Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

22  07 2011

Requisitos mínimos

Pouco haverá a exigir a um dicionário para além de ser completo, conter verbetes elucidativos e ser de fácil consulta. Quanto aos primeiros critérios, diz o bom senso que quanto mais condensado for o dicionário, menor será o seu conteúdo e maior é a probabilidade de se encontrar remissões circulares ou tão resumidas que se tornam inúteis. Por isso, em caso de dúvida, escolhe-se o mais volumoso.

A facilidade de consulta depende essencialmente de dois factores. O primeiro é a legibilidade do tipo de letra usado. O segundo é a organização e ordenação dos verbetes. Nos dicionários temáticos podem organizar-se por categorias, mas a organização habitual é a alfabética, para que seja mais fácil encontrar a palavra pretendida. Quem se socorre de um dicionário para esclarecer dúvidas ortográficas tem um entrave adicional porque é preciso saber como se escreve uma palavra para a encontrar.

Resumidamente, o dicionário ideal é completo, com verbetes esclarecedores e com as entradas devidamente organizadas.

Argempel entre Arefece e Areia
Arefece, Argempel, Areia

O dicionário mais usado cá de casa cumpria todos esses requisitos até ao dia em que descobri o que queria dizer «Edição revista e actualizada». Tem verbetes desordenados. Numa altura em que a alfabetação já é feita de forma automática, não há desculpa.


21  07 2011

Pelos caminhos de Portugal: Vimieiro

A Estrada Nacional n.º 4 atravessa o Alto Alentejo de Este para Oeste, ligando as terras dos mármores ao Tejo e à fronteira do Caia. Para além de importantes cidades, como Arraiolos e Estremoz, liga também vilas mais pequenas mas nem por isso menos interessantes. Uma delas é Vimieiro, cujo primeiro foral data do séc. XII.

Talvez por não se localizar num cabeço dominante com as duas cidades referidas anteriormente, foi perdendo importância ao longo dos séculos. Há muito que deixou de ser concelho e hoje é apenas uma pacata vila alentejana.

Volkswagen à sombra
Azinheira e carrinha

À sombra de uma azinheira, numa colina a poucos quilómetros da vila, de onde podemos apreciar a vastidão ondulante do montado que ainda cobre grande parte da região, uma velha carrinha Volkswagen azul contempla a paisagem.


20  07 2011

A cabeça de São Gonçalo (segunda parte)

O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em várias partes. Esta é a segunda. A primeira pode ser lida aqui.

A imagem de São Gonçalo de Amarante foi arrastada da sua capela para o Rio Douro depois de uma grande cheia do Tâmega. Entretanto, a tempestade abrandou e as águas revoltas acalmaram-se. A sorte ditou que a imagem fosse encontrada a flutuar perto do que hoje é o cais de Vila Nova de Gaia, em frente às caves do vinho do Porto.

A chegada de uma imagem de forma tão invulgar foi de imediato classificada como milagrosa e apressaram-se a encontrar-lhe um cantinho numa das capelas da Vila Nova. Até 1834 Gaia e Vila Nova eram duas povoações distintas, uma voltada para o mar e outra para a agricultura. Vila Nova ocupava a zona ribeirinha e o centro de Gaia localizava-se perto do que é hoje a freguesia de Mafamude.

Nos primeiros dias dos anos seguintes a imagem de São Gonçalo fazia procissões regulares entre a Vila Nova e Gaia. Os da Vila Nova, quase todos barqueiros ou gente ligada ao rio, adoptaram-no como padroeiro e, talvez por necessidade de afirmação, a posse e exibição da relíquia seria uma forma de o fazerem, ao mesmo tempo que feriam o orgulho de Gaia.

Ora acontece que durante uma destas procissões provocatórias a imagem visitou a Igreja de Mafamude. Para grande infortúnio dós de Vila Nova, o São Gonçalo entrou de frente para o altar e a população de Gaia apressou-se a invocar uma tradição antiga: santo que entra de frente no templo não volta a sair. O São Gonçalo tinha escolhido nova morada e os de Vila Nova nada podiam fazer. Certamente que a decisão não acatada pacificamente, mas o certo é que, resignados, os da Vila Nova perderam o São Gonçalo para a Igreja de Mafamude.

