Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

10  07 2009

Apetecem-me cerejas

Uma das principais dificuldades que se enfrenta em Luanda é saber onde se pode comprar determinado produto ou serviço. As lojas, geralmente, não têm o que precisamos e os poucos técnicos que se encontram são, no melhor dos casos, meros curiosos. Isto não impede que as coisas se façam, porque, se as lojas não têm, concerteza haverá no mercado paralelo.

O mercado informal é capaz de suprir todas as necessidades da capital. Depressa se descobre que, com a notável excepção daquilo que procuramos, se pode encontrar absolutamente tudo, mesmo que absurdo, na cidade. Peixinhos dourados, roupeiros, uvas sul-africanas, balanças de casa-de-banho ou gravatas são visões frequentes nas ruas. Desconfio que os desejos das grávidas sejam mais fáceis de satisfazer em Luanda que numa qualquer capital europeia.

Peças para automóvel
Na retunda 

A grande questão não é saber que se pode comprar. O que distingue o profissional do amador, digamos, é saber onde comprar. No meio do aparente caos na distribuição do produtos e serviços, há um conjunto de regras implícitas que permitem facilitar a demanda do cliente. Assim, depois de sabermos o que precisamos, basta-nos ir ao bairro apropriado e procurar a pessoa certa.

Venda de acessórios
Na falta de subsalentes

Lonas e capas para estofos de automóveis encontram-se entre a Sagrada Família, a Katyavala e o Kinaxixi. Quem tem problemas de esgotos, vai até ao Eixo Viário e procura os rapazes com as varetas de aço que se especializam em desentupimentos. Certidões ou documentos falsos para o carro arranjam-se ali para os lados do Palanca. Ananases de Benguela compram-se a caminho do Futungo, numa carrinha branca. Componentes electrónicos e cerejas, ainda não descobri, mas não perdi a esperança.


07 2009

Insistindo no erro

A situação descrita no artigo do plágio assumiu contornos mais rebuscados.

A solução encontrada pelo Sr. Fernando Pereira, insigne jornalista do Novo Jornal, resume-se a ir recortando cada vez mais a mesma imagem. Há-de chegar ao ponto em que deixa de ilustrar o artigo…

Novo recorte

Se para aí estiverem virados, deixem um comentário no artigo deste senhor. Não lhe dou a honra de uma ligação de volta para o blog, mas julgo que não deve ser muito difícil procurar um blog chamado Recordações da Casa Amarela.


07 2009

Tiro no pé

Um velho ditado, que muita gente se esquece é o de que um bom nome leva anos a criar, mas pode-se destruir num instante. As aventuras financeiras angolanas são um excelente exemplo disso mesmo.

Desde que o petróleo voltou a preços normais que a crise afectou Angola de uma forma não antecipada pelos seus governantes. Ou então, os seus discursos orgulhosamente optimistas conseguiram-no esconder muito bem.

Na mudança de estação, depois de três meses sem o petróleo a valer rios de dinheiro, o Banco de Angola publicou uma série de notas instrutórias em que detalhava as regras para a exportação de divisas e aumentava os limites mínimos de solvabilidade dos bancos privados. Houve uma dança cambial durante duas semanas, com contornos pouco claros, que fez «desaparecer» reservas equivalentes a uns 2% do PIB brasileiro.

A principal repercussão destas novas regras, foi a recuperação de leis do tempo do Partido Único, limitando muito as quantias que se podem enviar para o estrangeiro. Todas as operações acima de determinado montante têm de ser aprovadas pelo banco central e os bancos não têm liquidez suficiente para as realizar atempadamente, uma vez que têm, eles mesmos, limites globais para as operações.

Algumas destas regras estavam já previstas na lei, mas a abundância que o petróleo caro trouxe e a inércia da burocracia envolvida provocaram uma aprovação tácita de quase todas as transferências. Não era preciso restringir remessas de divisas porque se fazia dinheiro mais depressa do que ele conseguia sair. A situação inverteu-se e, em meados de Abril, reestabeleceram-se os controlos.

Todo o estrangeiro que trabalha em Angola e quer enviar dinheiro para o país de origem atravessa agora um mar de dificuldades, porque tem de entregar justificações (que nunca são as mesmas), tem de esperar semanas pela execução da operação e, provavelmente, tem de ir ao banco saber o que se passa, perdendo um ou mais dias de trabalho.

