3
01
2011
Quando, na década de 1950, se desenharam os actuais de trânsito, procurou-se que, como uma corrente arquitectónica, as regras fundamentais fossem poucas. Formas e cores separavam as famílias de sinais e o resto da mensagem podia ir sendo adaptada às necessidades. Foi um projecto ambicioso, executado por meia-dúzia de pessoas.
O projecto inglês teve tanto sucesso, que foi copiado por muitos países. E este tipo de sinais de trânsito substituíu, definitivamente, os sinais mais confusos, sem leitura imediata. Nalguns países, como os EUA, a aversão à mudança é grande e, passadas seis décadas, ainda se usam muitos dos sinais antigos, de formas regulares e mensagem apenas escrita.
Uma das regras que se definiu para estes novos sinais era a da intemporalidade. Um sinal deveria ser tão actual ao fim de dez ou vinte anos como no dia em que foi desenhado. Em certa medida, conseguiram-no, embora a liberdade inerente às poucas regras seja influenciada pela época em que o sinal foi pintado. O melhor exemplo são os sinais em que estão representados veículos. Invariavelmente, representam um veículo da época, com as formas e proporções da moda.
Trânsito proibido a automóveis Morris Minor e motociclos Norton
Quem pinta o sinal é incapaz de adivinhar o futuro e tem de se cingir ao que circula nas estradas à época. Se o sinal durar tempo suficiente, provando a qualidade da pintura, é natural que comece a apresentar um aspecto datado.
Talvez por isso, agora se opte por usar os sinais mais genéricos, sem qualquer desenho, e se remeta o resto da mensagem para painéis adicionais, afixados abaixo. É um retrocesso. Os painéis adicionais não têm a leitura imediata do sinal, que foi desenhado para isso mesmo. Textos mais extensos podem ser mal interpretados.
Para além disso, é delicioso encontrar estes sinais mais antigos, ainda pintados à mão, no meio dos novos sinais estampados.
31
12
2010
Para fechar 2010 há que fazer um balanço ao ano que passou. Por um lado, é difícil, com tantas novidades para relembrar.
Regressei de Angola a meio do ano, tendo gozado dois Verões consecutivos, um em cada hemisfério. Este final do ano marca o primeiro Inverno em quase 18 meses. É uma grande novidade.
Em companhia da Cristina visitei Paris e São Tomé. A primeira viagem para rever a cidade e namorar muito do que estava em atraso e a segunda para dar a conhecer África à minha cara-metade.
Com a chegada do Outono, após meses de preparação, o livro foi publicado. Representa muito trabalho e estou orgulhoso do resultado. Teve uma primeira apresentação bem sucedida, com muitos mais visitantes do que esperava. Continuo a receber boas críticas, que começam quase sempre com «Epá! Aquilo é mesmo assim!». Fico feliz por saber que o retrato que tracei de Angola é fiel o suficiente para que quem lá esteve reconheça as situações.
Entretanto, aqui no blog, mesmo com mais distracções que nos longos serões em Luanda, continuei a escrever artigos diários. São quase mil ao longo de dois anos e meio. E o número de visitantes continua a crescer. O Aerograma recebe agora cerca de dez mil visitas mensais. No final de Novembro foi atingido o quarto de milhão de visitas. São números demasiado difíceis de digerir para as modestas ambições do Aerograma.
Ponderarei nisto e em muitos outros assuntos quando o ano velho der lugar ao ano novo.
30
12
2010
Um minúsculo núcleo museológico industrial esconde-se à vista de todos mesmo no centro de Évora, a dois passos do famoso Templo de Diana, que o ofusca. A Central Elevatória de Águas, com o seu ar sóbrio de instalação municipal em que as coisas funcionam sozinhas e a portas fechadas, está perfeitamente camuflada. Apenas um letreiro discreto nos avisa que é visitável e perdeu grande parte das suas funções originais.
