Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

09 2010

O original e a cópia

Quando vivi em Angola, muitas vezes reparei que a apropriação de personagens de banda desenhada para mensagens publicitárias era feita sem qualquer pejo. Desde o Rato Mickey e Pato Donald a vender gasosas, ao Obélix a transportar Latas de óleo até ao meu favorito, o Tintim au Angola.

Comprei um postal com a capa do álbum em causa e resolvi procurar diferenças. São poucas!

Tintin au Congo
A capa do livro

Há algumas, obviamente, mas tenho de concordar que o pintor fez uma excelente adaptação do Tintim à época actual, retirando-lhe o chapéu de cortiça e trocando um caixote por um adepto de futebol.

Tintin
Tintin au Angola


09 2010

Tradições milenares

Certas profissões foram, até há poucas décadas, quase hereditárias. Eram exercidas durante gerações pelas mesmas famílias, quer por necessidade, quer por condicionantes geográficas. Os pescadores são um bom exemplo.

Os meios pequenos e a imutabilidade do trabalho mantém vivas tradições antiquíssimas. Algumas quase adivinhamos serem velhas de milénios e remontarem a crenças de povos antigos que chegaram ao que hoje é Portugal.

A decoração dos barcos Fenícios só ficava completa com a pintura de um olho de cada lado da proa. O olho que protegeria a embarcação das tempestades. Ainda hoje, na Turquia e Líbano, é comum usar-se o símbolo do olho como amuleto. Em Portugal, por onde os Fenícios também passaram, ainda se encontram resquícios dessa tradição importada.

Olhos na proa
Bote com olhos

Talvez não seja feito com intenção, mas, ao pintar o barco, há pescadores que acham a proa demasiado despida e muitos optam por desenhar olhos ou símbolos semelhantes.

Em Porto Brandão, terra que sobrevive graças ao terminal fluvial e restaurantes, há alguns destes exemplos de superstições milenares desenhadas nas proas.


09 2010

Visão dupla

Por vezes, o cumprimento escrupuloso das regras estabelecidas, roçando o excesso de zelo, é contra-producente. A sinalização vertical das estradas, por exemplo, é uma área onde nos deparamos com desperdício devido a uma interpretação demasiado literal das regras.

Em rotundas com muitas entradas, mas pouco movimento, encontramos autênticas cacofonias visuais, porque alguém entendeu que os sinais à direita de cada via deviam ser repetidos também à esquerda em todos os acessos.

Sinais a dobrar
Visão dupla

Aquilo que deveriam ser regras de circulação passou a ser uma distração, algo que nos prende a atenção sem ser pelas razões apropriadas. Os condutores chegam à rotunda e julgam ser um expositor de sinais de cedência de prioridade e sentidos giratórios.

Na verdade, talvez seja uma campanha da prevenção rodoviária, para fazer crer a quem bebeu que já está a ver a dobrar.


31  08 2010

Memória destruída

Estava para escrever este artigo desde finais de Junho, altura em que me deparei com os arquivos da Quinta Nova abertos e o seu espólio a ser carregado para um grande contentor verde prenunciador de destruição. Fui adiando, até que uma reportagem do Público, relatando o facto consumado, o tornou inevitável.

A Quinta nova foi, durante anos, o viveiro da Junta Autónoma das Estradas (JAE). Na altura em que o Estado cuidava das estradas, era daqui que se transplantavam os loendros para os separadores das auto-estradas e as árvores para as bermas das estradas nacionais. Depois veio a febre das privatizações, de fazer dinheiro rápido ao concessionar a manutenção das estradas a privados por várias décadas, a um custo muito superior ao real e, acima de tudo, superior ao recebido.

