Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

28  09 2010

Noite de luar

Para que o Aerograma não perca fôlego, agora que Angola já não o alimenta, é necessário procurar novos rumos e encontrar projectos interessantes que satisfaçam quem o lê, mas também que me dêem alento para continuar a escrever com regularidade sem cair em lugares comuns.

Mas, quando menos espero, os artigos escrevem-se por si, como o de hoje, em que foi o girar inexorável das esferas celestes que fez tudo encaixar no sítio devido, pronto para ser relatado.

Em plenos trabalhos preparatórios para novos projectos, fui surpreendido por uma noite de luar como só acontece nos filmes. Nuvens finas e Lua Cheia enquadradas pelos arcos do aqueduto fizeram-me lembrar uma tentativa gorada de ver nascer o Sol há uns meses.

Aqueduto de Queluz
Noite de luar

Fui a casa buscar o tripé e a máquina e, numa corrida, cheguei a tempo de apanhar um bom enquadramento. O casal que esperava pelo autocarro no abrigo, deve ter-me achado um bicho estranho, a correr para o meio da rua de tripé na mão sempre que não passavam carros. Valeu a pena.


27  09 2010

A companheira

Há momentos e experiências que só fazem sentido quando partilhados e esta necessidade de partilhar experiências, projectos e sonhos talvez seja uma das melhores definições do que é ser humano, porque a vida é muito mais do que manter o estômago cheio e dormir abrigado.

A vida é a viagem mais importante que fazemos e, tal como todas as outras, a origem e o destino são perfeitamente desprezáveis e o que conta verdadeiramente é o percurso. Vivemos porque nascemos e da morte não escapamos, por isso mais vale apreciar e fazê-la ter sentido.

Como em todas as viagens, é a companhia que as torna cativantes. Um outro ponto de vista, uma nova opinião sobre que caminho seguir, uma ajuda numa passagem mais difícil são essenciais para uma viagem com menos percalços e mais fruída. Nem sempre podemos escolher com quem viajamos ou ter sorte na escolha dos companheiros, mas quando acertamos em cheio, o próprio caminho fica mais bonito.

Tenho a sorte de ter encontrado a melhor companheira para esta viagem, que me acompanha e me deixa acompanhar no caminho que agora é o nosso. Comigo partilha sonhos, ideias, rumbas e pirilampos no alto da serra. Ambos temos fraquezas e inseguranças, defeitos e feitios diferentes, mas completamo-nos e amamo-nos como poucos.

Tininho
Fotografia da fotografia

É por isso que gostamos de fazer as coisas juntos!

Tininha
Fotografia simultânea

A ti, minha companheira desta viagem que é a vida, só te posso agradecer por me deixares seguir a teu lado – de mão dada ou com o braço à volta da tua cintura, com o passo certo um pelo outro. Amo-te Cristina!


26  09 2010

Paranóicos oficiais: Não beba água radioactiva!

Quer queiramos ou não, Portugal é um país pequenino e afastado dos principais palcos mundiais. Até mesmo a sua importância geo-estratégica em caso de guerra na Europa ou no Médio Oriente se perdeu. Hoje em dia os aviões em trânsito da América para a Europa não precisam de fazer escala nos Açores ou Lisboa e dependem exclusivamente das "mamadeiras", que os abastecem em pleno voo.

A reduzida dimensão geográfica, que lhe permite apenas inaugurar a categoria de Estados com representação maior que um ponto nos mapa-mundi, e relativa pouca importância a nível da política mundial, não devem ser tomadas como fraquezas ou inconvenientes. É graças a elas que se garante a improbabilidade de que uma guerra ou ameaças terroristas cá cheguem sem aviso.

Por outro lado, em caso de catástrofe natural, mesmo as populações isoladas conseguem atingir os centros urbanos mais próximos em menos de um dia de viagem a pé. Os cenários apocalípticos dos filmes americanos, com milhões de pessoas presas numa cidade a centenas de quilómetros da segurança, são impossíveis por cá, novamente devido ao reduzido tamanho do país.

Daí que não perceba, de todo, porque razão o Ministério da Agricultura, em parceira com o Conselho Nacional do Planeamento Civil de Emergência e outras instituições, tenha publicado uma brochura retirada directamente de um manual de sobrevivência da Guerra Fria, recomendando que todos tenham em casa mantimentos para duas semanas e uma mochila para cada membro da família com água e comida para três dias sempre pronta para uma fuga apressada.

Folheto paranóico
Reservas alimentares de emergência

Não é o pensar em teorias da conspiração sobre o que saberão estes senhores a mais que nós, nem no caricato que é não saberem adaptar as paranóias de outras paragens à dimensão portuguesa que me assusta. Assusta-me sim, o facto de alguém ter achado que isto é importante, de ter gasto tempo e dinheiro a alimentar correntes paranóicas de calamidades que necessitem de manter as populações fechadas em casa.

Neste mundo há malucos para tudo, que podem exercer onde e quando muito bem entenderem, mas apenas até ao ponto em que começam a tentar impôr a sua pancada aos outros. Este folheto só pode ser a obra de um destes malucos à solta, incapaz de distinguir a fantasia da realidade.

Folheto paranóico
Esteja pronto para fugir

Entre muitos conselhos úteis para os fãs de filmes catastrofistas ou aficcionados das técnicas de sobreviência, recomendam o consumo de água sem contaminação radiológica ou química. Suponho que se refiram à causada por explosões nucleares ou emprego de armas químicas, porque água naturalmente radioactiva ou tratada quimicamente é coisa que por cá não falta.

