13
09
2010
Há palavras com que embirro, especialmente as aparentadas com traduções apressadas e que acabam por vingar. Botoneira é uma delas. Os alarmes de incêndio, com um grande botão vermelho fechado numa caixinha de plástico, ao invés de serem chamados de botão ou alarme, ganham o pindérico nome de botoneira, termo que não consta em nenhum dos muitos dicionários cá de casa. Talvez nos novos, os pós-desacordo ortográfico cheios de palavras estranhas, a palavra apareça, mas duvido. A tradução a martelo directamente do castelhano por um importador desleixado não deve merecer tamanha honra.
Aliás, a palavra mais próxima que encontrei foi botoeira, a mulher que faz botões, profissão para lá de extinta, ou a máquina com a mesma função. Descobri que não é só a mim que a botoneira me deixa com os cabelos da nuca eriçados, e haja quem se recuse a escrever semelhante barbaridade.
É certo que nem sempre a solução encontrada é a mais feliz, porque, a julgar pelo que vi, pode ser que haja quem julgue haver por ali um circuito para a produção de betão numa emergência. Nunca se sabe quando é preciso ir betonar uma laje a meio da noite.
Betoneira de emergência
12
09
2010
Diz-se que os cães dormem com um olho aberto, mas é difícil surpreendê-los neste estado porque o outro, que devia estar fechado, parece ser provido de uma mola que o faz abrir-se assim que alguma coisa se mexe.
O rafeirus vulgaris de Lineu que nos faz a cortesia de morar no quintal não escapa ao ditado e também ele dorme com um olho aberto. Nem sempre, porque há alturas em que tem o sono tão pesado que nada o acorda.
Desta vez, a recuperar da excitação que um casamento traz, fez os possíveis por se manter acordado, mas a idade começa a pesar e depressa deixou de passaricar por todo o lado. Tentou resistir e manter um olho aberto para mostrar que é cão, debalde.
A dormir com um olho aberto
Graças a tanto cansaço, consegui o que já me escapava há anos, um grande plano do dorminhoco.
11
09
2010
Ainda há uns dias era pequenina…
Maninha
10
09
2010
A razão pela qual a cor mais famosa dos Ferrari se chama vermelho-Ferrari tem uma explicação simples. A tinta não só é vermelha como também confere invulnerabilidade a muitos artigos do código de estrada.
Quem conduz um Ferrari da cor regulamentar beneficia de limites de velocidade alargados, prioridade nos sinais vermelhos com um toque de acelerador e, acima de tudo, permissão para estacionar nos locais mais cretinos e não ser multado, mesmo com polícias por perto.
No dia em que fomos almoçar a Porto Brandão, em frente da Gare Fluvial de Belém estava parado um Ferrari com vinte anos. Estava estacionado no meio do largo onde, nem com muito boa vontade, se poderia dizer ser tolerado parar. Mas o certo é que o vermelho-Ferrari apenas fazia virar os pescoços para apreciar as linhas e imaginar quanto custaria sustentá-lo.
Só após muita insistência por parte de transeuntes é que o polícia de serviço se aproximou do carro e começou a anotar a matrícula. Certamente achou ser um acto contra-natura, mas fê-lo para mostrar que as regras são para todos.
Vermelho-Ferrari
Entretanto chegou o dono do carro. Explicou ao polícia as características especiais da tinta da máquina e foi-se embora com um «Agora veja lá se o estaciona melhor da próxima vez…»
E se fosse um carrito do povo?
9
09
2010
Cada vez mais admiro os pescadores. A grande maioria nem nadar sabe, mas não é por isso que deixa de ir todos os dias para o mar arriscar a vida em pouco mais que uma casca de noz.
Pescadores
Tal como os peixes, também eles, os pescadores mais modestos, estão a sucumbir aos navios fábrica, que capturam cardumes inteiros de uma só vez.