Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

23  09 2010

Halo solar

Os halos solares, fenómenos interessantes, mas menos conhecidos que os arcos-íris, com os quais partilham algumas características, podem observar-se com mais frequência nas mudanças de estação.

Ambos têm origem na difracção da luz solar em gotas de água ou cristais de gelo. No primeiro caso, a difracção ocorre a altitudes elevadas, nos dias em que uma camada de nuvens finas e muito altas cobre o céu de cinzento. No segundo caso, ocorre mais perto do chão, geralmente nos dias de aguaceiros.

Os mais frequentes são os de 22º de amplitude, como o que vi no primeiro dia de Outono, mas há outros, muito mais raros, que dependem de combinações improváveis de condições atmosféricas e alturas solares.

Halo 22º
Halo solar de 22º

Não é o primeiro a que assisto, mas desta vez tinha a máquina fotográfica à mão e pude registar o momento. Alguns minutos depois já tinha desaparecido.


22  09 2010

O roubo de azulejos

Como a inspiração para cada artigo surge de onde menos espero, a deste surgiu na visita à tipografia para tratar do tão esperado livro, que implicou uma passagem pelo Campo de Santa Clara, onde encontrei restos do lixo que alguns vendem na Feira da Ladra para sustentar vícios vários.

Nos canteiros à volta das árvores do parque de estacionamento há pedaços de azulejos azuis e brancos. São o que resta dos frequentes assaltos às fachadas dos edifícios devolutos e ermidas remotas. Alguém descobriu uma mina de dinheiro fácil ao vender separadamente fachadas inteiras.

Um azulejo isolado costuma ser um objecto bonito e acessível, mesmo que apresente apenas um pormenor do desenho completo, e esse é o grande atractivo do negócio. Quem compra, julga comprar apenas um azulejo perdido e não associa esse gesto às fachadas vandalizadas nos bairros mais antigos. Quem vende, sabe que pode repetir o negócio centenas de vezes.

Cozinha vandalizada
Dos azulejos sobra a argamassa

O impacto no património seria menor se quem vendesse os azulejos roubados o fizesse em painéis inteiros, mas isso implicaria mais riscos e chatices. Por essa mesma razão, se alguns se partirem durante o arranque, o ladrão não se preocupa. Os que sobrarem serão sempre lucro.

Azulejos partidos
Azulejos partidos

Um azulejo de cada vez transporta-se com facilidade e garante dinheiro suficiente para o dia. A pouco e pouco, o património desaparece, espalhado ao acaso, sem deixar rasto.


21  09 2010

Mais fachadas pintadas

Ao falar da parede pintada na Azinhaga das Galinheiras, insinuei que a malta do graffiti não tinha paciência para obras mais demoradas. Na sua grande maioria não tem, mas há sempre excepções à regra. Há excelentes aerografadores que se perdem a pintar borrões psicadélicos com letras deformadas.

Babuíno pintado
Babuíno de estampa

Perto do Campo de Santa Clara, onde se realiza a Feira da Ladra, já não sei bem em que rua, deparei com uma parede com um imenso graffiti autorizado. Sem a necessidade de fugir da polícia, o tempo adicional foi bem empregue e há pormenores que revelam bons artistas, como o excelente babuíno, que parece quase deslocado do resto.


20  09 2010

O seguro morreu de velho

Nos tempos que correm, muitos dizem só não se roubar o que está preso ao chão e, mesmo assim, é preciso ter sorte. Donos de bicicletas e motas sabem que um acessório essencial é o cadeado de boa qualidade e os automobilistas defendem que o alarme é mais uma garantia de que voltem a encontrar o carro no lugar. Os próprios fabricantes de automóveis acompanharam a moda e começaram a vender carros com alarmes, bloqueadores, chaves codificadas e trancas de direcção.

Há tempos encontrei um Datsun 1200 recuperado a rigor, com direito a pintura e estofos novos. O dono, pouco confiante nos sistemas anti-roubo da época e achando que um alarme moderno descaracterizaria o restauro, tomou medidas drásticas.

Carro acorrentado
Desde que não roubem o poste…

Antes que o investimento tome caminhos desconhecidos, mais vale amarrá-lo a um poste.


19  09 2010

Gerações

É uma sensação estranha folhear um álbum fotográfico e encontrar legendas escritas pelo meu pai descrevendo os meus primeiros meses. Por momentos, sinto-me como que a estudar uma vida que não a minha, à distância.

Vejo-me pelos olhos da geração anterior, em situações das quais guardo apenas memórias difusas e fragmentadas, se é que as tenho sequer. Mas, acima de tudo, revejo a minha infância, quando o meu universo terminava pouco depois do horizonte.

Cruzo-me com sonhos e memórias da geração anterior, com rostos que nada me dizem, mas foram, de certeza, importantes. Parte da vida do meu pai está aqui, nestes quadradinhos de papel. Parte da minha também.

Faria hoje 62 anos e dele restam-me as memórias e estas pequenas notas que  deixou nas fotografias.

«O primeiro biberão de meu filho»
O meu primeiro biberão


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