Quer queiramos ou não, Portugal é um país pequenino e afastado dos principais palcos mundiais. Até mesmo a sua importância geo-estratégica em caso de guerra na Europa ou no Médio Oriente se perdeu. Hoje em dia os aviões em trânsito da América para a Europa não precisam de fazer escala nos Açores ou Lisboa e dependem exclusivamente das "mamadeiras", que os abastecem em pleno voo.
A reduzida dimensão geográfica, que lhe permite apenas inaugurar a categoria de Estados com representação maior que um ponto nos mapa-mundi, e relativa pouca importância a nível da política mundial, não devem ser tomadas como fraquezas ou inconvenientes. É graças a elas que se garante a improbabilidade de que uma guerra ou ameaças terroristas cá cheguem sem aviso.
Por outro lado, em caso de catástrofe natural, mesmo as populações isoladas conseguem atingir os centros urbanos mais próximos em menos de um dia de viagem a pé. Os cenários apocalípticos dos filmes americanos, com milhões de pessoas presas numa cidade a centenas de quilómetros da segurança, são impossíveis por cá, novamente devido ao reduzido tamanho do país.
Daí que não perceba, de todo, porque razão o Ministério da Agricultura, em parceira com o Conselho Nacional do Planeamento Civil de Emergência e outras instituições, tenha publicado uma brochura retirada directamente de um manual de sobrevivência da Guerra Fria, recomendando que todos tenham em casa mantimentos para duas semanas e uma mochila para cada membro da família com água e comida para três dias sempre pronta para uma fuga apressada.
Reservas alimentares de emergência
Não é o pensar em teorias da conspiração sobre o que saberão estes senhores a mais que nós, nem no caricato que é não saberem adaptar as paranóias de outras paragens à dimensão portuguesa que me assusta. Assusta-me sim, o facto de alguém ter achado que isto é importante, de ter gasto tempo e dinheiro a alimentar correntes paranóicas de calamidades que necessitem de manter as populações fechadas em casa.
Neste mundo há malucos para tudo, que podem exercer onde e quando muito bem entenderem, mas apenas até ao ponto em que começam a tentar impôr a sua pancada aos outros. Este folheto só pode ser a obra de um destes malucos à solta, incapaz de distinguir a fantasia da realidade.
Esteja pronto para fugir
Entre muitos conselhos úteis para os fãs de filmes catastrofistas ou aficcionados das técnicas de sobreviência, recomendam o consumo de água sem contaminação radiológica ou química. Suponho que se refiram à causada por explosões nucleares ou emprego de armas químicas, porque água naturalmente radioactiva ou tratada quimicamente é coisa que por cá não falta.
Acrescentam ainda que se deve abastecer esta mochila não só com comida, mas também com pratos, talheres e copos descartáveis, bem como uma panela e ração para os animais domésticos. Pratos e copos descartáveis? Para poupar água a lavá-los? E a panela, fica suja? E quando se acabarem, come-se do chão ou da tigela do cão?
Virá aí um recolher obrigatório?
Se este folheto surgisse nos EUA, não ficaria surpreendido, afinal de contas, foi lá que a fita isoladora esgotou quando o Presidente Bush a recomendou como protecção contra as cartas com antraz. É por lá que os furacões e inundações deixam cidades isoladas a centenas de quilómetros do auxílio mais próximo e o medo patológico de uma guerra nuclear contra os maus ainda persiste.
Com tanto sítio onde gastar dinheiro, este folheto não só parece pouco apropriado, como chega mesmo a ser ridículo. Se esta entidade está tão preocupada com eventuais emergências desta ordem, que crie centros de abastecimento regionais, já que o país é suficientemente pequeno para que as pessoas, em último recurso, lá possam chegar a pé.
Coisas importantes a reter: Prepare-se para ficar fechado em casa grande parte de um mês ou para fugir com dez segundos de aviso e, sobretudo, não beba água radioactiva!
Só podem estar a gozar com o contribuinte!