Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

12  11 2010

O Inferno Português

Com a crise, as medidas de austeridade e a discussão de Orçamentos de Estado na ordem do dia, há quem diga que a vida se vai tornar num inferno. Pelo andar da carruagem, até é capaz de ser uma melhoria. Afinal de contas, estamos a falar de Portugal, onde nada parece ser levado a sério. Se calhar é do clima, mas o certo é que as coisas se vão desenrascando e daí não se passa.

À semelhança dos Infernos das anedotas que envolvem personagens de várias nacionalidades, o Inferno Português seria, pelo menos em papel, algo terrível, como nunca antes visto em lado algum mas, na prática, acaba por ser bastante confortável. É uma tradição de muitos séculos, que remonta, pelo menos, ao reinado de D. Dinis, quando a Ordem do Templo foi extinta, mas acabou por só mudar de nome.

Voltemos ao hipotético Inferno Português, também conhecido como o mais Infernal Inferno do Mundo e Arredores – IIMA, para abreviar. Para assegurar uma verdadeira infernalidade deste novo inferno, seguramente se nomearia uma comissão ou duas para redigir um caderno de encargos digno de Mefistófeles, muito provavelmente escrito com o sangue de dúzia e meia de virgens – contratadas por concurso público internacional, seguindo directivas comunitárias. As sucessivas revisões do caderno de encargos estipulariam torturas cada vez mais elaboradas, como nunca antes vistas ou até mesmo sonhadas no mundo civilizado. Fariam parte dos cartazes de apresentação as mais quentes labaredas dos infernos, os diabos com os cornos mais afiados, as chicotadas aplicadas com mais vigor, os torcionários mais sádicos e, acima de tudo, a incomparável qualidade dos acabamentos das suites privadas dos quadros dirigentes do Inferno, com janelas panorâmicas para as piscinas de lava e piri-piri.

A concurso público iriam os projectos das empresas de construção civil e consultoria dirigidas por antigos ministros, e seria seleccionado o mais caro ou o que garantisse mais hipóteses de integração na vice-presidência do conselho de administração da empresa de grande parte dos elementos do júri.

O Inferno, propriamente dito, seria construído pelo Estado, a expensas da Fazenda Pública e, assim que terminado, estabelecer-se-ia uma parceria público-privada para a sua gestão, em que o Estado arcasse com as despesas, atribuísse uma indemnização compensatória pela exploração do espaço e a empresa privada ficasse com os lucros, como vem sendo costume nestes casos.

O Diabo, essa figura central do Inferno, seria, também ele, um antigo ministro, actualmente auferindo uma principesca reforma de um banco estatal que acumularia com um chorudo vencimento e carro com motorista. Seria auxiliado na sua desagradável tarefa de torturar as almas por um verdadeiro cortejo de diabretes sorridentes, todos eles ligados às máquinas partidárias.

Até aqui, este Inferno promete ser o melhor do mundo, ou o pior, dependendo do ponto de vista, mas é preciso não esquecer que se trata de um Inferno Português. Com o Estado falido, não haverá verba para pagar o aquecimento das piscinas de lava e não será, seguramente, a gestão privada a adiantar dinheiro do seu bolso. Aliás, caso não sejam pagas as indemnizações compensatórias pela prestação de serviço público infernal, os chicotes e a roda nem sequer sairão dos armários.

Finalmente, o Diabo, que goza de isenção de horário, aproveita as despesas de representação ilimitadas e muda-se para o Paraíso enquanto metade dos diabretes aparece pela manhã, assina o livro de ponto e só volta no dia seguinte. A metade restante mete baixa invocando motivos psiquiátricos, por não se sentirem bem com o pranto dos condenados ou desgostarem da ementa da cantina.

Aos condenados resta apenas chicotearem-se uns aos outros, porque alguém tem de fazer o trabalho.


11  11 2010

35 em 528

No dia 11 de Novembro de 2010, Angola comemora 35 anos de independência. Podem parecer muitos, mas representam apenas uma pequena parte da História que une Angola a Portugal. Esta relação, com altos e baixos, feitos grandes e outros menos, começou em 1482, com a colocação do primeiro padrão na foz do Rio Zaire.

Diogo Cão Diogo Cão

As relações entre os povos de Angola e Portugal enriqueceram as culturas de ambos. E vão continuar a enriquecer-se mutuamente. É garantido.


