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24  05 2010

Peixe seco

Quase dez anos volvidos sobre o fim da guerra civil, a rede de frio angolana começa a ser alvo dos programas de reconstrução nacional, propondo-se a recuperação dos entrepostos frigoríficos das capitais de província e municípios mais importantes.

Actualmente, o peixe angolano só se encontra em duas variedades. O fresco, vendido no próprio dia, e o seco, que se conserva o tempo suficiente para chegar ao interior em boas condições.

Preparando o peixe para a secagem
Preparando o peixe para a secagem

Durante as últimas décadas, a secagem foi a única forma de conservação de carnes e peixes disponível em Angola. Somente em Luanda era possível encontrar congelados, porque as cadeias de frio eram impossíveis de manter para o interior, com as estradas cortadas devido a situações militares instáveis e a falta de peças de substituição e combustíveis para alimentar os geradores dos entrepostos.

O peixe que chega às praias é imediatamente separado consoante o seu destino final. Os peixes maiores ou mais rentáveis são encaminhados para os mercados ou restaurantes, para serem consumidos no próprio dia, e os restantes começam a ser preparados para a secagem ainda na praia.

Seca artesanal de peixe
Secando o peixe

Na areia, os pescadores abrem e amanham o peixe, retirando-lhe as guelras e demais órgãos internos. Depois lavam-no com uma escova, para ter a certeza de que ficaram bem limpos e sem areia. Uma última lavagem em água do mar e são estendidos ao Sol sobre armações de cana, onde ficam até se parecerem com solas velhas e perderem o cheiro de peixe. Depois de seco, é ensacado em grandes fardos e carregado para os mercados.

Vendedoras de peixe seco
No mercado

O peixe seco, fonte de proteínas relativamente acessível, entra em muitos pratos típicos angolanos, aos quais empresta um paladar característico. Infelizmente, ao fim de algumas transacções já ninguém sabe muito bem que peixe é e os melhores calulus de peixe seco são filhos de peixe incógnito.


23  05 2010

O mais-velho do mercado

Desta vez, quem pagou as cervejas foi o próprio Soba, para continuar a conversa com mais calma.

Em frente à banca do sobrinho, onde estivémos a ver as últimas novidades nas estátuas produzidas na oficina familiar, começámos a falar das terras de onde vinham. A família do mais-velho B. era quase toda de M’Banza Congo – antigamente chamada São Salvador do Zaire, fez questão de frisar. Vieram para Luanda pelas mesmas razões que tantos outros e montaram uma oficina no Sambizanga, «um quintal com umas mesas, para se trabalhar à sombra». A madeira vem toda da província, em troncos grandes e depois trabalham-na cá.

Ele e o sobrinho ainda não se habituaram aos hábitos alimentares de Luanda. Aqui até comem as ramas das batatas e das abóboras. Nem mesmo a jimboa, que tem uma folha parecida com o que o mais-velho me desenhou no chão, sabe ao mesmo. A de Luanda é amarga, por causa da água cheia de lixo com que a regam. E não queriam acreditar quando viram gente a comer a gingueja gajaja com jindungo. O meu amigo G. já me avisou que tem um sabor horroroso e que lhe costuma chamar a fruta das gajas, porque só as grávidas é que comem daquilo quando estão com os apetites.

Perguntei-lhe pelos artesãos que conheci no final do ano, que trabalham nas traseiras do mercado do São Paulo. São refugiados das Lundas, de onde veio o símbolo do Pensador, e estão à espera que o Governo lhes dê casa, mas só fazem coisas simples, como os batuques e os pilões, para não morrerem de fome enquanto esperam. Artistas, garante, são os povos do norte. A sul apenas admite a excepção das gentes do Lubango, porque os restantes não sabem esculpir bem.

Pelo que conheço, os povos do sul não sabem trabalhar madeiras tropicais porque não as têm, mas fazem peças escultóricas impressionantes com outros materiais.

Já sentados à sombra e com três Cucas à frente, daquelas em garrafa de xarope, continuou a falar da sua terra. Antigamente tinham até um Rei do Congo em M’Banza Congo, que recebia os impostos do Gabão até ao Congo da Bélgica – «Democrático» corrigiu.

