18
09
2010
A Azinhaga das Galinheiras há muito que é conhecida não pela arte, mas por outras questões sociais. Foi uma da antigas azinhagas de Lisboa que ligavam a cidade à quintas da periferia, e se viu primeiro abandonada e degradada e depois absorvida por bairros de lata.
Os projectos de realojamento e apoio social começaram a dar frutos e esta zona de Lisboa ganhou alguma vida e perdeu parte da má fama que tinha. Os sinais mais evidentes de degradação desapareceram, mesmo que tal tenha significado muitas demolições.
E foi numa das esquinas mais escondidas que fui surpreendido por uma pintura mural pouco comum actualmente. A geração dos graffiti não tem paciência para obras que demorem mais de algumas horas a executar e foge a sete pés dos pincéis. Latas de tinta em spray e canetas grossas são os seus instrumentos preferidos.
Trompe l’oeil
Aproveitando uma parede recentemente recuperada e pintada de branco, tão grande que parecia um muro de prisão, alguém se lembrou de dar um pouco de vida à rua. Na falta de moradores da Lisboa Antiga, pintou-se a fachada de uma dessas casas. É o retrato de uma Lisboa de há cinquenta anos, altura em que os vasos com patas-de-cavalo à porta, como na pintura, eram frequentes.
Talvez por ter sido algo de completamente inesperado e algo deslocado, mas, simultaneamente, perfeitamente integrado no resto do casario, esta pintura chamou-me a atenção. Os moradores da zona também devem gostar dela.
17
09
2010
Uma das peças de artesanato angolano de que mais gosto foi adquirida um pouco fora do circuito habitual dos mercados de arte de Luanda. Veio da Lunda Norte, juntamente com mais algumas peças simples. Comprei-o junto do Hotel Alvalade, a um mais-velho que se sentava à sombra da mangueira raquítica do separador central.
Quissange
Trata-se de um Quissange, um instrumento musical com pequenas palhetas de metal que se dedilham com os polegares. É um instrumento tosco, feito com sobras de metal e as ferramentas que havia, mas ficou bem afinado e tem um som agradável.
16
09
2010
Após longas horas a manobrar uma tupia sobre três pranchas de contraplacado que, segundo consta, nunca fizeram mal a ninguém, terminei o tabuleiro para as cápsulas de café. Como todas as primeiras peças desenhadas à medida dos erros, não é perfeita, mas saiu muito melhor do que esperava. O próximo sairá perfeito (embora não saiba bem se haja necessidade de um próximo – aceitam-se encomendas).
Ficam mais arrumadinhas
Falta envernizar, mas isso tem ficar para mais tarde. As vibrações da tupia deixaram-me as mãos dormentes!
15
09
2010
Os ditados populares que prevêem o estado do tempo são uma forma de recordar os sinais que anunciam mudanças. Direcções de ventos, formas de nuvens ou cor do céu permitem adivinhar a chuva, o frio ou o calor. A rima, quase sempre presente, é um auxiliar de memória, para não confundir os sinais.
Nas Beiras, por exemplo, o frio adivinha-se pela cor do céu a nascente «Céu vermelho para Espanha. Aparelha o burro e vai à lenha.»
Já no Alentejo, ouvi muitas vezes dizer que as moscas peganhentas são sinal de chuva. A princípio desconfiei, mas tenho de admitir que quem chegou a esta conclusão era um etologista de primeira. Admiro-lhe a capacidade de observação e associação de dois fenómenos tão distintos. Com o tempo húmido, a prometer chuva ou trovoada, as moscas andam, de facto, muito mais chatas que o costume, tentando pousar-nos na cara e nos braços constantemente.
Não sei ao certo o que justifica este comportamento, mas é certo que quando andam assim, chove quase sempre nas horas seguintes.
14
09
2010
Certo dia, em São Tomé, na cidade a que os locais chamam de Santomé, cidade-capital, distraí-me e fiz uma pergunta um pouco idiota a um polícia.
A cerimónia de apresentação de credenciais de embaixadores no Palácio Presidencial contava com uma fanfarra em farda de gala que subia e descia a avenida de cada vez que um novo embaixador era recebido. Ainda traumatizado com a absoluta proibição de fotografar em Angola com polícias ou militares por perto, perguntei se era permitido fotografar a fanfarra a um dos polícias que desviava o trânsito para o quarteirão seguinte. Quase acreditei ter dito um grande disparate, pelo ar espantado que me fez.
Demorou uns momentos para se refazer do choque, e respondeu-me com pouca convicção, talvez pela pergunta despropositada.
«Fotografar? Porque não haveria de poder?»
A fanfarra e a guarda de honra
Para além da fanfarra e guarda de honra, não havia mais militares à vista. O aparato policial resumia-se a um guarda em cada ponta da rua e um batedor de mota para os carros dos embaixadores. Claro que foi uma pergunta despropositada.