Os anos de provocação não passaram em claro e no Janeiro seguinte saiu uma procissão de Mafamude em direcção à Vila Nova. Levavam com eles não a imagem, mas apenas a cabeça do São Gonçalo para não arriscar que os mareantes agora sem padroeiro a tentassem reaver enquanto lhes faziam pirraça. Regressavam a Mafamude tendo sempre o cuidado de entrar e sair nas capelas com a cabeça do São Gonçalo voltada de costas para o altar, não fosse alguém tornar a invocar a tradição e o santo escolhesse nova morada. A procissão anual de Vila Nova era agora de Gaia e estes últimos faziam questão de relembrar aos primeiros a perda da imagem ano após ano.

Chegados às margens do Douro começava o povo a gritar «O Santo é nosso! O Santo é nosso! O corno é vosso!» enquanto pavoneavam o São Gonçalo decapitado.

A dada altura, talvez para aumentar o tom da provocação, juntaram à cabeça do São Gonçalo, a do São Cristovão. A procissão fazia-se agora com o protector dos barqueiros e com o protector dos mareantes, profissões de quase todos os habitantes da Vila Nova. O bairrismo típico da região era exacerbado ao último grau. «O Santo é nosso! O corno é vosso!»

Muitos já sabiam que a procissão terminaria com cenas de pancadaria e troca de insultos e alguns usavam-na apenas como pretexto para resolver ofensas antigas. Até ao dia em que alguém resolveu levar uma barrica de vinho e uns petiscos para retemperar as forças. Uma zaragata podia ser apetecível, mas comida e bebida causam menos mazelas. O pretexto da procissão passou a ser a festa. A provocação original foi sendo esquecida, mesmo que a tradição diga que os de Gaia gritem bem alto aos da Vila Nova «O Santo é nosso!»

Vila Nova de Gaia
Vila Nova junto ao Douro, Gaia lá no alto

Procurei mais pormenores sobre esta invulgar tradição de levar em procissão apenas a cabeça do santo, mas nem nas informações da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia adiantam muito mais que o percurso e a constituição do cortejo. Tenho a agradecer ao meu primo Jorge os detalhes coloridos da festa de São Gonçalo, especialmente no que toca ao motivo do pregão muito pouco condizente com a solenidade que deve rodear uma procissão.

«O Santo é nosso, o Santo é nosso. O corno é vosso! E ele é nosso! E é, é, é!»

Já percebi que o São Gonçalo de Amarante, beato santificado por usucapião, que cura mancos, resolve problemas de fertilidade como nenhum outro e casa mulheres velhas, novas e assim-assim, é um extraordinário elo de ligação entre ritos católicos e crenças mais antigas que se recusam a desaparecer. Os caralhinhos de São Gonçalo em Amarante, a Dança dos Mancos em Aveiro e a exibição da relíquia perdida em Gaia são as faces mais evidentes desta interessante mistura que revela um pouco do que nos molda como povo.


19  07 2011

Pelos caminhos de Portugal: Ferreira do Alentejo

Quem passa por Ferreira do Alentejo não pode deixar de reparar na curiosa Capela do Calvário, adornada com pedras aguçadas.

Capela do Calvário
Capela do Calvário ou Igreja das Pedras

Segundo diz o povo, as pedras simbolizam o apedrejamento de Cristo a caminho do Calvário, embora tal episódio não faça parte da Via Sacra habitual.

Não se trata de um desenho original, uma vez que há notícia de outro semelhante que foi demolido no princípio do séc. XX em Beja e, em Peroguarda Beringel (correcção de Alexandra) resiste outra capela semelhante, embora mais pequena. É a Capela de Santa Maria Madalena ou Calvário das Pedras Negras.


18  07 2011

Pelos caminhos de Portugal: Foz do Arelho

A Foz do Arelho é um lugar curioso. O nome e a paisagem sugerem que se localize na foz de um rio, mas não há por aqui nenhum rio Arelho e a água que às vezes corre para o mar é a da Lagoa de Óbidos.

Foz do Arelho, a aberta
A falsa foz

Tenho de admitir que chamar foz a este lugar não é despropositado. Descreve bem a paisagem e o que lá se pode encontrar. É mais fácil chamar-lhe Foz (da aldeia) do Arelho do que barra de areia da Lagoa de Óbidos que parece a foz de um rio, mas não é a foz de um rio.

Foz do Arelho, a lagoa de Óbidos
O falso rio Arelho

O nome Arelho é de origem misteriosa e a povoação remonta pelo menos ao séc. XII, altura em que a Lagoa de Óbidos era muito mais extensa. A lagoa está a assorear lentamente, como acontece a todas as rias da Gândara e Aveiro. Os períodos em que está aberta para o mar são cada vez mais curtos e só à custa de dragagens não fecha permanentemente.


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