25
03
2010
As moedas deixaram de circular há muito nos bolsos angolanos. A inflacção desvalorizava-as tão depressa que, muito antes de estarem gastas, se tornavam inúteis. De vez em quando lá se encontra uma caída no chão. Se as notas mais pequenas são olhadas de lado, estes cinco ou vinte kwanzas mais pesados ninguém quer.
Com a estabilização dos preços, o Governo angolano anunciou a reintrodução de moedas metálicas para breve, porque os poucos meses que duram as notas mais usadas são um verdadeiro desperdício.
Onde se gastam as moedas
Apesar de tudo, descobri que há moedas a circular em Angola. Vivem disfarçadas e só conversando com os angolanos somos capazes de as descobrir.
Como os hábitos morrem devagar e as moedas simbolizam trocos, os angolanos resolveram o problema instituindo as moedas de papel. Por cá, mesmo sem os discos metálicos a circular, há dinheiro e trocos. As notas grandes são notas e as de 200 kz para baixo são as moedas.
24
03
2010
Ocupando um quarteirão inteiro de uma zona nobre da cidade, o edifício do Instituto Geográfico e Cadastral de Angola tem a dignidade que compete à entidade responsável pela geodesia e cartografia de um país tão grande.
O edifício cor-de-rosa de dois andares passa despercebido ao lado do comando da polícia nacional, pintado de azul vivo. À entrada, num corredor largo que serve de recepção e liga a um pátio central em volta do qual se desenvolve tudo, há dois grandes mosaicos que marcam a época colonial. De um lado, a alusão à implantação do Padrão de Santo António do Congo. e do outro, um mapa com algumas das grandes viagens dos navegadores portugueses de antanho.
Grandes viagens marítimas dos portugueses
Para além das responsabilidades legais, esta instituição representa também muito saber técnico acumulado, fruto do trabalho de muitos heróis esquecidos. Alguns dos seus funcionários ainda são desse tempo. Perdeu parte da sua importância durante a guerra civil, com a falta de investimento público num organismo que, aparentemente, não contribuia para a guerra. Mas, como não se fazem guerras sem mapas, o seu trabalho passou a ser executado por técnicos soviéticos, que actualizaram a antiga cartografia colonial na década de 1980.
Descoberta de Angola
Aqui estão depositados largos milhares de registos que descrevem a evolução de Angola ao longo do último século ou mais. Cadernetas de observações, fotografias aéreas, algumas ainda em chapas de vidro, descrições de vértices e aparelhos muito usados fazem parte do seu espólio histórico. São dados e peças sem valor algum, mas, ao mesmo tempo, de valor incalculável.
23
03
2010
Embora o discurso oficial garanta que a reconciliação nacional vai de vento em popa, os actos públicos revelam contradições. No Cuito Cuanavale está prestes a ser inaugurado um verdadeiro monumento à desunião nacional, homenageando os vencedores da batalha de 23 de Março de 1988, entre as forças do MPLA e as da UNITA.
As estátuas do monumento, segundo o Jornal de Angola «a maior dádiva do governo ao povo daquela cidade», não representam os soldados angolanos, representam apenas os do MPLA. Um bravo soldado das FAPLA ladeado pelo não menos valoroso soldado cubano comemoram uma vitória contra a UNITA e os seus aliados Sul-Africanos que, no discurso oficial, são sempre referidos como o exército do regime racista do apartheid.
Tal como o monumento de Kifangondo, que comemora a vitória do MPLA sobre a FNLA, este comemora a vitória sobre a UNITA. Um e outro tentam confundir a vitória do partido com a vitória de Angola, reescrevendo a História ao sabor da ideologia oficial.

Herói do MPLA
Numa altura em que as feridas da guerra deviam estar saradas e todos os angolanos a sentir-se cada vez mais parte de uma nação, o governo relembra-os de que quem não está com o MPLA não é angolano.
A Batalha do Cuito Cuanavale foi o ponto de viragem da política dos dois grandes blocos que durante anos travavam a Guerra Fria com sangue alheio na África Austral, tentando ampliar as suas esferas de influência. Graças ao seu desfecho incerto, em que todos os lados reclamam vitória política ou militar, foram encetadas negociações que determinaram a retirada de forças cubanas e sul-africanas de Angola e a independência da Namíbia, embora sob a esfera de influência da África do Sul. A guerra angolana, até então nas mãos de outros, passou a ser apenas nacional, não que sirva de grande consolação ter uma guerra civil independente.
Um monumento a esta batalha justifica-se pela importância que teve nas Histórias mundial e angolana, mas devia ser um monumento aos angolanos todos, não apenas a uma parte.
