de prédios arruinados entre a Rua das Escolas Gerais e a Rua de São Tomé. A meio da pequena subida há um edifício fora do alinhamento dos restantes que a estrangula. No tempo de D. Pedro II este estreitamento era causa de muitas discórdias entre os carroceiros que subiam ou desciam a rua. Se dois se encontrassem a meio nenhum cedia passagem, uma vez que era tarefa difícil fazer recuar os animais.

Para evitar discórdia, foi publicado édito real estabelecendo a prioridade a respeitar em tal situação. Numa parede próxima do estreitamento, lavrado em pedra, foi afixado o que julgo ser um dos mais antigos sinais de trânsito do mundo. Desta época, não encontrei notícia de nenhum outro sinal de cedência de prioridade que sobreviva.

salvador
O sinal

«ANO DE 1686
SUA MAGESTADE ORDENA QUE OS COCHES SEGES E LITEIRAS QUE VIEREM DA PORTARIA DO SALVADOR QUE RECUEM PARA A MESMA PARTE»

Por não se lhe ter encontrado préstimo todos estes anos depois do Castelo de São Jorge deixar de albergar o Rei ou da Rua do Salvador ter sido despromovida a travessa, o sinal foi-se aguentando. Hoje está ingloriamente escondido atrás de um armário de distribuição de electricidade, mas antes escondido do que destruído.


19  04 2011

A "ajuda"

Há algumas semanas oficializou-se o que já se suspeitava desde o final do Verão do ano passado. O Fundo Monetário Internacional veio "ajudar" Portugal a sair da crise.

Curiosamente, se folhearmos os livros de História com atenção, a "ajuda" internacional tem sido prestada a Portugal a cada novo século que passa desde que o D. Sebastião arranjou maneira de se matar em Alcácer-Quibir.

Dois anos depois do Rei desaparecer, em 1580, vieram os ingleses auxiliar a pretensão do Prior do Crato à Coroa Portuguesa. Desembarcaram em Peniche e, garbosamente, saquearam as povoações por onde passaram até Lisboa. Felipe II tornou-se Felipe I de Portugal e esses ingleses ficaram para sempre conhecidos como «os amigos de Peniche».

O séc. XVII é uma verdadeira desgraça, cujo ponto mais alto culmina na perda da frota, incorporada na Invencível Armada, nas colónias ocupadas pelos holandeses, que estavam em guerra com Espanha e muitos outros revezes.

No séc. XVIII, a "ajuda internacional" não é tão óbvia, mas nem por isso deixa de ser onerosa. Devido à sua situação geográfica, as interpretações mais heterodoxas do cristianismo perduraram em Portugal e continuam visíveis nas capelas dedicadas aos Senhores e Senhoras disto e daquilo, localizadas exactamente nos locais de culto de outras divindades disto e daquilo. A interpretação que Roma fazia de nós não era abonatória. A Inquisição tinha trabalhado afincadamente nos últimos séculos e concluía que éramos um bando de heréticos. Por coincidência, descobriu-se ouro em quantidades prodigiosas no Brasil e D. João V, para além de ser dado ao luxo, pagou indulgências que chegassem para um país inteiro. Roma passou a olhar para nós como bons heréticos.

Logo a inaugurar o séc. XIX, os nossos aliados ingleses vieram em nosso auxílio, para nos salvar das tropas de Napoleão. Da altura sobram ainda questões por resolver, como Olivença, ocupada pelos Espanhóis na confusão, e algumas expressões populares, como «ir para o maneta» (diz-se que em homenagem ao cruel general francês Loison, que era maneta).

Os ingleses vieram, lutaram contra os franceses e, cavalheirescamente, deixaram-nos partir com todo o saque que desejassem, gado incluído. Foi uma ajuda e tanto, que deixou o ouro e pinturas das igrejas e palácios de todo o país a nas bagagens do exército derrotado. É uma estranha forma de capitulação em que o vencedor dá os despojos ao vencido.

Um século mais tarde, numa crise de afirmação da República Portuguesa, alguém sugeriu que o novo regime político poderia receber ajuda externa se se aliasse aos presumíveis vencedores da Grande Guerra. Formou-se o Corpo Expedicionário Português, a carne para canhão preferida do Exército Inglês na Batalha de La Lys. Para além dos milhares de mortos, Portugal recebeu duas locomotivas alemãs como despojos de guerra. Mas teve de pagar o transporte até Lisboa. Saíram caras, mas a República ganhou aliados.