Angola, nos últimos anos, tem tentado disfarçar a falta de seriedade com que leva estes assuntos financeiros, com o objectivo de limpar o nome e de deixar de ser considerado um dos países maus pagadores. Não tem tido grande sucesso, uma vez que nem os seus vizinhos lhe vendem um parafuso que seja sem pagamento adiantado.

As restrições às remessas para o exterior ou o controlo cambial, como lhe chamam, mostram que o seu sistema financeiro é gerido de forma quase amadora, não acautelando situações como a antecipada quebra do preço da sua principal fonte de receitas. Mas, de qualquer das formas, não se pode dizer que não estejam a tentar. E isso já poderia contribuir para melhorar um pouco a imagem, mesmo que seja à custa da retenção de salários dos trabalhadores estrangeiros ou limitando a importação de bens necessários (que são todos) porque não se pode pagar ao fornecedor (e ele não envia nada sem ver a cor do dinheiro).

Como dizia, o bom nome leva muito tempo a criar-se, mas dar cabo dele é um instantinho. Neste caso, temos o banco que impõe as restrições a desmentir que as haja, mas logo a seguir acrescenta que, afinal, talvez seja mais difícil.

O Porto de Luanda ainda não está vazio, porque tem muitos navios em lista de espera, mas se a situação continuar, daqui a umas semanas ninguém reconhecerá aquela baía vazia.


07 2009

A obra perpétua

À medida que vamos conhecendo os recantos e vielas da cidade, descobrimos que tudo existe numa espécie de mutabilidade estática, onde o que parece terminado ainda está por fazer e o provisório é definitivo.

A um dado momento, qualquer sítio está em obras. Não quer dizer que as obras não avancem, porque até vamos vendo evolução, mas, assim que são dadas como terminadas, alguém se lembra que ainda não está perfeito e nova empreitada é adjudicada.

Por vezes, o único defeito da obra parece ser o empreiteiro a quem foi adjudicada, porque, apesar de ficar com bom aspecto, é tudo demolido e em uma empresa diferente refazer. Garantida, julgo que esteja uma choruda gasosa a cada intervenção.

Na Avenida Revolução de Outubro, que liga o aeroporto ao centro da cidade e comemora uma data histórica que nada deve dizer aos angolanos, um pouco antes do túnel que desagua na vista sobre o Catambor, há um separador entre os dois sentidos. Antes das eleições começava por ser um pequeno lancil cinzento que se tornava um duplo traço contínuo a caminho do viaduto.

Nesta mesma zona há um mercado informal de cada lado da avenida. Zungueiras e quitandeiras andam em azáfama constante, mudando de pouso, indo buscar mercadorias, negociando. Por ser uma zona comercial, é destino certo de centenas de candongueiros que param em segunda, terceira ou quarta fila para carregarem novos passageiros.

Para evitar esta confusão, com constantes atropelamentos e candongueiros em mão contrária, alguém, muito acertadamente, resolveu construir um separador central decente. As máquinas vieram, os homens também. Durante umas semanas o trânsito foi um pouco mais caótico que o costume, mas o separador lá nasceu, de blocos jersey e grades metálicas pintados de branco e vermelho. Surgiu também um semáforo que, aos poucos, começou a ser respeitado por automobilistas e peões.

O separador tinha a altura exacta para que as zungueiras o conseguissem saltar com a carga à cabeça, passando uma perna de cada vez por cima dele, mas dava mais trabalho do que ir até à passadeira e o número de peões a cirandar pelo meio do trânsito diminuiu ao longo dos meses.

A avenida bem precisava de um separador igual até à Maianga, mas a obra recomeçou exactamente neste troço. A decisão, desta vez, foi de colocar um lancil amarelo canário onde estavam os blocos vermelhos. Mais umas semanas de obras, com engarrafamentos piores que o costume, foram suficientes para a troca. Agora, sem esforço nenhum, temos outra vez peões e motorizadas a atravessar por tudo quanto é sítio. Os meses de educação forçada foram por água abaixo. Melhor ainda é que os locais para as passagens de peões não batem certo com os semáforos instalados na primeira obra. Já estou a imaginar qual vai ser a próxima empreitada.

Um pouco mais à frente, junto do Jacaré, uma empresa ganhou a empreitada de reabilitar passeios do Prenda, mas parece que não interpretaram bem o caderno de encargos. Traduziram reabilitar por partir os que já existem e estão em bom estado e fazer uns exactamente iguais, no mesmo sítio. As ruas que não têm passeios não precisam de reabilitação, está claro.

