Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

11 2010

Passam despercebidos

Quando se fala das estradas de Luanda, é quase impossível deixar de mencionar as obras e os candongueiros. Fazem parte da paisagem, como os buracos e os esgotos que também poucos se esquecem.

A verdade é que as obras têm trazido melhorias, embora o transtorno do prazo de conclusão ser algo vago custe a aceitar quando se fica parado no engarrafamento horas a fio. Os troços de asfalto novo e as estradas mais largas permitem circular mais depressa, por vezes demasiado depressa, por exemplo quando, na estrada nova, se abre uma vala funda sem qualquer aviso. Diz quem sabe, que as inversões de marcha nas faixas da esquerda, baratinhas em termos de construção de obras de arte, acabam por se tornar verdadeiras armadilhas, com veículos lentos a cruzar as faixas mais rápidas.

As estradas recuperadas em áreas urbanas também ficam conhecidas por se tornarem locais de atropelamentos mortais diários, como a estrada que liga Benguela ao Lobito ou a Circular de Luanda.

Mas o que trata este artigo não são os pontos bons ou maus da estrada, nem a sua imagem. Que estão a melhorar e a mudar todos reconhecem. O propósito do artigo é acerca de algo muito comum nas ruas de Luanda, mas que, na maioria das vezes passa despercebido no meio da confusão dos pregões dos cobradores dos candongueiros e zungueiros. O pó dos dias secos e a lama dos dias de chuva distrai-nos e quase sempre nos preocupamos com o que os outros condutores estão a fazer, especialmente os dos carros mais batidos.

Enquanto procurava fotografias interessantes para ilustrar um artigo sobre candongueiros, reparei em algo que já suspeitava, há muito mais carros de luxo a circular do que se julga, mas a verdade é que, são mais sóbrios que as iáces e os corolla vermelhos assucatados, pelo menos os gama condizente com riqueza não-ostensiva.

Trânsito de Luanda
Preocupamo-nos com os azuis-e-brancos, o resto é pacífico

Também ajuda a passarem despercebidos o facto de os seus condutores serem, na maioria das vezes, muito mais cuidadosos que os restantes, resistindo estoicamente a dar m’baias à primeira oportunidade. É seguro que não perdem uma ocasião de entrar primeiro, mas raramente arriscam a pintura. Instintivamente, ignoramo-los para nos preocuparmos com a acelera a circular em contra-mão ou o candongueiro a parar em terceira fila na via rápida.


11 2010

Necessidades básicas

Li, recentemente, um artigo acerca da mudança de prioridades que tem ocorrido nas regiões mais pobres do mundo. A lista de necessidades básicas já não se restringe a comida, água, saneamento e habitação. O telefone móvel tornou-se um elemento essencial da vida de muita gente.

O artigo referia famílias indianas, que viviam sem electricidade ou água em casa, mas que tinham dois ou três telefones, o que mostra que as relações humanas chegam a ser mais importantes que o tido por essencial há alguns anos.

Os telefones celulares, com custos de manutenção das redes ínfimos quando comparados com os tradicionais, tornaram-se omnipresentes. Certos fabricantes lançam modelos exclusivamente para países subdesenvolvidos, muito baratos, com maior autonomia e revestimentos que repelem a poeira.

Este fenómeno não se restringe aos países de terceiro mundo, como alguns poderiam julgar. Até nos países mais desenvolvidos os telefones tomam prioridade sobre outras necessidades. Várias têm sido as vezes em que vejo um pedinte guardar a taça das esmolas por uns instantes para atender uma chamada no telefone que traz no bolso…

Hora de expediente
Hora do almoço

Pode ganhar a vida a mostrar a miséria ou a exibir as mazelas reais ou fingidas, mas não dispensa o telefone.


11 2010

O caderninho

Desabituei-me de trazer o caderninho no bolso desde que regressei de Angola. Cá uso menos camisas com bolsos e parece que tenho menos tempo e mais distracções para tomar notas. Sinto falta do bloco sempre por perto para fixar as ideias que já sei serem demasiado fugazes para se incrustarem na memória.

Talvez seja por isso que me custa começar a escrever um novo artigo sem ter um rabisco a dar o mote ou a marcar um ritmo. Antes tinha o trabalho quase alinhavado e agora não há nada para além de uma folha vazia. Pior, a folha vazia nem sequer é real, e limita-se a um pequeno espaço negro no ecrã.

As notas tomadas à mão emanam uma essência de incompletude, de algo que apenas será dado por terminado após ser traduzido, limpo e passado a letra de forma. Escrever directamente no computador é doloroso. É martelar as letras no lugar, ao passo que à mão as vou arrumando a toques de pena, por assim dizer. O desaparecimento da caligrafia é característica do produto acabado, facto ridículo quando admiro a letra horrorosa com que escrevo. As imperfeições das notas manuscritas perdoam-se, pois são apenas apontamentos e o conteúdo é o mais importante. As imperfeições de um texto batido à máquina são sempre falta de qualidade, de atenção; são desmazelo. Ou talvez não estejam camufladas pelo aspecto artesanal das notas no caderninho.