22
03
2010
Um dos fenómenos mais intrigantes do trânsito de Luanda são as motinhas que circulam por todos os buracos e sentidos. É frequente ver os sinaleiros desviarem-se de motas que seguem pela rua em que acabaram de mandar parar o trânsito. Poderia parecer uma situação extraordinária, mas tanto para o polícia como para o motociclista apenas foi mais um momento de normalidade. A impunidade com que desrespeitam as mais elementares regras de trânsito e autoridades só deixa os estrangeiros estupefactos.
Uma regra empírica diz que o tamanho da mota é proporcional à consciência do condutor. Os condutores dos ciclomotores são a prova. As pequenas aceleras, já de si irritantes com os seus motores estridentes conduzidas aos arranques e de dedo na buzina, são o veículo preferido dos condutores mais inconscientes, aqueles que circulam só na roda de trás nos passeios, a alta velocidade em contramão, ou que se atiram pelo meio dos carros sem medir as distâncias. Aliás, graças a este sentido de invulnerabilidade já ganharam um nome apropriado.
Outro perigo
Característica distintiva destes condutores é o seu aparente desconhecimento do destino ou percurso, embora um fraco sentido de orientação seja um dos requisitos para poder conduzir a acelera, tal como a incapacidade de cumprir regras de trânsito, um polegar sobredesenvolvido para aplicar no botão da buzina e um tique nervoso no punho direito para andar sempre a dar aceleradelas. Nos outros veículos de duas rodas não é um fenómeno tão evidente, mas não consigo explicar porque razão percorrem uma avenida inteira para, quase no final, fazer inversão de marcha pelo meio dos carros e voltar para trás, como quem se lembrou que afinal deixou a carteira em casa.
Não deverá ser para fugir ao trânsito nem para tomar um atalho, porque trânsito nunca apanham e atalhos tomam-se nos cruzamentos. Talvez se percam pelo caminho, embalados pelas buzinadelas ritmadas e só dêem por isso muito depois de passarem o destino. Até que se consiga explicar isto, estamos sujeitos a dar de cara com uma motinha atravessada na estrada porque foi ali precisamente que o condutor se lembrou que para o outro lado é que era bom. Já não bastavam as m’baias dos candongueiros.
21
03
2010
Nada como um bom Verão tropical para apreciar condignamente as bonitas tabelas coloridas que falam da adaptação do corpo humano às condições climatéricas, porque os termómetros, isoladamente, não são os melhores indicadores do conforto térmico e é necessário juntar medidas de humidade do ar e velocidade do vento para ter uma noção mais precisa da nossa percepção da temperatura.
Em tempo frio, o principal factor a considerar é a velocidade do vento. Quanto mais elevada for, mais depressa arrefecerá a pequena camada de ar quente que nos rodeia o corpo, fazendo a temperatura aparente ser bastante mais baixa do que a real. Os montanhistas, por exemplo, sabem que é muito mais útil calcular a temperatura equivalente levando em conta o enregelamento causado pelo vento para melhor avaliarem as condições que enfrentam.
Em tempo quente, a humidade relativa do ar influencia directamente a velocidade de evaporação do suor, o principal mecanismo de redução de temperatura de que dispomos. Quanto mais elevada for a humidade relativa do ar, menos eficiente é a transpiração como forma de arrefecer o corpo. A sensação de temperatura é distorcida e parece ser mais elevada que a real. O corpo transpira cada vez mais mas sem grandes resultados, conduzindo à perda exagerada de líquidos e sais. Para agravar as coisas, a elevada humidade atrasa o aparecimento da sede que já por si é um indicador tardio da desidratação.

Calor paralisante
Por aqui, com o final do Verão a aproximar-se, a temperatura subiu para os 30º. A humidade da estação das chuvas manteve-se elevada, quase sempre acima dos 90%. É o suficiente para ter dias muito desconfortáveis, sempre a escorrer suor e a pensar em trocar de roupa. Para combater a desidratação passei a beber mais uma garrafa de água por dia e acabei por preparar uma solução de rehidratação caseira para repor os sais minerais.
Nestas últimas horas do dia suei tanto que fiquei com as pontas dos dedos enrugadas, como se tivesse ficado no banho demasiado tempo. Ao consultar a tabela das temperaturas aparentes para as condições de hoje encontrei a explicação. 31º com 95% de humidade equivalem a 42º em tempo seco.
Como não há justiça neste mundo, telefono para casa e dizem-me que estão a apreciar o quentinho da lareira.
Hoje é o Equinócio e pareceu-me ser o dia mais apropriado para falar do tempo.