O outro rumo do geocaching
Afonso Loureiro
Durante dois anos, por razões óbvias, estive afastado de uma das actividades que mais gosto, o geocaching. Regressei e encontrei um passatempo muito alterado, com muitas novidades que nada me dizem e outras que me chocam. Por ser da velha guarda do geocaching em Portugal – coloquei a trigésima terceira geocache no país e agora há mais de oito mil – consigo notar diferenças abissais entre o que deixei há dois anos e hoje.
A corrida aos números estava desenfreada em 2008 e, como seria de esperar, continua de vento em popa, as caches mal concebidas e colocadas sem justificação aparente reinam, em especial em zonas urbanas e agora é necessário escolher bem quais visitar para não se regressar a casa desiludido. A quantidade não substitui qualidade em nenhum dos casos.
Procurando a caixinha
Por outro lado, a Groundspeak resguardou o geocaching de interesses comerciais nos primeiros anos, tendo feito um trabalho meritório na promoção silenciosa da actividade. Suportava toda a sua estrutura apenas com receitas de publicidade nas páginas e o registo de Travel bugs. A colocação e manutenção das geocaches continuou a cargo de cada um. Mas, a dada altura, começou a ver o geocaching como um fabuloso negócio e passou a defender o trabalho voluntário dos outros como seu. Ao invés de gerir uma página de encontro de praticantes de geocaching, passou a encarar os seus utilizadores como clientes.
Os geocachers em Portugal também mudaram. O primeiro cisma aconteceu, com sensibilidades diferentes do que é a actividade a ditar quem fica de um lado e quem fica do outro. Os encontros tornaram-se locais de negócio, onde tem de aparecer sempre a caixa com medalhinhas, chapinhas e bonés mais a revista para comprar, em vez de se falar do que realmente interessa – das melhores caches.
Não me reconheço nesta nova maneira de encarar a actividade, mas talvez seja o sinal dos tempos. Vou às caches, que é o que faço melhor.