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10  07 2010

O que é o geocaching?

Nota: Artigo escrito em Setembro de 2006. Ainda é pertinente e servirá de introdução a outros a publicar brevemente.

Em primeiro lugar o que é o geocaching?

Resumindo, é uma caça ao tesouro com o recurso a posicionamento por satélite. Dito assim parece não ter piada nenhuma…
Bom, vou tentar fazer melhor.

O geocaching é actividade de descobrir geocaches. Uma geocache (para os portugas tem o nome carinhoso de tupperware, embora nem sempre o seja) é uma caixa escondida algures por alguém. Para já não nos interessa saber quem a escondeu. Esse alguém teve o cuidado de levar um receptor GPS e, com muito carinho, registar a posição do tesouro que escondeu. Mais tarde, qual progenitor orgulhoso, vai até ao site www.geocaching.com e publica as coordenadas da sua geocache. Simultaneamente acrescenta uma série de informações mais ou menos pertinentes acerca do seu tesouro: como lá chegar, o que contém, a história do lugar, onde é que se comem bolos nas redondezas (chamamos geocatering a esta parte – e há quem diga que é a melhor), dificuldades eventuais, etc.

Geocache
Geocache

Cada autor de geocaches tem o seu estilo. Em Portugal há as famosas caches dos Greenshades que sempre associaram paisagens magníficas a esconderijos muito bem pensados.

Assim que esta informação é tornada pública, milhões de malucos (entre os quais eu) recebem a descrição da nova geocache e as suas coordenadas. A seguir é só carregar as coordenadas no receptor GPS e tentar reduzir a distância que nos separa da geocache até zero. Nesta altura, se tudo correu bem, devemos estar já a tentar descobrir onde poderá estar escondida a caixinha!

As geocaches dividem-se em várias categorias.
Em primeiro lugar há a divisão por tamanho:

  • micro – uma caixa de rolo fotográfico ou similar
  • small – algo onde caiba um pequeno bloco-notas
  • regular – uma caixa com o tamanho de um bloco A5, mas mais alta
  • large – são grandes! A maior que vi era do tamanho de um caixote do lixo

A divisão seguinte é o tipo de desafio:

  • tradicionais – coordenadas + GPS = geocache encontrada
  • multi-cache – coordenadas + GPS = local onde se encontram as coordenadas para o passo seguinte ou a cache final
  • Enigma – coordenadas + puzzle para decifrar + GPS = geocache encontrada
  • Há outras categorias, mas não tão expressivas (e com menos piada)

Cada geocache tem duas graduações, que variam de 1 a 5.
Uma é a dificuldade do terreno. Classificação 1 indica que qualquer um pode chegar à cache. Classificação 5 indica ou a necessidade de material especial (escalada, mergulho, fato de toureiro, etc.) ou uma aproximação muito demorada e penosa. Em Portugal há uma cache com uma caminhada de aproximação de 12 km, por exemplo (e outro tanto de regresso).

A outra graduação é a da cache em si. Se for classificada como 1 está quase à vista. Se for classificada como 5, podemos já começar a chamar nomes o autor porque deve ter uma mente tão retorcida que a cache é quase impossível de encontrar. Quando finalmente encontramos estas caches ficamos a sentirmo-nos um pouco burros porque agora achamos que é impossível não dar com ela.

O que contém uma geocache?
Apesar de cada um ser livre de colocar o que quiser dentro do seu tupperware, o conteúdo mais habitual resume-se a um livro de registo (obrigatório), algo com que se possa assinar o dito livro (recomendável, mas nem sempre presente) e alguns presentes de valor simbólico (mas há quem deixe coisas de valor).

Geocache
Geocache

Onde se escondem geocaches?
Há geocaches escondidas em meios urbanos e meios naturais (vulgo: mato). Geralmente, o autor de cada cache escolhe um determinado local por ter uma paisagem fantástica, por ser algo pouco conhecido ou de relevância histórica, gastronómica ou cultural. É certo que há caches mais emocionantes que outras, mas descobrir um tesouro, mesmo que a brincar, é sempre agradável!

