Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

20  03 2010

Salmão com molho Soubine

Com o calor dos últimos meses a diminuir o apetite, não tenho tido grande paciência para grandes aventuras na cozinha. Coisas rápidas e sem grande imaginação têm preenchido os jantares em que não me fico só pela sopa, mas a necessidade de variedade fez-me procurar alguma coisa de diferente.

Há semanas que tento fazer um caril de frango, mas a cadeia de abastecimento angolana trocou-me as voltas. Quando havia frango congelado e caril não havia leite de côco. Agora há leite de côco e tenho o caril, mas frangos só assados.

Como quem não tem cão caça com gato, quem não tem frango cozinha com salmão. O salmão encontrei-o sem aspecto de ter sido muitas vezes descongelado e a um preço uns patamares abaixo de obsceno, apesar de caríssimo, como quase tudo. Uma posta de peixe ficou pelo preço de uma refeição inteira.

Molho Soubine
Alourando a cebola

O caril continua adiado, porque não me parece que o salmão seja adequado. Optei por cozer o peixe e fazer um molho Soubine para acompanhar. O molho Soubine é um vulgaríssimo Béchamel com cebola alourada para lhe dar alguma textura. Margarina, farinha, leite e pimenta moída e a cebola no final. O salmão e as batatas cozidos com um pouco de sal apenas.

Salmão com molho Soubine
Nota negativa na apresentação

A aventura culinária não serviu apenas para contentar as papilas gustativas. Aprendi coisas que só a experiência ensina como, por exemplo, nos dias de muito calor em que cozinhamos com pimenta, é aconselhável lavar muito bem as mãos antes de limpar o suor da testa ou estamos sujeitos a surpresas desagradáveis. O ardor na testa explica o aspecto desleixado com que deixei o peixe, as batatas e o molho no prato antes de correr para a casa de banho e lavar a cara.


19  03 2010

Quedas de Calandula

Pouco conhecidas e menos visitadas, as Quedas de Calandula são as segundas maiores de África, perdendo o primeiro lugar para as Quedas Vitória por uma mão-cheia de metros.

No tempo colonial chamavam-se Duque de Bragança, em homenagem à dinastia que governava Portugal à data da sua descoberta pelos europeus. Após a independência angolana, tanto as quedas como a povoação mais próxima mudaram de nome para Calandula.

Letreiro esburacado
Duque de Kalandula

Chega-se lá a partir da estrada de Malange, tomando o caminho para Calandula na povoação de Lombe. Cerca de cinquenta quilómetros depois, percorridos numa estrada quase toda reabilitada, as quedas surgem no horizonte, quebrando o verde das matas que tinha vindo a encher a paisagem desde há uns minutos. Antes disso, uma savana com muito capim e algumas árvores emprestavam um ar de deserto verde ao mundo.

Quedas de Calandula
O salto

A estrada para Calandula sofreu uma correcção de traçado mesmo à entrada da povoação, descrevendo agora uma curva larga em torno da avenida com árvores perfiladas que marcava a chegada a Duque de Bragança.

Chegada a Calandula
Avenida antiga

À saída da povoação toma-se o desvio para o miradouro. São cinco quilómetros de estrada nova, com bermas e sinalização a fazer inveja a muita rua da capital. Com os acessos reabilitados há cada vez mais gente a visitar as quedas e, se não se chegar cedo, pode ser difícil encontrar lugar para estacionar.

Marcas do passado
Memórias

A fama das quedas vem de longe. Nos arenitos de cor férrea por onde vai escorrendo o Rio Lucala antes de saltar para o abismo muita gente deixou a sua marca, quase garantindo a imortalidade. Gerações passadas faziam-no raspando nomes e datas na pedra, hoje em dia fazem-no com tinta, manchando a paisagem. Com o cada vez maior número de chineses a trabalhar em Angola não é de admirar que se encontrem também muitos ideogramas gravados nas rochas.

Quedas de Calandula
Quedas de água

Não há fotografias ou descrições que façam jus às quedas. Por muito que se queira, a grandiosidade do sítio não cabe nas lentes das câmaras ou nas palavras. O Rio Lucala corre devagar por entre as pedras já arredondadas pelos muitos séculos de erosão e deixa-se cair, em silêncio, para o fundo do vale.

Calandula5
Rio Lucala

As descrições que se fazem das Quedas Vitória insistem no constante ribombar da água, mas aqui o silêncio talvez seja o mais marcante. Ficamos com a sensação de que as quedas são tão grandes que já nem o som nos chega.

Ruínas da Pousada
Pousada das Quedas Duque de Bragança

Do outro lado do vale estão as ruínas da Pousada a contemplar as quedas. São marcas de outros tempos.