No príncípio da década de 1930, para regularizar o fornecimento de água à cidade de Évora, construíram-se vários depósitos, um dos quais elevado e sobranceiro ao Templo de Diana. A água chegava aos depósitos mais baixos por gravidade, trazida do Rio Divor pelo aqueduto que se avista da Porta de Aviz. A estação de bombagem permitia transfegar a água para o depósito elevado, de onde seguia para a rede de distribuição.
Requinte em Art Déco
Se fosse construída hoje, seria uma cave com paredes de betão armado, as bombas num canto e o quadro eléctrico noutro, mas na época, uma instalação deste tipo merecia mais. O luxo de ter água canalizada em casa tinha de condizer com a face mais visível do projecto e as bombas foram montadas num pequeno edifício de estilo moderno, com o interior revestido a mármore de três cores e, pormenor de requinte, candeeiros Art Déco em mármore translúcido.
A visita é rápida, pois a sala é única e da pequena exposição de contadores de água não interessará mais que o contador do tipo Bastos com o mecanismo à vista. Mas garanto que compensa ir ver o aspecto elegante do interior do edifício.
29
12
2010
As lojas chinesas fascinam-me, não pelos seus produtos, quase sempre imitações de qualidade duvidosa, mas pelos rótulos que, cumprindo a lei, são escritos em português. Infelizmente, também este de qualidade duvidosa.
Há tentativas bem-intencionadas, mas frustradas, de traduzir stainless steel por aço imaculada, em que até conseguimos descortinar de onde vem o erro e imaginar a dificuldade que uma tripla tradução envolve, e há também aquelas em que nos sentimos incapazes de perceber o que raio tem o cu a ver com as calças.
Necessitei de abraçadeiras de plástico para manter a ordem nos cabos atrás da secretária. A loja chinesa mais próxima pareceu-me ser uma boa escolha, atendendo a que até mesmo a abraçadeira mais frágil serviria os meus propósitos. O que nunca desconfiei foi que seria vítima de um miserável esfaqueamento por causa de uma dúzia de abraçadeiras. Felizmente que foi indolor e só me apercebi do facto quando cheguei a casa, e o médico diz que me devo safar desta.
Esfaqueamento traiçoeiro
O problema que se põe é que sou incapaz de perceber que voltas rebuscadas deu o tradutor da Lucro & Louros (nome tipicamente chinês) para chegar de cable ties ou plastic ties a um esfaqueamento.
28
12
2010
O nosso cantinho à beira-mar plantado, a saber ao sal do oceano que nos fascina como povo e que, com a sua imensidão, nos faz sentir ainda mais pequenos, é realmente pequenino, pelo menos em extensão territorial, quando comparado com outros países. Temos um país com a escala certa, que se pode percorrer de lés-a-lés num único dia, caso não queiramos apreciar a paisagem sempre variada, ou numa semana, em viagem mais pausada.
Sabemo-lo pequeno e, quando nos vemos no estrangeiro, fazemos questão de o partilhar. Habitantes de países ainda mais diminutos não o fazem, talvez pela falta do oceano como comparação, ou por acharem que fronteiras terrestres são meras convenções. O certo é que os portugueses fazem passar a imagem de que o país é mais pequeno do que realmente é e, apesar de haver um português em cada esquina por esse mundo fora, quase todos julgam que somos poucos. Os portugueses passam despercebidos. Para o bem e para o mal.
Certa vez, graças a esta imagem que os outros têm de nós, sucedeu-me um episódio curioso. Num restaurante no norte de Itália, o empregado, já velhote, meteu conversa e dizia não reconhecer a língua. Pareceu-lhe italiano à distância, mas não compreendia as palavras. Quando percebeu que éramos portugueses não deixou de dizer as duas palavras universais «Fátima» e «Figo» (na época, o Cristiano Ronaldo ainda não era conhecido). Acrescentou ainda que gostava muito de portugueses e, aliás, até tinha um excelente amigo português, o Tavares. E depois, como que esperando que alguém se acusasse como íntimo desse Tavares que priva com italianos, acrescentou, com um imenso sorriso: «De Munique!»
Foi uma desilusão. Ninguém o conhecia. Somos mais do que julgava.