Arquivos da Quinta Nova
Abandono

Pode-se argumentar de que assim a entidade estatal responsável pelas infra-estruturas rodoviárias é menos vulnerável à corrupção, situação que levou à extinção da JAE e criação de três novos organismos, com as mesmas pessoas e idênticos vícios. Na verdade, a corrupção a esse nível triplicou e foi acompanhada por corrupção mais refinada, em esferas mais altas, como prémio pelos excelentes negócios que as empresas fazem à custa do património estatal e que depois se orgulham de ter como presidentes honorários e directores de topo antigos ministros.

Arquivos da Quinta Nova
Abandono

Com a extinção da JAE, a Quinta Nova passou para as mãos das Estradas de Portugal (EP). O edifício principal sofreu obras profundas, para albergar a sede distrital da EP. Isto passou-se em 2007. Menos de dois anos volvidos e a propriedade foi abandonada, com a transferência da referida sede para Almada, numa manobra que só se pode chamar de criminosa para a Fazenda Pública.

Fevereiro de 1937
Pedaço de memória

Para trás ficou um arquivo que remontava aos primórdios do Estado Novo, com documentos da década de 1930, onde se guardaram documentos importantes e outros, que talvez o pareçam menos agora, mas que seriam preciosos para historiadores futuros.

Arquivos da Quinta Nova
Relação de material abatido em Fevereiro de 1937

Poderá parecer um preciosismo fútil, desejar que se arquivem as requisições de material, os relatórios de acidentes de trabalho ou os mapas de trabalho de há um século, mas esta é a única maneira de preservar a memória e de poder rebater aqueles que dizem “Nunca antes se fez assim”. Destruir a memória é reescrever a História. Preservando apenas parte dos documentos, apaga-se parte do Passado, as fundações do Futuro.

Arquivos da Quinta Nova
Portugal enxovalhado

Talvez um relatório de abate de material possa parecer demasiado insignificante para se preservar, mas há que relembrar um episódio que mostra como as memória mais insuspeitas podem ser cruciais para a compreensão da História. Com a destruição da Casa da Índia no terramoto de 1755, perdeu-se grande parte dos documentos que relatavam as primeiras viagens ao longo da costa africana da expansão Portuguesa. Com base nos registos restantes, acreditava-se que o número de viagens fosse muito reduzido, mas tal noção foi desmentida quando se encontrou uma nota encomenda de várias toneladas de biscoito (bolachas grandes e duras para consumo no mar em viagens longas). Tamanha encomenda só pode significar que o número de expedições era muito maior que o indicado pelos documentos sobreviventes.

Dizem que parte dos documentos foi destruída e outra preservada. Que parte restou? Que critérios usaram? Quanto empobreceu a nossa memória?


30  08 2010

Chinesices

Para quem julga ser impossível maltratar a Língua Portuguesa mais do que já foi, com um acordo ortográfico cretino e outras aventuras, basta ler as traduções marteladas que os produtos chineses (importados via Espanha) têm nas suas embalagens.

Por vezes, penso que mais valia prescindir da rotulagem em Português, obrigatória por lei, a bem da Língua, porque tamanhas barbaridades são escusadas.

Há dias encontrei muitas destas pérolas que, apesar de menos absurdas que as de há uns anos, continuam a deixar-me os cabelos da nuca todos eriçados. Fotografei um par delas, representativas do lote.

A primeira é a tradução literal de Notebook Power Cable para um muito luso Cabo de Poder de Caderno. Pelo menos acertaram na ordem das palavras.

Cabo de poder de caderno
Traduzir não é só abrir o dicionário

A segunda pérola é a omissão no dicionário usado de uma tradução para Airproof, bem como a misteriosa transformação de um frasco em panela. O resultado é um frasco hermético confundido com uma panela de airproof. Sem a fotografia não tinha lá chegado.

Frasco imaculado
Tradução imaculada

Mas o toque final foi a tradução de aço inoxidável, que de imaculado só tem a primeira acepção de Stainless. De Stainless Steel Item a Mercadoria de Aço Imaculada nem a concordância de género com mercadoria em vez de aço se aproveita. Será o frasco hermético?


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