Mais cem anos e aí vem mais uma dose de "ajuda internacional", desta feita chamada FMI. Povo de brandos costumes, acha que todos são como ele. Quando é que aprendemos?


15  04 2011

O vulcão Adamastor (terceira parte)

O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em várias partes. Esta é a terceira e última. A primeira pode ser lida aqui e a segunda aqui.

A história foi interrompida quando se ponderava se haveria algum vulcão em actividade em meados do séc. XVI capaz de inspirar a descrição do gigante Adamastor, o guardião do Cabo das Tormentas. Vários vulcões foram analisados e excluídos. Merapi, Rajabasa, Kelud e Krakatoa estiveram em erupção na época certa, mas a sua localização não se adequa à biografia de Camões.

É precisamente nas ilhas Molucas que encontramos o candidato mais provável para um vulcão capaz de inspirar Camões na sua descrição do gigante Adamastor e da sua força telúrica. A fortaleza de Ternate foi construída à sombra do vulcão Gamalama, que sofreu uma violenta erupção em 1561, com nuvens de cinza, abalos e explosões ruidosas e derramamento de lava no mar. Mesmo que Camões não a tenha presenciado directamente, o que é provável uma vez que, em 1560, naufragou na foz do Mekong, nas costas do actual Camboja, regressando a Goa em 1561, a importância do lugar certamente lhe terá feito chegar relatos fidedignos da mesma. Por esta altura já tinha escrito a epopeia e, reza a lenda, terá nadado com um só braço para salvar o manuscrito de se perder no mar, mas também é certo que lhe daria os últimos retoques em Moçambique, alguns anos depois.

«Assi contava, e c’um medonho choro
Súbito d’ante os olhos se apartou
Desfez-se a nuvem negra, e c’um sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
Eu, levantando as mãos ao santo coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
A Deus pedi que removesse os duros
Casos que Adamastor contou futuros.»

Os Lusíadas, Canto Quinto, estrofe 60 (o desaparecimento do Adamastor)

Um outro candidato a vulcão Adamastor seria o Gamkonora, situado a algumas centenas de quilómetros a norte de Ternate, cuja primeira erupção de que há registo data também do séc. XVI, mais precisamente, em 1564. Esta, porém, não ocorreu num local tão importante como a anterior.

Em Goa, Camões é preso por se ter apropriado indevidamente dos bens que tinha à sua guarda, por inerência das funções que desempenhou na China. Julga-se que esta prisão terá sido injusta, mas não se conhecem provas em contrário. Será libertado em 1562. Nos anos seguintes vive em Goa, sob protecção do vice-rei, mas sempre queixando-se da vida difícil e sonhando regressar a Portugal.

Em 1567, consegue embarcar numa nau ao serviço de D. Pêro Barreto, novo capitão de Moçambique, que lhe custeia a passagem para a Ilha de Moçambique e lhe promete emprego. Ao que consta, essa promessa ficou por cumprir, assim como o pagamento da dívida, pelo que Camões foi preso mais uma vez. Na prisão, reescreve algumas partes d’«Os Lusíadas» e, em 1569, consegue regressar a Portugal, com o auxílio de D. Diogo Couto e outros amigos, que lhe pagam as dívidas.

Adamastor, após longos anos de guerra em causa alheia (como Camões), apaixonou-se por uma ninfa que certa vez viu na praia. Era Tétis, um amor proibido (como aconteceu inúmeras vezes a Camões). Resolveu tomá-la pelas armas, mas foi enganado por Dóris, a filha de Tétis, que lhe armou uma cilada, prometendo-lhe um encontro com a ninfa desejada. Correu para os braços do que julgava ser Tétis, mas viu-se abraçado a um duro penedo.

«Converte-se-me a carne em terra dura
Em penedos os ossos se fizeram
Estes membros que vês e esta figura
Por estas longas águas se estenderam;
Enfim, minha grandíssima estatura
Neste remoto cabo converteram
Os Deuses; e, por mais obradas mágoas,
Me anda Tétis cercando destas águas.»