Cuca
Cuca fresquinha

Lembra-se do princípio dos anos sessenta, quando tinha catorze ou quinze anos e havia farras sempre que o Benfica ou o Belenenses ganhavam. O Benfica porque era o Benfica e o Belenenses porque havia um patrocionador da equipa na cidade que dava emprego a muita gente. Lembra-se de quase todas as equipas portuguesas da época, mas garante que é do Benfica, porque antes, essas equipas do Petro e do 1º de Agosto não existiam. «Depois veio o MPLA e acabou-se as farras…» acrescentou, desgostoso.

Gosta de ouvir kuduro, mas deixa a dança para as crianças, com aquela coisa de dar às pernas e aos braços sem jeito. Depois ainda começavam a falar «Olha o mais-velho a dançar kuduro…» Nas festas, gosta é de dançar kizombas, sembas e tarrachinhas. Música boa para dançar é a do Bonga e também a lá do sul, que tem o ritmo certo, o ritmo que pede para puxar a catorzinha contra o peito «Catorzinha, é como quem diz… dançar com uma m’boa contra o peito…»

Enquanto pede mais uma rodada à moça, diz que bebe uma grade de cerveja por dia. Duas ou três de cada vez, porque se beber todas juntas começa a falar à toa e a ver filmes. Mas não são os filmes de agora, dos chineses, com os karatés. São os filmes com o Alain Delon, que o deixou muito triste saber que tinha morrido, os do Cantinflas, porque o Mario Moreno era um artista e os do Trinitá, que comia os feijões com a colher de pau e o Bud Spencer que estava sempre a partir as cabeças dos bandidos.

Naquela altura, eram filmes para maiores de 16 anos e não os deixavam entrar no clube nem mesmo pedindo com jeito. O único remédio era subir às árvores para ver a fita por cima do muro, porque o filme era projectado num ecrã montado sobre o campo de futebol de salão. Havia sempre o problema de serem apanhados pelos polícias, que já lhes conheciam as manhas e os mandavam descer da árvore e os levavam para a esquadra enquanto o filme não terminasse. Mas eles já tinham a lição estudada e o primeiro a descer sabia que tinha de se deixar cair em cima do polícia, para que conseguissem todos fugir no meio da confusão. Outras vezes, aproveitavam um buraco debaixo do muro do clube e entravam. Depois diziam que iam à casa de banho, mesmo ao lado da plateia do cinema, e ficavam até ao fim.

O mais-velho gosta de reviver esses filmes com quem os conhece, mas os amigos da idade dele começam a escassear e contar os filmes da meninice aos mais novos não tem piada nenhuma porque eles não viram, nem sabem como era. Nem a mulher, com 38 anos se lembra deles. Bem procura esses filmes antigos, mas agora já só há dos chineses e dos outros, os pornográficos, que eram proibidos. Ele acha mal que se vendam assim, mas já é velho e os novos têm outras vidas e aprendem outras coisas. A propósito de aprender, lembrou-se ainda de tempos mais antigos, de quando andava na escola e lamenta-se «No meu tempo, as crianças iam para a escola e davam-lhes leite e um pão com manteiga, mas agora, os netos vão à escola do Governo e, se não lhes dermos cinquenta kwanzas para chupar um gelado ou comer um pão sem nada, passam fome.»

Calhou em conversa falar de tabaco e de haver poucas pessoas a fumar. Garante que há muitas, mas «não fumam a toda a hora, como os chineses, que devem fumar dez maços por dia». Fumam muito e trabalham muito, mas não gosta deles, que vieram tirar os trabalhos todos aos angolanos. Quando passam pela banca, manda-os seguir para outra. «O Zé Dú é que gosta de chineses. Eu não.»

Mais-velho fumando cachimbo
O mais-velho a fumar

Continuando a conversa em torno dos vícios, disse que tem saudades do vinho de barril, daquele que se tirava com a torneirinha, mas agora já não há. O de pacote não sabe ao mesmo e é mais caro. Lembra-se de quando se mudou para o N’Zeto, alguns anos depois de ver os filmes pendurado nas árvores, e dos pescadores que voltavam do mar e paravam na loja para comprar meio litro de vinho por meio tostão, porque na altura tudo se comprava nas lojas e um escudo valia muito.

