Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

11 2010

Porto Outonal

O Porto é, para mim, uma segunda casa, uma cidade de afectos construídos ao longo de um ano inteiro de visitas semanais. Já não são só os laços familiares que me lá prendem. Há ruas e edifícios que reconheço da memória de uma visita e a própria atmosfera particular da cidade, que alguns dizem ser sombria ou até mesmo cinzenta, me parece ser perfeitamente ajustada.

Ao contrário de Lisboa, cidade que vive dos dias luminosos de Verão, aqui, as fachadas revestidas a azulejos escurecidos e o granito cinzento dos cunhais e monumentos parecem cinzentões nos dias ensolarados, aqueles em que os turistas visitam a cidade. O Porto precisa ser visto com a luz adequada, a dos dias de Outono, com chuva miúda batida pelo vento que arrasta as folhas amarelas e vermelhas dos plátanos. O contraste das pedras cinzentas e paradas com as folhas coloridas esvoaçantes cria uma atmosfera única, em que o desconforto do clima é compensado pelo lavar de olhos da paisagem urbana.

Portas do Porto
Portas, como não poderia deixar de ser

Sob esta luz especial, até os pecadilhos de novo-riquismo da pequena burguesia se desculpam, como as portas suficientemente altas para poder entrar um piano de cauda, moda de há um século que hoje marca muitas fachadas da cidade.

Talvez por isso sinta que o Porto é uma cidade Outonal, que só se revela verdadeiramente nesta estação, em que a Torre dos Clérigos parece mais alta quando desaparece no céu cinzento, com as fachadas de azulejos das igrejas lavadas do pó que se acumulou no Verão e que as vielas húmidas pareçam estar apenas húmidas porque o céu assim o ditou com gotas grossas. Ou que as frentes dos edifícios com os seis metros de largura regulamentares pareçam tão encolhidas como o frio vindo do rio nos faz sentir.


11 2010

O neto de Dragão

Os leitores regulares do Aerograma devem recordar-se das vezes em que falei do meu único elo de ligação familiar a África e Angola, o meu avô materno. Apesar de não o ter conhecido, por ter morrido décadas antes do meu nascimento, sei que viveu no sul de Angola seis anos, cumprindo o serviço militar durante a Primeira Guerra Mundial.

Pelas terras dos Cuanhamas combateu as forças alemãs vindas da Namíbia e terá, talvez, feito parte dos efectivos do General Pereira D’Eça. A sua caderneta militar regista uma Cruz de Guerra, mas tal medalha nunca foi avistada, talvez porque o exército atribuía a condecoração e o soldado, se a quisesse usar, tinha de a ir comprar.

Dragões
Companhia de Dragões em Angola

No longínquo início do século XX, com a Cavalaria ainda dependente dos cavalos, havia soldados que combatiam a cavalo ou a pé, conforme as circunstâncias ditassem – os Dragões. O meu avô fazia parte de uma das unidades destacadas para a fronteira com a possessão alemã da África Ocidental.

Como em todas estas coisas, o facto de, no papel, serem unidades de cavalaria, não quer dizer que houvesse cavalos. De facto, consta até que os cavalos fossem um pouco como as medalhas e que, na maioria dos casos, andassem apenas os oficiais a cavalo.

Cantil de Dragão
Cantil de barro

Uma das peças mais curiosas que chegou da passagem do meu avô por terras angolanas foi o seu cantil de campanha. Uma grande peça de barro com capacidade para alguns litros de água acompanhou-o ao longo de seis anos. A corda foi substituída há pouco mais de uma década, mas o cantil tem perto de um século. Fico sempre espantado como chegou inteiro até aos dias de hoje, tendo passado por operações militares a meio mundo de distância.


