19
05
2010
O artigo publicado no Notícias Lusófonas anunciando a publicação do livro mereceu também destaque no Alto Hama, blog do jornalista Orlando Castro.
No Aerograma procurei encontrar o equilíbrio entre veicular as minhas opiniões e interpretações do que vejo e as susceptibilidades de quem lê. Ao longo de dois anos, o Alto Hama mostrou-me que é possível combater os limites à liberdade de expressão que impomos a nós próprios, quando nos censuramos por receio de perturbar as águas e acordar os tubarões. Pior censura é a auto-imposta, tal como o pior cego é o que não quer ver. Pela sua coluna vertebral não amovível e pelo apoio dado ao livro, ao Orlando Castro o meu Bem-Haja.

19
05
2010
Nos mais novos as coisas são diferentes, com nomes inspirados na tradição ou nas telenovelas, mas na geração dos angolanos com cerca de trinta anos, o nome Agostinho é muito popular.
Num interessante fenómeno sociológico, o falecido Presidente e herói da independência de Angola foi homenageado por milhares de pais esperançosos no futuro do país e dos filhos. Que mais aspirar senão que o filho conseguisse ser tão influente quanto o nome do homem em que se inspiraram?

Agostinho Neto
Se, por razões históricas, o nome Agostinho é frequente, uma outra faceta da questão, que daria pano para mangas tentar perceber todos os porquês, é a relativa falta de popularidade do nome José Eduardo.
18
05
2010
O Pedro é azarado. A mãe diz que nasceu virado para a Lua e isso explica muito do que lhe tem acontecido de mal na vida. Para começar, nasceu albino, com todos os inconvenientes de o ser, agravados pelo facto de viver nos trópicos e os protectores solares não serem baratos.
Cresceu com um grupo de amigos quase da mesma idade, que moram nas casas que dão para o pátio comum, com a grande mangueira no meio. Treparam todos à mangueira e quase todos racharam a cabeça uma ou outra vez por de lá terem caído abraçados a um ramo fininho com uma manga sumarenta na ponta. O Pedro via-os de dentro de casa e, ao final da tarde, quando podia andar cá fora sem franzir os olhos, tentava imitá-los. Dizem que foi por ter caído mais vezes que os outros que ficou assim, um bocadinho menos esperto, um bocadinho mais ingénuo.
Alguns dos amigos mais crescidos, para se armarem em homens fortes, começaram a fazer tatuagens. A partir de certa altura, o que distinguia os meninos dos homens era a tatuagem e quanto maior, melhor. Implicitamente entenderam que esse era o sinal de entrada na vida adulta. O Pedro foi ficando para o fim do grupo dos meninos. Pouco saía de casa e não sabia onde poderia fazer uma tatuagem.
Um dia, para se sentir integrado, saíu bem cedo à procura de um artista. Foi perguntando e acabou por encontrar um rapaz que lha fazia por cem dólares. O Pedro nem hesitou e mandou desenhar um Che Guevara no ombro, como viu aos amigos. Infelizmente, como nasceu virado para a Lua, o tatuador sem recomendações que encontrou estava a iniciar-se na profissão. O Pedro foi o seu primeiro cliente e o desenho não se parece nada com o acordado, mas , pelo menos, não o consegue ver bem, nem mesmo torcendo muito o pescoço e anda contente exibindo a prova de que já é homem na pele rosada.

El Che
Os amigos gozam com ele, porque parecenças da tatuagem com o revolucionário argentino, nem o cigarro com que o desenharam servirá e é inaudito que o Che Guevara alguma vez tenha usado o Afro de Bob Marley. Conta quem o conhece que “lhe estigam por causa da tatuagem do Hoji-ya-Henda!“.
Mas nem tudo são tristezas, porque o Pedro, na sua ingenuidade, acha que riem com ele e anda orgulhoso da sua tatuagem do guerrilheiro angolano.
17
05
2010
Carlos Alberto Jr., o jornalista que, durante dois anos, deu vida ao Diário da África, mudou de hemisfério. Em Washington iniciou um novo diário, desta vez chamado Olhares Míopes, que acompanharei com o mesmo interesse.
Do outro lado do mundo recordou-se do nosso único encontro pessoal, das nossas primeiras palavras trocadas e da promessa ainda não cumprida de nos voltarmos a ver. Provavelmente, este encontro não será em Luanda, com vizinhos barulhentos, mas o mundo está a ficar cada vez mais pequeno e não me espantaria se nos cruzássemos numa livraria onde saciamos o vício das vozes que nos enchem a cabeça assim que vemos livros.
Foi a primeira pessoa a sugerir um livro, na altura em que eu próprio ainda não sabia bem que rumo iria o Aerograma tomar. A ele, o meu Bem-Haja pelo que partilhou ao longo de dois anos.

17
05
2010
Depois de muitas vozes se levantarem em protesto contra a perda de identidade da cidade, o património arquitectónico começou a ser salvaguardado a nível oficial. Para alguns edifícios históricos é uma medida que chega tarde, porque agora só existem na memória de Luanda e no seu lugar nascerão centros comerciais.
Os primeiros passos são tímidos, não passando do descerramento de uma placa identificando, nalguns casos, a ruína que, se não vir obras urgentes, desaparecerá depressa. Mas tem de se começar por algum lado e reconhecer que há património a salvaguardar é andar na direcção certa. Talvez depois se encontre orçamento para a recuperação.
Placa no antigo Clube Transmontano
Alguns edifícios antigos mereceram homenagem, entre eles, o antigo Clube Transmontano, a velha estação da Cidade Alta e a sede do Jornal de Angola, representativa das casas de sobrado típicas da Luanda do séc. XIX. O Palácio de Ana Joaquina mereceria uma se não tivesse sido demolido e substituído por uma cópia há uns anos.
Ainda há muito trabalho pela frente, não só na classificação, mas, acima de tudo, na recuperação e conservação antes que seja tarde demais. Todos sabem que há muitos edifícios notáveis com o destino traçado, e que o seu número aumentará a cada ano que se deixe passar. A bem da memória e identidade de Luanda, alguns têm de ser preservados. Centros comerciais e edifícios de escritórios nem alma têm, quanto mais memória.