10  11 2010

Notícias Lusófonas

O projecto Notícias Lusófonas conta com já mais de uma década a divulgar o que se passa na Lusofonia de uma forma aberta, onde se encontram as notícias que, por uma razão ou por outra, não encontram espaço nos jornais tradicionais.

O Notícias Lusófonas é também porta de apresentação dos países de Língua oficial Portuguesa, não se restringindo a um ou outro país. Através dele temos acesso a uma visão global deste mundo unido pela Língua de Camões.

E, pela segunda vez, o livro «Aerograma – Dois anos em Angola» mereceu destaque neste jornal, num apoio precioso à divulgação do livro. À Administração do Notícias Lusófonas, seu Director e corpo de Jornalistas o meu Bem-Haja!

Notícias Lusófonas


11 2010

Kailunga Vitória

No centro de Angola, os montes graníticos em forma de grosso charuto que se projectam do planalto, são importantes marcos na paisagem. Os geólogos chamam-lhes inselbergs. Pungo Andungo, a caminho de Malanje e o Monte Lubiri, no Alto Hama, são bons exemplos destas formações.

Na estrada que liga Benguela ao Huambo, pouco antes de chegar ao Cubal, actual término do CFB, avista-se um monte de forma curiosa. Um inselberg duplo marca a paisagem. Chamam-lhe Kailunga Vitória, o pico mais alto da região.

Kailunga Vitória
Kailunga Vitória

Quem viaja de comboio, tem menos referências que na estrada. A última estação, Caimbambo, ficou para trás há muito e a paisagem, apesar de variada, acaba por se tornar monótona. Avistar estes picos gémeos é sinal que o Cubal se aproxima e a viagem está prestes a terminar.


11 2010

Águas Radium

A Cova da Beira, entalada entre as serras da Gardunha, Estrela, Malcata e Opa, tem fronteiras bem definidas. A planície aluvial é delimitada por grandes desníveis, que explicam, a par do clima ameno, a fertilidade das terras.

O seu extremo norte é marcado por uma subida abrupta. Em poucos quilómetros passa-se dos cerca de 500 metros de altitude para os 900, e entra-se no planalto rochoso das terras do Alto Côa, onde as giestas disputam com os granitos a primazia da paisagem.

Nestas vertentes cavadas, os filões de urânio e volfrâmio ficam quase expostos, tendo sido explorados intensivamente durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente para a indústria metalúrgica, uma vez que o volfrâmio permitia endurecer as blindagens de tanques e couraçados. Depois da guerra, fecharam, naturalmente.

A indústria mineira não se estabeleceu na região por acaso. A existência de minerais radioactivos é conhecida desde há quase um século. Era desta região que provinha a Água Radium, água mineral com sais de rádio em suspensão, muito radioactiva, mas que, na época, se acreditava ter propriedades medicinais.

A crença era de tal forma forte que, não só se engarrafou a água, como se construiu um complexo termal. Nunca prosperou verdadeiramente e a guerra, que trouxe as companhias mineiras, afastou os termalistas. A falta de acessos e o esquecimento a que foi votada a região ditou o fecho definitivo.

Águas Radium
Ruínas das termas

A ruína era inevitável e, durante décadas, o hotel e as instalações termais foram-se degradando e desfazendo aos poucos. Hoje, restam quase só as paredes.

No final do séc. XX, houve uma tentativa de reabilitação do complexo termal, com o intuito de a transformar numa estância de golfe, negócio que parecia estar na moda nessa época, com campos a nascer às centenas por todo o país. Este projecto era um pouco mais megalómano que os demais, uma vez que se começava pelo hotel antes de haver o golfe.

Iniciaram-se as obras de recuperação, formalizaram-se sociedades gestoras, imprimiram-se brochuras com planos arrojados e procurou-se sócios para o investimento. Mas os sócios não apareceram. A falta de acessos voltou a ditar o fim do negócio.

Projecto
Projecto da estância, em 1995

Dessa época sobram as obras incompletas e alguns materiais impressos, como os prospectos em Castelhano para atrair sócios do lado de lá da fronteira, os clientes mais naturais desta região, caso não existissem campos de golfe em Espanha. Cupões de desconto em unidades hoteleiras da região propriedade de alguns dos sócios da nova empresa e desenhos com o aspecto da obra concluída também se encontram com relativa facilidade. Grande parte dos projectos megalómanos termina assim.


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