22
11
2010
A poucos quilómetros da cidade de Guimarães, num esporão paralelo ao Rio Ave que domina todas as portelas e planícies em volta, situam-se as ruínas de um povoado castrejo, cujos tempos aúreos se situam pela Idade do Ferro, a Citânia de Briteiros.
Para além da dimensão do recinto, do qual apenas se escavou uma pequena parte, o estado de conservação das estruturas é igualmente impressionante. Pequenos pátios murados, com ruínas de casas de pedra bem aparelhada e até o pormenor de uma calçada com uma caleira por onde corria a água da nascente do monte de São Romão, agora seca.
Seguindo essa caleira, que vai atravessando as lajes de um lado para o outro da rua, acabamos por ir dar a uma estrutura isolada, os banhos.
Pedra Formosa
Como termas da época romana, não se pode dizer que fossem excepcionalmente luxuosas ou de dimensão monumental. Eram adaptadas às dimensões do pequeno castro. A principal atracção destes banhos públicos seria a sauna, que, contrastando com termas tipicamente romanas, não era aquecido por uma fornalha e hipocausto, mas apenas com pedras quentes levadas para o interior.
A falta de fornalha implicava que a entrada para a sauna fosse um exercício de contorcionismo, uma vez que, para o calor e vapor não escaparem, existia apenas uma pequena abertura ao nível do chão. Mas a pedra onde foi talhada a passagem é digna de admiração. Um grande bloco de granito ostenta decorações com motivos célticos, característicos da cultura castreja. As suas linhas finas dão-lhe uma graciosidade e leveza que o tamanho lhe nega e, por isso, ganhou o merecido nome de Pedra Formosa.
21
11
2010
Característica fundamental dos mamíferos é o de possuirem um umbigo. Como animais vivíparos que são, necessitam de um cordão umbilical que os ligue à placenta durante a gestação. Após o nascimento, fica apenas uma cicatriz no abdómen como recordação. Nalguns animais mal se nota, escondida pelo pêlo ou por ser pouco marcada, mas nos humanos, faz parte da imagem que temos de nós mesmos e tem fascinado poetas e pintores.
Mas o que motivou este artigo não foi uma qualquer consideração sobre a origem do umbigo que todos conhecemos, foi exactamente o espanto por encontrar um em lugar indevido, o que veio dar um certo peso às vozes de mau agoiro que dizem estar o mundo a ficar maluco, com cientistas ligados à produção de alimentos transgénicos a tentar enxertar genes de camelos bactrianos em tomates coração-de-boi, talvez para obter tomates de duas bossas cultiváveis no deserto.
Bom, na verdade não acreditava que o mundo estivesse a ficar mais avariado do que já estava até ver a minha primeira pêra-rocha com umbigo…
Mamífero do reino vegetal?
20
11
2010
Apesar de também sentir curiosidade por culturas e povos de terras distantes, julgo que há, nos limites apertados de Portugal, um mundo inteiro por descobrir, porque a variedade deve ser a principal característica deste país.
Basta o par de dias de um fim-de-semana para que, quase sem sair de casa, se mude de ares. À mesma distância temos o mar ou o campo e, de caminho, planícies, montanha, rios e florestas. Razão têm os que querem usar Portugal como estúdio de cinema para exteriores. Atrás de cada monte escondem-se paisagens que se podem confundir com as de outras paragens.
Vacas mirandesas
À semelhança do Portugal dos Pequenitos, perto de Coimbra, percorrer o país de lés-a-lés mostra-nos miniaturas naturais do que se encontra no resto do mundo. Talvez seja por isso que os portugueses se sintam em casa para onde quer que vão.
19
11
2010
São sempre os pormenores que me despertam a atenção e os pequenos gestos das pessoas com quem me cruzo contam-me mais histórias do que as palavras que trocamos.
Certas classes profissionais têm maneiras muito peculiares de executar o que, para os restantes, parece ser ilógico fazer sem ser como está convencionado. Abrir um maço de tabaco, por exemplo, parece não oferecer grandes alternativas senão as que parecem ser mais simples. As tabaqueiras até se dão ao trabalho de colocar pequenas indicações avisando onde rasgar ou puxar.
Mas quem trabalha na construção civil, raramente segue estas indicações à letra. Sempre com as mãos cheias de pó, não deve ser muito agradável tirar um cigarro do maço puxando-o pelo filtro. É por isso que, quase sempre, abrem o maço pelo fundo, ou viram os cigarros todos ao contrário. Dessa forma, mesmo que não tenham as mãos limpas, apenas sujam a ponta do cigarro.
Hoje cruzei-me com dois reformados a jogar às cartas nas mesas do jardim. Um deles abriu um maço de tabaco. Bateu bem os cigarros, rasgou toda a parte de cima, tirou os cigarros ainda envoltos no papel de alumínio, voltou-os ao contrário e tornou a enfiar tudo no maço, com os filtros virados para baixo. Fiquei com uma boa ideia do que fazia antes da reforma.
18
11
2010
Para quase todos os portugueses, a povoação leonesa de Alcañices evoca o Tratado que fixou as fronteiras portuguesas, Olivenças à parte, no longínquo séc. XIV.
Muito longe da era de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel, Alcañices é hoje apenas uma pequena cidade de província com um milhar de habitantes que, afastada das principais rotas, perdeu toda a importância política, de tal forma que o seu nome é recordado com maior frequência em Portugal que em Espanha.

Mas nem sempre se recorda as terras pelos acontecimentos dignos de figurar nos livros de História. Esses, na maioria das vezes, são factos que pouca empatia geram. Há locais que nos ficam gravados na memória por coisas mais pequenas, aquelas que temos a certeza não ser importantes para mais ninguém.
Nesta família, Alcañices é mais do que o nome de um tratado medieval, mas esse mais que é resume-se a um velho pacote de açúcar amarelecido pelo tempo. Há três décadas, Alcañices foi ponto de passagem. O relógio da torre avariado fazia parte da identidade da cidade.

Hoje em dia, o relógio continua a marcar uma hora que não a certa, mas já não encontrámos estes pacotes de açúcar.