Blocos de betão dos passeios demolidos
O que resta dos passeios antigos

Não deve ser só a mim que choca este desperdício de mão-de-obra, máquinas, materiais, tempo e dinheiro (o tal que está escasso nos cofres do Estado). O homem sonha, a obra nasce, a gasosa aparece.


07 2009

Quando se emenda o plágio com… plágio

Por várias ocasiões, imagens e até mesmo artigos inteiros do Aerograma foram publicados noutros blogs. Às vezes foi-me pedida autorização prévia para o fazer, outras vezes não. Mas mesmo nestes casos, a sua maioria indicou a origem do material usado e teve a cortesia de incluir uma ligação de volta. Há quem diga que este gesto distingue quem bebeu chá em pequenino.

Bem sei que há muita gente que acha que «se está na net, é de todos», mas os direitos de autor existem e devem ser respeitados. Devido ao uso abusivo de uma das minhas imagens, passei a incluir em todas uma discreta legenda indicando os direitos de autor. Sempre ficaria descansado se, por lapso, não fosse referida a origem da mesma. Por outro lado, com duas notáveis excepções, devidamente assinaladas, todas as fotografias do Aerograma são de minha autoria. Faço disso um ponto de honra.

Nos últimos meses publiquei alguns artigos dedicados à confusão toponímica de Luanda e não estranhei quando, pouco tempo depois, outros pegaram no mesmo tema. Na verdade, até senti uma pontinha de orgulho que, escusam dizer, é pecado mortal.

Inocentemente, acreditei que a legenda em cada fotografia lembraria que a imagem é fruto do meu trabalho. O Aerograma não tem fins comerciais e nem sequer tem publicidade que ajude a pagar as despesas de manutenção do domínio ou alojamento, mas isso não quer dizer que os seus conteúdos possam ser usados como bem se entenda.

Só que o uso abusivo das imagens não se ficou pela simples cópia, já chegou ao extremo de ver fotografias minhas cortadas de modo a excluir a legenda. Usar sem permissão não é bonito, mas retirar o nome do autor é roubo.

Deixo-vos um pequeno exercício para descobrir as diferenças entre imagens publicadas aqui e noutro lugar.


Original: Publicada a 3 de Janeiro de 2009

Recordaçõesdacasaamarela2
Cópia: Até o nome do ficheiro é o mesmo

Quem julga que é caso isolado, está enganado. No mesmo blog, umas semanas depois, o mesmo tornou a suceder. Na altura deixei passar porque poderia ser uma das imagens que não tinha sido publicada com a legenda (situação já corrigida para as mais de mil imagens do Aerograma), mas à segunda senti-me ofendido.

O curioso é que associa as minhas imagens a um semanário, quase como se fossem parte integrante do mesmo. Começo a pensar se não terão já ido parar aos jornais, como aconteceu com pedaços de outros blogs.


Publicado a 6 de Junho de 2009

Será que, tirando a minha, não há máquinas fotográficas em Luanda apontadas aos sítios certos.

Recordaçõesdacasaamarela
O Aerograma faz parte dos seguidores, mas isso não impede que se lhe roubem imagens

Esconder o autor para disfarçar o plágio é feio, muito feio.

O direito ao reconhecimento não deveria ser negado de forma tão pouco educada. Julgo que não esteja a fazer nenhuma exigência impossível, o respeito pela obra alheia faz parte do bom senso. E do código deontológico dos jornalistas, acrescente-se.

Contactei o autor dos artigos no dia 26 de Junho de 2009, para que incluisse a origem das imagens ou colocasse as versões originais. Aceitou os meus comentários e respondeu com cortesia, mas continuou sem corrigir a situação. Alguns dias depois insisti para saber quando tencionaria corrigir a situação, incluíndo o nome do autor ou trocando a fotografia.

comentarios
Não se pode invocar desconhecimento

Quase duas semanas depois, houve alterações. A emenda foi pior que o soneto.

Rua da Índia, no dia 6 de Julho
Será que ir cortando a imagem substitui indicar o nome do autor?

Adenda:

Dois dias depois de publicar este artigo, fui espreitar o local do crime, só para ver se tinha havido evolução. Tive uma nova surpresa…

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De corte em corte…

Será que é difícil perceber que de corte em corte a situação não se resolve? Custa-me a acreditar que este seja um exemplo do jornalista angolano médio, incapaz de respeitar sequer os direitos de autor. Custa-me ainda mais que insista no erro, em vez de assumir a falta.


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