Acrescentam ainda que se deve abastecer esta mochila não só com comida, mas também com pratos, talheres e copos descartáveis, bem como uma panela e ração para os animais domésticos. Pratos e copos descartáveis? Para poupar água a lavá-los? E a panela, fica suja? E quando se acabarem, come-se do chão ou da tigela do cão?

Folheto paranóico
Virá aí um recolher obrigatório?

Se este folheto surgisse nos EUA, não ficaria surpreendido, afinal de contas, foi lá que a fita isoladora esgotou quando o Presidente Bush a recomendou como protecção contra as cartas com antraz. É por lá que os furacões e inundações deixam cidades isoladas a centenas de quilómetros do auxílio mais próximo e o medo patológico de uma guerra nuclear contra os maus ainda persiste.

Com tanto sítio onde gastar dinheiro, este folheto não só parece pouco apropriado, como chega mesmo a ser ridículo. Se esta entidade está tão preocupada com eventuais emergências desta ordem, que crie centros de abastecimento regionais, já que o país é suficientemente pequeno para que as pessoas, em último recurso, lá possam chegar a pé.

Coisas importantes a reter: Prepare-se para ficar fechado em casa grande parte de um mês ou para fugir com dez segundos de aviso e, sobretudo, não beba água radioactiva!

Só podem estar a gozar com o contribuinte!


25  09 2010

Desertificação rural

Muito se tem dito acerca do progressivo abandono a que o interior do país tem sido votado. Cada vez mais as pessoas se mudam para o litoral onde, se diz, há mais empregos e condições de vida, mas há sempre relutância em abandonar a terra onde se cresceu e onde estão todas as referências. A ligação com os lugarem onde se vive nunca é instantânea e são precisos anos até que tudo volte a fazer sentido.

A grande verdade é que não foram as pessoas que abandonaram o interior. As pessoas foram, literalmente, abandonadas no interior. O encerramento de linhas de caminho-de-ferro, estações de correios, centros de saúde e escolas afastou as vilas e aldeias do mundo, marginalizando-as economicamente. A crescente tentativa de rentabilização daquilo que, por natureza, não é rentável, seguindo uma linha de pensamento neo-liberal, redunda sempre no encerramento, desmembramento e abandono daquilo que são os serviços públicos essenciais.

Estação de Correios de Crato
Estação de Correios de Crato, fechada

Com a justificação de que cada vez há menos gente no interior, os investimentos em equipamentos diminuem, levando a que cada vez menos gente se fixe lá, num verdadeiro ciclo vicioso. Ainda por cima, os poucos incentivos para a fixação de populações são iniciativas avulsas, sem qualquer fio condutor que faça transparecer uma política continuada.

Mais chocante que a falta de investimento, é o desperdício a que se assiste quando se abandona algo que já existia, para que se degrade até ruir. Fazer algo de novo sai sempre mais caro que manter o que já existe. Abandonar equipamentos é quase que gozar com o esforço e capital investidos anteriormente e todos suspeitamos que depois haja alguém a ganhar um concurso para fornecer o mesmo serviço, mas mais caro.

Estação de Chança
Abandono na estação de Chança

Um exemplo são as dezenas de silos abandonados que há por todo o Sul do país. Na altura representaram um investimento considerável, mas que permitiu centralizar a armazenagem e envio de cereais por via férrea. Actualmente, com produções cerealíferas mais reduzidas, não defendo que se mantivessem a funcionar em pleno ou com as mesmas funções, mas tinham todas as características necessárias para se tornarem em centros de distribuição logística ou entrepostos, com armazéns, parques de manobras e terminais ferroviários, reduzindo o custo com transportes rodoviários, que apenas são economicamente vantajosos para os percursos mais curtos. As estruturas existem, mas estão abandonadas. As empresas de camionagem não ficariam sem serviço, porque a distribuição final teria sempre de passar por elas, e nestes entrepostos gerar-se-iam muitos mais postos de trabalho, pagos com a redução de custo no transporte.

Infelizmente, também as linhas de caminho-de-ferro que passam nestes silos vão sendo encerradas por falta de uso, afastando a possibilidade de aproveitar o que, a grande custo, foi criado ao longo dos anos.

Numa época em que os Estado gasta mais do que nunca, é estranho como cada vez mais se esquiva de fazer aquilo que devia. E até as empresas estatais, reduzem o quadro de pessoal para conter custos, mas acabam por gastar mais dinheiro ao contratar empresas externas para executar as funções dos trabalhadores despedidos.


24  09 2010

A banhos

No largo do Palácio de Queluz, perto do local onde se situava a fonte dos cavalos, demolida para a abertura da estrada que ligou as portas de Queluz ao Cacém, está a estátua de D. Maria I, escoltada pelos quatro continentes clássicos, estátuas recicladas de outras paragens.

Ao longo dos anos, o Sol, a chuva e a poluição não deram descanso à pedra e desde sempre me lembro faltarem alguns dedos à rainha. Os líquenes, impiedosos, foram tornando a alvura da pedra num rendilhado de cinzentos escuros e amarelos. Curiosamente, os líquenes amarelos concentram-se mais na cabeça da estátua, dando-lhe um ar de fotografia pintada à mão, apesar de não constar que D. Maria alguma vez tivesse sido loura.

Borrifando a estátua
Manutenção

Há tempos, reparei numa escada encostada ao pedestal. Julguei que fossem recolocar os dedos em falta, mas depois subiu um homem de fato-macaco branco, cheio de medo de cair, que começou a borrifar a estátua com um líquido. Não sei ao certo o que era, porque já se passaram algumas semanas e a estátua continua com o mesmo aspecto envelhecido. Talvez fosse um tratamento preventivo da pedra, para evitar que se continue a desfazer.


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