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17  11 2010

Cataventos

Quando andava de olho nos céus austrais, reparei que ainda havia muitos cataventos nos telhados angolanos. As igrejas importantes tinham-nos e, perto do porto de Luanda, quase todas as casas ostentavam um na chaminé.

Cataventos há um pouco por todo o Portugal, desde os mais simples, aos mais elaborados. Os edifícios novos dispensam-nos, talvez porque os seus moradores se habituaram demasiado aos confortos modernos e se esqueceram que lá fora há vento que traz dias ensolarados, frio ou chuva, consoante a direcção em que sopra. Ainda os encontramos nas igrejas, edifícios que são, por vezes, o último reduto de tradições em desuso.

Catavento de Porto Quipiri
Anjo corneteiro

Alguns, depois de muitos anos de serviço contínuo, deixam de funcionar. A ferrugem deixa-os presos a apontar um vento fictício. Com sorte e dedicação, são reparados. Apenas com sorte, são substituídos. Como os ferreiros artistas já desapareceram, são os curiosos que se desenrascam e constroem um novo catavento.

Catavento caçador
Arte popular

Os temas escolhidos podem ser menos sacros que os originais, mas conseguem dar um cunho pessoal à obra, que a distingue dos produtos feitos em série da nossa civilização.


16  11 2010

Acabaram os guardadores de vacas e de sonhos

Os fenómenos de desertificação do interior e envelhecimento da população rural não se vêem apenas nas casas abandonadas e campos incultos, vêem-se nas caras e rugas dos que resistem e no que fazem para preservar o seu modo de vida.

Há algumas décadas, as crianças do campo cresciam também a guardar gado. Hoje em dia, poucos pastores restam e os últimos rebanhos reduziram-se a algumas cabeças de gado por aldeia. São os mais velhos que agora, sem escolha, guardam cabras enquanto os mais novos emigram. Nunca regressarão. Estão demasiado desligados da terra para o fazer.

Pastora
Pastora

A escola abre portas que nunca mais se fecham. Quem estuda não quer tornar a apascentar gado ou ao trabalho duro do campo. Apenas o equacionam em momentos de desilusão, como Fernando Pessoa e a sua pobre ceifeira que canta.

Mas os velhos a guardar o gado são apenas o reflexo do fim de algumas tradições. O conhecimento deixou de se transmitir de mestre para aprendiz. Não há quem queira dedicar a vida a saberes ultrapassados, até porque as aspirações modernas não se saciam com tradições oriundas da subsistência.

Será que as futuras gerações compreenderão a verdadeira dimensão da vida do guardador de vacas e sonhos de nome Constantino?


15  11 2010

Eng.º Duarte Pacheco

O Eng.º Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas de Salazar, foi um dos maiores impulsionadores do desenvolvimento das vias de comunicação em Portugal. A ele se deve também a criação do parque de Monsanto, hoje o pulmão de Lisboa, bem como os primeiros bairros sociais e auto-estradas.

As obras monunentais da época, como sejam a Fonte Luminosa e o Estádio Nacional, bem como a abertura das Avenidas Novas e a organização da Exposição do Mundo Português foram também fruto do trabalho deste estadista.

Infelizmente, conduzia demasiado depressa nas novas estradas que mandou construir e acabou por morrer na sequência de um acidente numa delas, às portas de Vendas Novas, a 15 de Novembro de 1943. Faz hoje 67 anos.

Ainda hoje lá está o monumento marcando o local, que tem sobrevivido aos alargamentos da estrada e condutores menos prudentes.

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Monumento a Duarte Pacheco


14  11 2010

Barroco do Leão

Os seres humanos foram moldados por uma perpétua insatisfação, por uma necessidade absoluta de conhecer a resposta de todos os «Porquê?». Ao longo de milénios, numa tentativa de perceber como funciona o mundo, criaram-se mitologias várias para explicar os fenómenos naturais. Algumas foram quase esquecidas e hoje são reaproveitadas para tentar perceber novos porquês – Porque razão procuramos respostas para tudo? Porque surgiu esta teoria e não outra?

Faz parte da condição humana tentar perceber como funciona o mundo. A ciência moderna ocupa o lugar das antigas mitologias, mas fará certamente parte dessa família de explicações obsoletas daqui a algumas gerações.

Mas, mesmo que queiramos aceitar o mundo como ele é e não tentar perceber o que nos rodeia, o nosso cérebro encarrega-se de nos informar que tal é impossível. A todo o momento procura interpretar os padrões e formas que os sentidos lhe comunicam, comparando as memórias com a novidade e criando a matéria-prima para a génese de mitos.

A imaginação tem um papel muito importante neste processo. Foi graças a ela que a arte e escrita surgiram, permitindo a substituição do real pelo figurado, do símbolo pela coisa, da palavra pelo conceito. É essa nossa capacidade de associar símbolos a objectos que nos permite ver desenhos nas nuvens ou de perceber mais nas rochas do que meras rochas.

A meio caminho entre o Sabugal e a aldeia de Sortelha há um grande rochedo isolado. É semelhante aos muitos outros blocos errantes que se avistam a toda a volta, nesta região chamados de barrocos, mas tem a particularidade da sua forma e uma fenda que o atravessa nos sugerirem, de um certo ângulo, a cabeça de um animal. Dizem que parece um leão e, por isso mesmo, lhe chamam o Barroco do Leão.

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Barroco do Leão, Sabugal

Certamente terá havido inúmeras explicações para a forma curiosa que o bloco de granito tomou, havendo até mesmo que acredite que teria sido parte central de cultos anímicos pré-históricos, mas isso também faz parte do que podemos imaginar para explicar porque achamos a sua forma interessante.

Coordenadas aproximadas (WGS84): N 40º 20.433? W 7º 8.780?

A forma imaginada permite distinguir esta rochas das outras e cria um ponto de referência fiável, capaz de ser reconhecido até por quem não conhece o penedo. A associação zoomórfica a rochas, que depois passam a ser pontos de referência, não é única desta zona. Até na Ilha do Pico há uma povoação que deve o seu nome a uma rocha com a forma de cabeça de cão – Porto Cachorro.


13  11 2010

Na lagoa há sapinho, no forno assa pão

Como preparação para um almoço em família, ocupei algumas horas a fazer pão. Foram algumas horas bem passadas entre amassar, levedar, dobrar, levedar e, finalmente, cozer – ou assar, como se diz em quase todo o Brasil.

Por terras lusas, o pão, apesar de ir ao forno, diz-se que é cozido quando ao cozido se associa água a ferver. Da mesma forma, quase tudo o que vai ao forno é considerado assado, até as batatas doces que às vezes se assam no mesmo forno em que se coze o pão.

Na verdade, um assado não o é apenas porque foi ao forno. Ao assado associa-se sempre um exterior mais queimado do que o do pão. O pão coze na própria água da massa mas, se calhar, podemos dizer que o pão está assado se o cozermos demais…

Questões de semântica à parte, após uma longa hora de espera, com o pão a crescer e crescer no forno e a ameaçar não mais lá caber, ficou pronto.

Pão
Não é a faca que é pequena

O resultado final foi muito bom, pelo menos na parte que toca ao aspecto. Agora falta prová-lo.


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