Os Lusíadas, Canto Quinto, estrofe 59 (transformação do Adamastor)

A Camões foi-lhe prometido regresso à pátria, mas acabou encarcerado, sabendo haver navios destinados a Portugal passando pelas paredes da sua prisão. Esta última visita ao cárcere no Oriente pode explicar parte da caracterização do Adamastor, do sentimento de ter sido ludibriado, da resignação e frustração, qual Adamastor que sente a amada Tétis por perto. As descrições ouvidas da erupção em Ternate, as paisagens vulcânicas que viu, a sua experiência a dobrar o Cabo da Boa Esperança na década anterior e a própria situação em que se viu, preso por uma dívida que julgaria poder pagar se o emprego prometido não tivesse sido apenas um logro de Pêro Barreto, encaixam na imagem que nos deixa de um Adamastor amargurado e vingativo.

– «Eu sou aquele oculto e grande cabo
A quem chamais vós outros Tormentório
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram fui notório.
Aqui toda a africana costa acabo
Neste meu nunca visto promontório,
Que para o Pólo Antárctico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.»

Os Lusíadas, Canto Quinto, estrofe 50 (Adamastor narra a sua história)

O Cabo das Tormentas, com as suas escarpas abruptas e mares revoltos no encontro do Atlântico com o Índico era um desafio terrível para a navegação, cuja descrição ficaria sempre incompleta caso Camões não ousasse criar um gigante traído, de fúria inesgotável, que fizesse jus ao temor que aquela passagem causava aos navegadores.

As rotas mais seguras, com um longo desvio para Sul, passavam ao largo do cabo, aproveitando as correntes fortes dos oceanos austrais que, sem continentes a impedir a passagem das águas, circulam à volta da Antártida. Apesar disso, a grande diferença de temperaturas do Atlântico para o Índico, é causa de grande agitação e tempestades. Uma rota mais austral não evitava as tempestades, mas evitaria um naufrágio nas rochas.

O poeta bebeu inspiração ao longo das suas muitas aventuras. Pelas descrições que faz dos lugares e das viagens temos a certeza que passou grande parte da vida naquelas paragens, sofrendo e lutando como aqueles sobre os quais escreve. Talvez tenha ouvido falar da erupção de Ternate, certamente viu muitas vezes escarpas vigorosas como dentes afiados a ameaçar os cascos, talvez haja ainda mais que tenha visto e que não saibamos pois, é preciso não esquecer, Camões era personagem quase insignificante na época, membro da baixa nobreza caído em desgraça, e o que sabemos da sua vida deve-se à interpretação de factos dispersos, da sua obra, de pequenos relatos de amigos que lhe reconheceram o génio ainda em vida. Tal não impediu que morresse na miséria, sustentado pelo fiel António, o escravo jau.

«Tão temerosa vinha e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo, o negro mar de longe brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
– «Ó Potestade (disse) sublimada:
Que ameaço divino ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?»

Os Lusíadas, Canto Quinto, estrofe 38 (Adamastor anuncia-se)

Se Camões se inspirou num vulcão para parte da caracterização do Adamastor é incerto e até discutível, mas comecei esta viagem sem saber o que encontraria. Sei agora que, apesar de rebuscado, é possível que Camões tenha presenciado ou ouvido relatos em primeira mão de uma erupção importante ocorrida na região onde vivia na altura. Se essa experiência moldou o Adamastor de alguma forma, só ele o poderá explicar.


12  04 2011

O vulcão Adamastor (segunda parte)

O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em várias partes. Esta é a segunda. A primeira pode ser lida aqui e a última aqui.

A história foi interrompida exactamente quando ocorre um tremor de terra, o momento em que uma falha liberta toda a energia acumulada ao longo dos anos. Os edifícios começam a tremer com um barulho surdo, alguns desmoronam-se e o pânico instala-se.

Nesses instantes que, aposto, parecem durar horas, o mundo fica virado do avesso. A confiança na imutabilidade da Terra desaparece e a ideia de que há em funcionamento forças mais poderosas do que imaginamos deve ocupar o espírito. Está assegurada matéria-prima de primeira ordem para mitologias e histórias fantásticas.

A propósito disto, o meu primo J. enviou-me dois textos. Um pequeno excerto do Canto Quinto d’«Os Lusíadas», e algumas páginas do livro «Deuses, Mitos e Lendas» (ISBN: 9789724816197), onde se interpreta a mitologia da grande epopeia de Camões.