As caches no meio do campo costumam ter uma guarda avançada constituída por arbustos com espinhos. Mal se chega à cache descobre-se que afinal até havia um acesso fácil e não espinhoso.

O que se faz quando se encontra uma geocache?
Há uma primeira parte que varia de pessoa para pessoa. Há que sorria, há quem ria, há quem dê pulos de alegria.
Depois é preciso abrir a cache, o que nem sempre é fácil por causa dos geocachers anteriores terem dado um nó no saco de protecção. Resolvida esta parte, a primeira coisa a fazer é registar a nossa visita no logbook. Aproveitamos e lemos o que os geocachers anteriores escreveram.
A seguir trocam-se as prendas. Um porta-chaves por um pin, uma fita de pescoço por uma bola saltitona, ou então não se troca nada.

Habitualmente tiram-se muitas fotografias de paisagens, palhaçadas, infortúnios alheios (escorregar para dentro de um regato, por exemplo).

Geocache
Registo da visita

Uma parte importante do geocaching é tentar recolher algum lixo que se encontra (infelizmente) espalhado por todo o lado. No fim de um dia de caça voltamos com um saquito com garrafas e pedaços de plástico para deixar no contentor mais próximo.

Quando chegamos a casa voltamos a ir ao www.geocaching.com e registamos a nossa visita à cache. Há logs mais ou menos extensos.

Há algumas prendas especiais, chamadas Travelbugs ou geocoins, que têm gravado um código. Usa-se este código para seguir o seu percurso de cache em cache.
Por exemplo, uma geocoin que encontrei um dia destes pode ser seguida em: Bargao Henriques family Double Dragon Geocoin

E depois?
Bom, depois há sempre vontade de descobrir mais outra… e em Portugal já há mais de 700! Geocaches Portuguesas

Actualização: Quatro anos volvidos e há mais de 7000!


07 2010

Cristina Imelda

Ainda me sinto um pouco desorientado em casa, embora saiba que é natural, depois de dois anos fora. Esqueci-me dos sítios de umas coisas e de outras ainda não os aprendi. Habituei-me a controlar a desorientação e procurar um bocadinho antes de chamar pela Cristina porque não sei onde estão guardadas as mochilas – muito provavelmente ainda nas caixas da mudança.

Mas há dias em que, ao entrar em casa me sinto particularmente deslocado. Esta semana cheguei mesmo a duvidar se tinha entrado na porta certa. Por momentos achei que estava à porta da mesquita no dia de oração. Faltava apenas o almuadem no alto do minarete a recitar o chamamento. Com tantos sapatos na entrada, e à falta de minarete no horizonte, concluí apenas que estava no sítio certo, mas que me tinha casado com uma centopeia. Numa contagem rápida, sem espreitar a sapateira, eram quinze pares. Afinal de contas, de quantos sapatos precisam as mulheres?


07 2010

Angola em fotos: Toponímias

O novo nome da rua foi pintado sobre a placa toponímica colonial mas, com o passar do tempo, a tinta desapareceu e a Rua Garcia de Resende voltou ao nome antigo. Nas outras esquinas, mais abrigadas do Sol, a tinta branca ainda cobre o nome antigo, mas a tinta preta também desapareceu.

Placa Toponímica
Toponímia resistente, numa esquina em Luanda


07 2010

Mais dezanove anos de espera

Por alguma razão, há dias que nos ficam marcados na memória de forma mais persistente que outros, às vezes com recordações que ficam adormecidas décadas.

Durante dois anos, a Lua, especialmente nos dias em que enchia o céu com um sorriso bonito ou uma cara bolachuda, foi o ponto de encontro de olhares a meio mundo de distância e permitiu recordar rumbas dançadas ao relento em noites de Verão. Agora, nos primeiros dias da estação quente, com a noite a chegar tarde, a sua mancha branca preenche um céu vazio de nuvens e desperta recordações velhas de vinte anos.

