Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

10 2010

As primeiras chuvas

Com as primeiras chuvas de Outono a chegar a Portugal, lembrei-me que também elas chegaram já a Angola. No ano passado, mal começou o Verão e chegou a chuva, o caos instalou-se em Luanda.

Infelizmente, as duras lições dos anos anteriores, com casas arrastadas pelas águas e muitos mortos a chorar, foram aprendidas apenas pelos que as sentiram na pele. Segundo as notícias que me chegam de Luanda, pouco mudou. As valas continuam cheias de lixo e há casas novas construídas nos lotes deixados vagos pelas que ruíram no ano passado.

Rua enlameada
Três dias depois

Soube, no entanto, que a primeira chuva após o fim do Cacimbo, cumpriu as expectativas e paralisou a capital. Autocarros atolados na lama das obras, candongueiros lotados e a cobrar corridas mais caras, engarrafamentos ainda mais engarrafados e muita gente sem ir trabalhar.


10 2010

Nascimento de um livro, quarta parte

Poderá parecer um contra-senso começar logo pela terceira parte deste assunto, mas, ao resolver documentar o nascimento do livro, apercebi-me de que a primeira parte desse processo foi a que todos acompanharam. Os artigos que escrevi em Angola, a descoberta de um país e de um pedaço de mim mesmo, e que foram ganhando corpo e forma de livro à medida que o tempo passava.

A segunda parte foi aquela a que poucos assistiram, o trabalho sujo de cortar e aparar os artigos, juntando-os numa estrutura coesa, de corrigir as gralhas e os erros grosseiros. O primeiro manuscrito tinha mais de 1’600 páginas, reduzidas progressivamente, revisão após revisão, até cerca de 520, ao que achei ser o essencial do Aerograma. Estas foram vistas e revistas com a maior atenção, para que a fase seguinte, aquela em que as coisas se tornam irreversíveis, corresse da melhor forma.

A terceira parte do nascimento deste livro passou-se longe dos meus olhos, com quase tudo a ser tratado por e-mail e telefone. Os trabalhos de pré-impressão e imposição das páginas nos locais devidos já não passa por fotolitos ou impressoras de película industriais como as que usei no Instituto Hidrográfico. A era digital facilitou muito este trabalho, passando-se os ficheiros do computador directamente para as chapas.

É aqui que começa, finalmente, a quarta parte, a da preparação das chapas de alumínio com as separações de cores para as impressoras offset.

O processo é simples. Carregam-se as chapas virgens na máquina de transferência, carregam-se nalguns botões e, alguns segundos depois, a chapa sai.

Chapa de alumínio anodizado virgem
Chapa virgem

Durante o tempo em que está na máquina, um raio LASER de alta potência grava a imagem de cada página na chapa. É um processo silencioso e apenas uma luz a piscar e um apito no final servem de testemunho do que se passa.

Gravação LASER
Gravação da chapa

A chapa de alumínio anodizado pintada de azul sai com o mesmo aspecto com que entrou. É necessário lavá-la numa solução especial para que a tinta de protecção saia e se consiga ver a gravação.

Lavagem
As primeiras letras surgem

O aspecto final é curioso, com as várias páginas do livro a surgir, como que por magia, num pedaço de metal com arestas afiadas. Com algum esforço mental, conseguimos fazer as dobras necessárias para montar o primeiro caderno e imaginamos já o cheiro do livro.

Primeira chapa gravada
Primeira chapa

A seguir vem a impressão.


10 2010

Novos projectos

Após dois anos e meio de artigos diários no Aerograma, primeiro desde Angola e depois de Portugal, senti que havia um limite para os assuntos a abordar sem que o Aerograma se voltasse para o umbigo do autor. Um novo desafio impunha-se.

Ao folhear um velho álbum fotográfico do meu pai, com imagens dos últimos oitenta anos da cidade onde vivo, percebi ser uma oportunidade a explorar.

A cidade mudou muito. Os edifícios mais antigos foram demolidos e novas ruas e prédios surgiram no seu lugar. A terra cresceu, mas muitos dos lugares antigos ainda são reconhecíveis.

Algumas referências subsistem e conseguimos usá-las para viajar algumas décadas para o passado.

Durante as últimas semanas tenho vindo a preparar alguns novos projectos para explorar outras vertentes do Aerograma. Hoje é o dia de inaugurar o primeiro, dedicado à exploração de fotografias de épocas passadas.

Largo Mouzinho de Albuquerque
Duas épocas

Este novo projecto irá contar histórias de duas épocas, misturando o presente com o passado. Talvez assim o futuro venha a fazer sentido.