Na passagem do Cabo das Tormentas, os portugueses enfrentam o sinistro Adamastor, um gigante que viu a sua carne transformada em penedo frio e escuro, como castigo por se ter apaixonado como uma ninfa. A sua fúria cega, à altura da sentida pelo cíclope Polifemo contra Ulisses, é alimentada pela desilusão, pelas ondas que o fustigam e pelos cascos das naus que por ele se roçam, como que fazendo mofa da sua imobilidade. Contra as naus e os viajantes se vinga do seu castigo injusto. Adamastor é o guardião do Cabo das Tormentas e defendê-lo-á com todas as suas forças.

A certas alturas, a descrição do gigante pode ser comparada com a de uma erupção no mar. A lava que escorre para o oceano e se transforma em penedos numa nuvem de vapor, o vento quente que sopra e as explosões que projectam rochas pelo ar parecem encaixar na perfeição num Adamastor em fúria. Teria Camões presenciado alguma erupção vulcânica que o inspirasse?

Apesar de não ser fácil saber com certeza o que viu o poeta, pode-se tentar cruzar cronologias e procurar algumas provas que sustentem esta hipótese. Para a refutar haverá dezenas de outras interpretações, mas a biografia de Camões tem tanto de desconhecido como de interessante.

Sabemos que Camões viveu quase três lustres no Oriente, ao serviço do rei. Em 1553, partiu de Lisboa numa nau comandada por D. Fernão Álvares Cabral, ocupando o lugar de um escudeiro destacado para a Índia, possivelmente como maneira de sair da prisão após ter ferido um moço de arreios de D. João III – Camões era atreito a brigas e isso levou-o muitas vezes ao calabouço.

Chegou a Goa no ano seguinte, tendo sido de imediato enviado para a costa do Malabar e Golfo Pérsico. Mais tarde navegou para a China e, provavelmente, até Macau, onde se diz ter escrito parte da epopeia. Conhecendo estes destinos e as rotas comerciais da época, uma vez que apenas de barco se conseguia vencer tais distâncias rapidamente, podemos restringir a procura de pistas para uma eventual inspiração vulcânica do Adamastor a algumas zonas específicas.

O Estreito de Malaca era a principal ligação entre os oceanos Índico e Pacífico. No séc. XVI, quem deixava Goa aportava em Malaca e depois seguia viagem para norte, em direcção à China, ou continuava para Este, até um dos mais importantes entrepostos da época, o Forte de São João Baptista de Ternate, ou simplesmente, Fortaleza de Maluco. A ilha de Ternate faz parte das famosas Molucas, as ilhas da pimenta.

Rochas a entrar na água
Os dedos de Adamastor

É preciso não esquecer que a Indonésia actual se localiza numa longa crista de vulcões formados ao longo da zona de subducção das placas Euroasiática e Indoaustraliana e foi precisamente nesta região que ocorreu o grande sismo de Natal de 2004 e cujo maremoto associado causou perto de um quarto de milhão de mortos (ver a primeira parte). Ao longo dos Estreitos de Malaca e Sunda há inúmeros vulcões activos, alguns dos quais se sabe terem sofrido grandes erupções durante a passagem de Camões – Monte Merapi em 1554 e 1560, vulcões Rajabasa e Kelud pela mesma altura. Infelizmente, quase todos se localizam no lado sul de Samatra ou muito no interior, pelo que são candidatos improváveis.

Na ponta oriental da ilha de Samatra havia um imponente vulcão a rematar o Estreito de Sunda. Chamava-se Krakatoa e explodiu em 1883, embora se saiba que tenha havido grandes erupções nos séculos anteriores. O Estreito de Sunda, não era rota habitual, pois obrigava a contornar Samatra pelo sul, por mares mais perigosos. Também o Krakatoa tem de ser descartado como inspiração para o Adamastor.

Na outra ponta de Samatra, no mar de Andamão, já parte do oceano Índico, a pequena ilha de Weh foi formada por um vulcão e faria parte dos pontos de referência da navegação. Os seus penedos escuros e frios mergulham no mar, mas estão adormecidos e silenciosos há milénios. Camões viu-os certamente, mas o gigante Adamastor não se escondia aqui.

Continua aqui.


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