31  10 2010

O monóptero

No já longínquo ano de 2004, dirigi-me ao posto de turismo de Mogadouro, situado numa ponta da Avenida de Nossa Senhora do Caminho, e pedi informações acerca dos pontos mais interessantes do Concelho. A menina, solícita, entregou-me algumas brochuras. Reparei na fotografia do Monóptero de São Gonçalo, cuja imagem de monumento desolado no meio do nada conhecia, mas não sabia ser de Mogadouro. Disse que o queria ver e a menina, de novo extremamente solícita, garantiu-me que fazia muito bem, porque era uma coisa linda de se ver. Perguntei como se ia para lá e ela, um bocadinho embaraçada, confessou que não sabia, porque nunca lá tinha ido…

No mesmo dia conheci quem tivesse nascido no Azinhoso, a povoação mais próxima do singular edifício, e lá tivesse comido peixe acabado de pescar no regato que lhe corre ao lado. Indicou-me também onde começava a estrada que lá me levaria. De facto, a caminho encontrei algumas tabuletas indicando a direcção do monóptero, mas a última estava na zona industrial e a cada bifurcação do estradão de terra mal batida a dúvida aumentava. Deixei Mogadouro sem ter visto o famoso monóptero que, dizem fazia parte da propriedade dos Távoras que o Marquês de Pombal mandou arrasar, ou não fosse este canto de Portugal o seu reduto.

Monóptero de São Gonçalo
Monóptero de São Gonçalo

Este ano, munidos de indicações mais precisas, chegámos lá sem dificuldades de maior, seguindo um caminho mais longo e, também ele, não assinalado. O monóptero é, de facto, um monumento à desolação, com as suas colunas trabalhadas longe de quem as possa admirar. Algumas pedras do muro que fechava a base das colunas foram reaproveitadas para construir um pedestal tosco que suporta um São Gonçalo de plástico, tornando o edifício numa mistura de originalidade com beatitude popular.

O seu curioso nome advém do desconhecimento da sua função ou origem, tendo-se optado por chamar-lhe monóptero, ou seja, edifício circular sem paredes, com uma só ordem de colunas a sustentar a cobertura.


30  10 2010

Ultimato inglês de 1890

Na recente visita ao Palácio da Vila, descobri uma marca que o liga a África, embora de tal não o pudessemos suspeitar. Na primeira grande chaminé da cozinha do palácio, de frente para a porta, está um mosaico oferecido por um popular a El-Rei D. Carlos, incitando os Lusos a lutar pela Fé, pelo Rei e pela Pátria.

Mosaico
«Luzos às armas pela Fé pelo Rey e pela Pátria»

Datado de 1895, podemos associar este fervor patriótico ao Ultimato Inglês de 1890, determinante para o fim do sonho do Mapa Cor-de-Rosa que uniria Angola à contra-costa.


29  10 2010

Triste património

Aproveitando uma manhã chuvosa, fomos a Sintra visitar o Palácio da Vila e ver as suas inconfundíveis chaminés do lado de dentro. A História do edifício remonta aos tempos da ocupação árabe, da qual ainda hoje subsistem marcas até nas populações da região.

Nos seus tempos áureos, do reinado de D. Dinis até D. Manuel I, sofreu ampliações e adaptações, que tornam a visita num verdadeiro labirinto de escadas e portas de vários tamanhos. Tem salas assombrosas, mas que revelam uma atmosfera muito mais íntima que as de épocas mais tardias, em que salas dignas de reis tinham de parecer picadeiros, como as do barroco francês.

Sala dos Brasões
Sala dos Brasões

Há alguns anos sofreu obras de recuperação, que hoje servem de pretexto para cobrar uma das mais caras entradas em Palácios Nacionais. Infelizmente, nos dias de chuva apercebemo-nos de que as obras não cuidaram do mais importante. As salas e os móveis estão com bom aspecto, mas os telhados metem muita água.

Balde estratégico
Debaixo da goteira

Cai água na Sala dos Brasões, há baldes estrategicamente colocados debaixo das goteiras mais insistentes e chão molhado um pouco por todo o lado. A atenção da visita prende-se mais na procura da infiltração mais próxima do que nas tapeçarias ou mobiliário. É triste.


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