«Queria-se farinha, ia-se na loja. Queria-se sabão, ia-se na loja. Queria-se vinho, ia-se na loja. Tudo na loja. Não era como agora, que se tem de ir nos mercados das esquinas. Era tudo na loja. Só a fruta se comprava fora.»

A propósito do dinheiro dessa altura, enumera algumas moedas, como quem imagina o que comprava com elas, mas quando fala em vinte escudos, até se inclina para trás com os olhos bem abertos para dizer que era «muuuito dinheiro!». «E cinquenta escudos era tanto, que se encontrassem um rapaz de catorze ou quinze anos com uma nota de 50$00, levavam-no para a cadeia até lá ir o pai dele explicar de onde tinha vindo todo aquele dinheiro…»

Como nos vê a beber devagarinho, diz que isso se cura bem com pau-de-cabinda, que dá força em tudo, até no beber cerveja. De vez em quando surpreende a mulher, mais nova trinta anos, quando chega a casa e lhe pergunta «Diz que o pau de cabinda é bom para dar força. Queres experimentar e depois ir no quarto ver se faz efeito?» Ri-se e garante que ela gosta da diferença!

(nota: correcção da ortografia de gajaja em 05/06/2013 – fonte blog Angola – Debates e Ideias, de Gociante Patissa)


22  05 2010

O carro do tio de Luanda

Luanda, durante muitos anos, foi refúgio de guerra mais ou menos voluntário para os angolanos. Uns fugiram para a capital, outros foram para lá empurrados, juntando milhões de refugiados a algumas centenas de milhar de habitantes originais. A cidade foi crescendo em círculos concêntricos, com as casas a apertarem-se cada vez mais umas nas outras à medida que se aproximam das avenidas asfaltadas.

A guerra acabou há quase uma década, mas as pessoas não deixaram de vir para Luanda. A reconstrução do país não é instantânea e entre ficar numa terra desolada na província ou aproveitar a circulação mais facilitada pelas estradas sem patrulhas militares e partir para a cidade grande, a escolha é óbvia. Por muito mal que se viva em Luanda, é melhor que no interior, com minas e abandono, pensam as gentes.

O fascínio que Luanda exerce nos angolanos, apesar de todos saberem que é desumana, suja e corrupta, é tão forte que a trocam por tudo. Luanda é sinónimo de dinheiro e oportunidades para todas as classes sociais.

Há tempos ouvi a história de Evandro, um jovem desempregado que morava nas terras do sul, no município de ‘Njiva. A sua aldeia era das mais pequenas da região e não podia crescer mais, pois as últimas casas estavam no limite da chana que todos os Verões se alaga durante umas semanas. Numa terra sem oportunidades, nem sequer para construir uma casa, esperava apenas um motivo para partir.

Tinha um tio em Luanda que há vários anos não dava sinais de vida, de tal forma que o tomavam como morto. Certo dia souberam que estavam enganados e que o tio tinha estado vivo até à semana anterior, altura em que foi atropelado por um candongueiro na estrada de Viana.

Nem tudo eram más notícias, porque tinha deixado uma herança substancial – um carro e um negócio de entregas. Evandro, apesar de não ser o herdeiro mais directo, foi o que se mostrou mais entusiasmado e resolveu partir para tomar conta do negócio e, acima de tudo, do carro, que até lhe fazia brilhar os olhos. O pai aconselhou-o a que vendesse tudo e regressasse, mas o fascínio de Luanda foi mais forte. O tio tinha ido para a cidade e a vida correu-lhe tão bem que até já tinha um carro. Ele, mais novo, havia de conseguir ser ainda mais bem-sucedido.

Jantes com cifrões
O carro do tio

Partiu para Luanda, gastando todas as economias da família em passagens de autocarro e táxis. Na altura, as estradas estavam em tão mau estado que demorou mais de uma semana a cruzar o Kwanza e entrar na cidade pela curva do Morro dos Veados, de olhos esbugalhados. Seguindo as indicações pouco precisas dadas na descrição da herança, acabou por encontrar a rua certa, no bairro da Terra Nova, encostada à linha de comboio.