Bloco-notas
Um dos cadernos angolanos

Regressei ao bloco de notas. Desta vez mais bonito e com uma capa dura que o torna inapto para dobrar ao meio e enfiá-lo no bolso da camisa, que agora não uso. Percebi que era isso que me faltava para dar continuidade às muitas histórias que comecei, mas que nunca terminei porque cometi o erro de as rascunhar directamente no computador. O aspecto exterior era o de obra acabada, imutável, mas não condizia com o que lia – era feio e estava mal escrito. Tinha de recomeçar pelo princípio dos princípios e fazer os artigos estagiar um pouco no papel, rabiscar ideias, ligar assuntos com traços apressados e riscar tolices de maneira a que ainda as conseguisse ler para a elas não tornar.

Reparei que os rascunhos feitos no computador ou passam a obra definitiva no espaço de poucos dias, ou entram no limbo perpétuo dos artigos inacabados onde definham enquanto não me atrevo a apagá-los de vez. Na maioria das vezes perco a coragem de os retomar, mas não ganho a de os apagar.

Por uma qualquer razão sem nexo, sinto que o escrito à mão tem muito mais probabilidade de ser convertido em texto final do que o rascunhado no computador. Se calhar é o medo de deixar de compreender a minha própria caligrafia…


11 2010

Venda do livro

Culminando um longo percurso, o livro «Aerograma – Dois anos em Angola», foi lançado no final de Outubro.

Em pouco mais de meio milhar de páginas, relatam-se as impressões e experiências que dois anos vividos em Angola proporcionaram. Os episódios marcantes, as paisagens, os costumes e contradições traçam um percurso familiar para a actual diáspora portuguesa em terras africanas e servem de manual para os que agora rumam ao país cujo apelo é apenas conhecido através das memórias de gerações anteriores.

O livro pode ser adquirido através da loja virtual do Aerograma (http://aerograma.net/livro), ou nas seguintes livrarias:

– Livraria Nazaré e Filho, na Praça do Giraldo, 46 – Évora
– Livraria Apolo 70, Centro Comercial Apolo 70 – Lisboa
– Livraria Diário de Notícias, Praça D. Pedro IV, 11 – Lisboa
– Livraria Oficina do Livro, Praça D. Pedro IV, 23 – Lisboa
– Livraria Portugal, Rua do Carmo, 70 – Lisboa
– Livraria Círculo das Letras, Rua Augusto Gil, 15B – Lisboa
– Livraria Barata, Av. de Roma, 11A – Lisboa
– Natureoffice, Av. 5 de Outubro, 12E – Lisboa

Esta lista será actualizada à medida que o livro esteja disponível em mais livrarias e ficará sempre disponível na ligação no topo da página.


11 2010

CFB – Huambo

As oficinas do Caminho de Ferro de Benguela no Huambo são um marco na História industrial angolana. Mesmo após anos de abandono, sabotagem e destruição causadas pela guerra, continuam a ser impressionantes. Hoje em dia, apesar de não terem comboios para reparar, não estão paradas, porque a existência de ferramentas e operários especializados, permitiu que sobrevivessem transformadas em oficinas de reparação automóvel.

O propósito da linha, ligar as minas do Congo e da Zâmbia à costa, manteve-se enquanto os comboios circularam normalmente. Mesmo durante a guerra colonial, os países que suportavam os movimentos independentistas prestavam esse apoio com a condição de manterem a circulação desimpedida.

Aproveitamento hidroeléctrico do Cuando
Descarregadores

Com a ocupação do Huambo pela Unita e o corte definitivo da linha em 1993, as oficinas não deixaram de funcionar. Os comboios também não deixaram de circular por completo. Do Lobito até ao Cubal, zona de influência do MPLA, com alguma regularidade e entre as províncias do Huambo e Bié, sob gestão da Unita, com a frequência que uma linha ferroviária que não liga a lado nenhum justificaria. Actualmente, empresas chinesas reparam a linha, com a esperança de que se volte a circular do Lobito ao Luau e que as viagens não se fiquem apenas pelo Cubal. No entanto, ainda faltam muitos meses para que os comboios tornem ao Huambo.

As oficinas do Huambo ainda se tornam mais interessantes quando, após a sabotagem de linhas e centrais eléctricas, continuarem a laborar com relativa normalidade, uma vez que dispunham de uma central hidroeléctrica própria, que se situava na barragem do Cuando, junto da Missão.

A central eléctrica, também ela, acabou por sucumbir à falta de manutenção. Hoje a barragem armazena água, que se escapa com um ruído curioso pelo único descarregador de superfície aberto. Espero que seja recuperada brevemente.


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