18  03 2010

O negócio da morte

Os negócios em Luanda desenvolvem-se em pólos onde a experiência dos artesãos e a existência de matérias-primas em quantidade e qualidade suficientes se aliam para criar verdadeiras corporações. Certas actividades concentram-se em determinados bairros, com ofícios repetidos porta-sim, porta-sim. As agências funerárias e as marcenarias são dois bons exemplos.

Apesar da clientela garantida pela ordem natural das coisas, as agências funerárias não dispensam a publicidade, embora os anúncios nas fachadas sejam um pouco menos coloridos que os das outras lojas, condizendo com o ar reservado que os cangalheiros devem apresentar. Descobri, no entanto, que os funerais na capital são mais complexos do que parecem.

Agência funerária
Agência funerária

Os óbitos africanos são diferentes dos europeus. Segundo me explicaram, apesar da tristeza de se ver um ente querido partir, é também um momento de celebração, porque as amarguras da vida terminaram.

Um óbito sai muito caro à família do falecido. Para além das despesas do funeral, há que providenciar comida, bebida e dormida para familiares e amigos ao longo de vários dias. Quem não der do bom e do melhor aos convidados está a desonrar o morto.

Agência funerária
Agência funerária

Aliando a necessidade de honrar o morto à de poupar dinheiro para a comida e a bebida, as agências funerárias começaram a alugar catafalcos e decorações para os velórios, que se continuam a fazer em casa. É mais uma vertente do negócio.


17  03 2010

O caos da chuva

O clima de savana que caracteriza Luanda deixa as pessoas mal preparadas para os poucos dias em que realmente chove. Durante um ano inteiro as linhas de água e as valas de drenagem foram acumulando lixo e terra que vão servir de represa às primeiras chuvas. Os carros de limpeza de fossas completam o trabalho despejando as lamas no primeiro colector que encontram. Sem água para as dissolver acabam com solidificar e entupir definitivamente os esgotos

As chuvas de Verão em Luanda duram pouco tempo mas enchem as ruas de lama e lixo e inundam as casas nas zonas mais baixas. Se chove mais que umas horas seguidas, é quase certo que haverá mortos. São pessoas arrastadas pelas enxurradas que rebentam as represas de lixo, são casas construídas em leitos de cheia que desaparecem sem deixar rasto. A cidade fica virada do avesso.

Buraco
Rua abatida

Até que as ruas da periferia deixem de ser lamaçais profundos, o centro da cidade fica calmo. É difícil vir trabalhar sem transportes. Os autocarros não saem dos parques e os candongueiros não arriscam certos trajectos demasiado lamacentos. Da Maianga até à Marginal, todas as ruas ficam cobertas de pedras e lama que escorre das partes altas da cidade e escondem as caixas de visita que perderam as tampas.

A Rua da Administração da Maianga, que esteve fechada para obras durante quase meio ano não resistiu à primeira chuva. Três horas de precipitação e o asfalto novo cedeu. Nem os novos esgotos serviram de remédio porque estão ligados ao sistema antigo, demasiado entupido para poder escoar toda a água. Um camião do lixo quase foi engolido num dos buracos que se abriu debaixo dos rodados e só depois de ser içado e empurrado por duas máquinas voltou à estrada.


16  03 2010

A terra dos preços delirantes

Entre muitas coisas às quais nunca nos conseguimos habituar em Angola, a aparente loucura que rege os preços deverá ser a mais importante. Por vezes acreditamos que apenas o delírio é capaz de explicar a cara de absoluta normalidade com que nos pedem resgates principescos pelas coisas mais banais. Para além disso há também os preços de branco, que reflectem o imposto de turismo oficioso que os estrangeiros têm de pagar em todas as transacções.

Em Benguela fiquei alojado numa pensão modesta, cuja diária rivalizava com um bom hotel em qualquer outra parte do mundo. Na altura achei que seria impossível encontrar maior disparidade entre o serviço oferecido e o preço cobrado. Esqueci-me de que estou em Angola e tudo é possível.

Hotel Miradouro
Bom aspecto

Quase um ano depois, em N’Dalatando, o topo da escala dos preços absurdos voltou a subir. Um modestíssimo quarto duplo que deixaria envergonhada muita pensão de baixa categoria, sem casa de banho ou janela, custa a módica quantia de 250 dólares. Pelo mesmo preço dormi num hotel de quatro estrelas à vista da Torre Eiffel, com apenas o Sena de permeio. Os cem dólares por noite no hotel do Huambo começam a parecer pouco.

Gasolina
Fora do hotel

O preço das refeições nos restaurantes rege-se pela mesma tabela inflaccionada mas, como contraponto a estes preços exorbitantes, à porta do hotel milionário do Kwanza Norte comem-se espetadas de carne assada na brasa a 100 kz. O litro de gasolina na bomba do outro lado da rua custa 40 kz e, mais para o interior, desce para 34.


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