De pergunta em pergunta encontrou a casa do tio. Não era a casa luxuosa que tinha imaginado, nem tão grande. Na verdade, era mais pequena que a da aldeia. Pedras grandes seguravam um telhado de chapa com muitos furos e as paredes de blocos velhos começavam a entortar. A notícia da morte do tio tinha resultado num verdadeiro saque da casa das coisas mais pequenas no tempo que o Evandro demorou a chegar. Dormiu na cama sem colchão, com um lençol emprestado pela vizinha. No dia seguinte trataria de ver o carro que lhe enchia os sonhos. Já se imaginava a conduzir o bólide vermelho com uma risca preta na porta e umas rodas bonitas.

Acordou e perguntou pelo carro do tio. Apontaram-lhe para umas tábuas pregadas com uma roda na ponta. Julgou que estavam a gozar com ele. O tio estava em Luanda há muitos anos e já era rico. Queria ver o carro. Era aquilo, diziam-lhe, de madeira e com uma roda só. Não era vermelho, nem tinha portas para ter riscas. Era só o carro de mão com que o tio ganhava a vida a entregar cimento do armazém do libanês.

Carros de mão
O carro do tio

Desesperado com a sua sorte e não sendo capaz de enfrentar a família ao regressar de Luanda de mãos a abanar depois de tanto investimento, pegou no carro do tio e continuou o seu negócio de carregador. Percebia agora que tinha sido a vergonha de ter sido iludido por Luanda que fez o tio deixar de dar notícias. Seria também por isso que ele não as daria.


21  05 2010

Contagem decrescente

É um sentimento estranho, este de saber que os dias em Angola se aproximam do fim e aperceber-me que afinal já são dois anos que passo em terra alheia. Em retrospectiva, não são a enormidade que pareciam antes da partida, mas talvez essa noção seja distorcida pela antecipação de voltar a casa. As saudades são mais que muitas e há projectos para pegar onde foram deixados e outros a declarar irremediavelmente perdidos.

Aos poucos, os muitos meses longe de casa tornaram-se semanas e agora, até mesmo essas, têm de ser contadas em dias para que o número não pareça ridículo. E depois há que retomar as amizades deixadas em suspenso ou mantidas no limbo dos e-mails e telefonemas necessariamente curtos. Há que retomar os ritmos da terra que me viu nascer, muito diferentes desta que me fez crescer.

Sagrada Família

Luanda

Angola não se explica, sente-se e é talvez por isso que não se consegue traçar fronteiras claras entre o que amamos e detestamos nela. Todas as arrelias e dificuldades foram compensadas largamente pelos amigos que fiz e que procurarei quando cá voltar ou que receberei com gosto na altura em que visitarem Portugal.

Quedas de Calandula

Quedas de Calandula

Como fruto inesperado desta aventura, surgiu um livro que só poderá ser dado como concluído no dia da partida. Não porque se acabe o assunto, mas porque se tem de lhe impôr limites, neste caso temporais. As revisões e ajustes finais serão uma boa maneira de me despedir da terra onde vivi nos últimos dois anos, recordando os episódios que presenciei e o bocadinho do país que conheci.


20  05 2010

Arroz e sabão

Contou-me a minha Mãe negra que a vida na Gabela nem sempre foi assim. Houve alturas melhores e outras piores, cada uma com as suas histórias para contar.

Falou-me da velha linha de caminho-de-ferro por onde se escoava o café da região. Foi desactivada e desapareceu com o fim dos cafeeiros, arrancados por quem fugia da guerra e precisava de comer. Os pés de café deram lugar a lavras pouco produtivas por falta de Sol. Na Gabela o café cresce no meio das árvores altas, abrigado da luz directa.

Depois falou-me da altura em que resolveu abandonar a Gabela e partir para Porto Amboím, a propósito do sabonete que mandou o neto comprar, relembrando os tempos do partido único, com o cartão de abastecimento a ter de ser usado para comprar o pouco que chegava às lojas. Lembrava-se em especial do dia em que quis ir comprar óleo, farinha e peixe seco para um óbito. Na loja disseram-lhe que não podia levar nada disso. Ela reclamou que o cartão ainda dava. O lojista confirmou ‘’O cartão dá, mas este mês só tenho arroz e sabão!’’.

Zungando bolachas e iogurtes
Agora não há cartão de abastecimento

Diz que talvez tenha ajudado um pouco à decisão quando a UNITA chegou à cidade e montou uma delegação pertinho de casa. Os filhos mais velhos, na altura soldados nas FAPLA deixaram de poder ir a casa e ela estava a ficar cheia de saudades.


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