Na altura em que os terrenos do jardim em volta do Palácio ainda eram utilizados para ensaio de sementes e a estrada não tinha engolido a Ribeira das Forcadas, lembro-me que decidi ver nascer o Sol numa manhã dos últimos dias de Junho. Dois dias seguidos acordei cedinho, subi o monte e esperei. Teria sido um momento sem muito mais significado que assistir ao dealbar do novo dia se, ao segundo dia, não tivesse olhado para o outro lado, em busca das sombras que desapareciam, e lá estava ela, a Lua Cheia enquadrada por duas oliveiras centenárias.

Lembro-me que achei interessante repetir a experiência, mas depressa me desiludi, porque para ter o Sol e a Lua nas mesmas posições relativas e assistir a tudo do mesmo sítio implicaria esperar que os calendários solar e lunar voltassem a bater certo, coisa que só a cada dezanove anos acontece. Ver a Lua Cheia desaparecer entre aquelas duas oliveiras na alvorada teria de esperar.

Lua

Lua de Luanda

Tudo isto ficou esquecido até agora, que reparei na Lua, que incha continuamente à medida que o fim do mês se aproxima. Talvez a experiência se repita agora porque dezanove anos é muito tempo para esperar por alguns minutos de contemplação.

Na noite marcada, com os horários bem estudados, acordei duas horas mais cedo, excitado. Pela janela fui espreitando a posição da Lua e o horizonte Oriental a mudar de cor. Tudo parecia perfeito. A cerca de meia-hora de sair de casa, algumas nuvens começaram a ocultar a Lua, em sinal de mau agoiro. O céu límpido da madrugada, a prometer espectáculo igual ao anterior foi ficando farrusco e acabou por esconder o momento ansiado. Que desilusão.

A paciência é uma virtude e daqui a dezanove anos tudo se repete.


07 2010

A origem da vuvuzela

Com a internet a permitir copiar e espalhar ideias cada vez mais depressa, o mundo é varrido por modas com cada vez mais frequência. Se a imitação é o melhor elogio, então a humanidade tem-se em muita consideração, com os de cá a imitar os de lá e vice-versa, num ritual narcisista global. Começo a pensar que não estamos assim tao longe dos macacos, porque a imitar-nos uns aos outros desta maneira, entramos na categoria de macacos de imitação.

Por outro lado, com cada vez menos jornalistas independentes nas redacções, e a concentração das redacções de vários jornais e rádios numa só, não se escrevem notícias, copiam-se e adaptam-se comunicados de imprensa. Muda-se umas vírgulas aqui e ali, traduz-se dacolá, uma pitada de conservante e uns aditivos e produzem-se conteúdos, ou notícias modernas, sei lá. É irritante comprar dois jornais diferentes e descobrir que nem sequer a ordem das notícias varia. Prossivelmente, até a publicidade é a mesma.

Foi assim que a termo vuvuzela ficou na boca do povo, alguém descobriu como se chamavam as cornetas do futebol na África do Sul, os outros acharam piada e depois toda a gente copiou. Num instante, todo o mundo passou a saber o que queria dizer. No instante seguinte, todo o mundo soube como era irritante e barulhenta. Tão depressa como o nome correu mundo, assim se espalhou o ódio ao instrumento.

Fez-me um pouco de confusão como o nome vuvuzela entrou tão depressa no dia-a-dia, mas a barulheira que faziam impediram-me de pensar no assunto. Depois de Portugal e Brasil serem eliminados do campeonato de futebol, com o silêncio a voltar às noites portuguesas, comecei a ligar as pontas e descobri que isto é apenas um efeito secundário do acordo ortográfico. Já ninguém sabia se corneta-do-futebol se escrevia com ou sem hífens, e ficou só vuvuzela.


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