30  09 2010

O rapto e o ministro

Apesar de a guerra civil já ter terminado há quase uma década, ainda há altas figuras do poder em Angola habituadas à total impunidade com que as coisas se faziam em tempo de guerra.

Há uns anos, o empresário Mello Xavier, que se diz fazer negócios apenas com o dinheiro dos outros, viu um dos seus gestores, talvez testa-de-ferro, desaparecer com uma elevada quantia. Diz-se, também, que era parte de um negócio de venda de camiões russos ao Estado Angolano com preços muito inflacionados.

Por causa do dinheiro em falta nos cofres do camarada Mello Xavier, foi feita uma queixa-crime contra o tal gestor, português que temendo pela vida e, provavelmente, a par dos contornos de muitos negócios menos claros, fugiu de Angola, primeiro para Portugal e depois para São Tomé.

Em 2009, numa acção inspirada certamente no rapto de Adolph Eichman às mãos da MOSSAD, o Ministério do Interior Angolano enviou polícias a São Tomé e Príncipe para capturar o acusado. Infelizmente, esqueceram-se que aquelas ilhas não são a décima nona província angolana, tal é o hábito de assim as tratarem, e nem sequer se deram ao trabalho de emitir um mandado de captura internacional ou fazer um pedido de extradição. Foram lá e sequestraram-no como se de uma coisa normal se tratasse. Provavelmente, nem sequer se pensou nas consequências.

Tanque russo

Nesta época não se faziam perguntas

O incidente diplomático estava criado, levando a queixas por parte de São Tomé e Príncipe, cujas instituições foram completamente desrespeitadas e Portugal, do qual é cidadão o acusado. Para aumentar a indignação, Mello Xavier é muito mal visto em São Tomé, devido a negócios mal explicados anos antes, e o simples facto de estar ligado a este caso é uma boa justificação para suspeitar de marosca.

Diz quem está a par da situação, que o Ministro do Interior, o General Ngongo, autorizou a operação de sequestro devido às ligações com o Mello Xavier. Insinuam que o protege por ter garantida uma comissão nos vários “negócios”. Infelizmente, coisas destas acontecem em Angola e todos se calam, mas quando se passam em países terceiros, nem sempre corre da mesma maneira.

É claro que uma bronca deste tamanho poderia ser abafada pelos tiros dos canhões, mas estes já se calaram há muito e este incidente teve repercussões sérias. Nem mesmo Israel escapou incólume à acusação de violação da Lei Internacional cinquenta anos antes.

Era necessário fazer rolar cabeças para minimizar os danos causados à imagem de Angola. O Ministro foi exonerado e uma investigação aberta. O raptado foi libertado, mas permanece em Angola, sem documentos.

O estrago está feito e não é com a exoneração de um ministro que se repara tudo. Agora todos se perguntam como chegou aquele cargo alguém com tamanho desrespeito pela Lei.


29  09 2010

Depósito legal 317090/10

É desta! O livro está a ser impresso!

Escaldado com os atrasos na publicação do livro devido ao regresso de Angola e às férias da gráfica, entre outras peripécias, tenho-me mantido em silêncio quanto à data de lançamento do Aerograma em papel.

Nas últimas semanas o manuscrito sofreu uma revisão final, para apanhar as últimas gralhas, seguiu para pré-impressão, onde se fez a imposição das páginas para que sejam impressas oito a oito na tipografia e formar os cadernos com que se montará o livro.

O processo de pré-impressão da capa foi um pouco mais complicado, com muitos ajustes a fazer ao nível de marcações para a dobragem, alturas de lombadas, zonas de corte e de segurança e codificações de cores. Enquanto a tipografia vai fazendo o miolo, termina-se este trabalho, para não perder mais tempo.

Escolhi a Tipografia Escola da Associação dos Deficientes das Forças Armadas para a impressão do livro não só pela qualidade dos trabalhos lá feitos, mas também pela vertente social da empresa, juntando o útil ao agradável.

A impressão propriamente dita iniciou-se ontem, com a gravação das chapas de alumínio para o offset. Foi um momento mágico ver a primeira chapa ser lavada e as letras começarem a surgir. Até me custou a acreditar!

Chapa de alumínio gravada
Primeira chapa

Nos próximos dias vou documentar o nascimento do livro, porque é um marco muito importante para mim e para o Aerograma.

Comecei já a contactar quem fez as pré-reservas, para acertar todos os pormenores da entrega dos livros.


« Previous PageNext Page »