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Por mais corriqueiro que seja o motivo, uma visita ao Centro de Saúde implica passar um dia inteiro numa sala de espera tão confortável como uma masmorra medieval, mas sem as chicotadas e a palha podre no chão. Há grades nas janelas, frio, humidade na parede e cadeiras de plástico muito velhas a fazer a vez de catres. Desconfioaté que o segurança na portaria faça uma ronda de vez em quando só para espreitar pelo postigo – podia atirar uns pedaços de pão velho para nos entretermos, mas isso já era pedir muito.
Como há que ver o lado positivo em todas as situações, estas visitas têm de contribuir para o nosso enriquecimento pessoal, porque há muito para aprender.
Para além de se poder cultivar uma paciência digna do Buda, buscando o Nirvana em contemplação dos horrorosos azulejos de casa-de-banho que revestem as paredes, catalogam-se sintomas, aflições e horários de autocarros pela boca das reformadas que entabulam conversas com a última dor «que me apanha isto tudo» e o número de comprimidos que tomam todos os dias. A burocracia impera e emperra todo o sistema. Marcar uma consulta de urgência só para daqui a dois meses e tem de tirar senha para lhe carimbar a receita.
Mesmo assim, no meio de tanta normalidade, aprendem-se coisas novas e insuspeitas. Abreviaturas, por exemplo. É sabido que Doutora se abrevia como Dr.ª, mas quem julgava que Doutor se abreviava da mesma maneira excluíndo simplesmente o A engana-se redondamente. Aprendi hoje, no Centro de Saúde, que se escreve Dr.º, com O. Nem mais, nem menos.
Abreviatura de Doutor
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Cumprindo a tradição natalícia do Aerograma, publico uma aventura culinária dedicada à quadra. Espero que tenha tanto sucesso como a das filhoses, que tem sido visitado mais amiúde desde que começou a cheirar a Natal.
Desta feita apresento o projecto deste ano, Arroz Doce! Mas Portugal não é suficientemente pequeno para ter apenas uma variante de Arroz Doce, e entre cada dois rios importantes, encontramos grandes diferenças na sua confecção. A variante que apresento é uma das mais usuais na zona entre os rios Douro e Mondego, nos Distritos da Guarda e Viseu.
Arroz carolino
Como todas as receitas, há que começar por algum lado e, neste caso, começamos com uma chávena e meia de arroz carolino, que é o mais indicado para este doce, uma vez que absorve mais água que o arroz do tipo agulha. Para além disso, o arroz carolino é também o mais tradicional na cozinha portuguesa. Convém ser escolhido antes de ir para a panela, porque às vezes pode vir uma pedrinha misturada.
Leite e pau de canela
Começa-se a cozer o arroz numa panela com duas chávenas de água (apenas com água suficiente para cobrir o arroz) e uma pitada de sal. A água irá evaporar muito antes de o arroz estar cozido, mas apenas se pretende que comece a abrir. Um pouco antes de se evaporar toda, juntamos dois litros de leite quente e um pau de canela. Um pedaço de casca de limão é opcional.
Açúcar
Deixa-se cozer até o arroz ficar bem desfeito, corrigindo a quantidade de leite, se necessário. Depois é só necessário juntar uma chávena de açúcar sem deixar de mexer. O arroz deixa de cozer neste momento, por isso mais vale deixar cozer um pouco mais se não se tiver a certeza de já estar no ponto.
Desenhando com canela
Deixa-se ferver mais um pouco e verte-se para uma travessa pouco funda. Espera-se que arrefeça um pouco e, com canela em pó, damos liberdade à nossa veia artística, cobrindo tudo com desenhos mais ou menos elaborados.
O barquinho
Cá em casa gostamos de motivos infantis…
Resumindo, e por ordem:
- Uma chávena e meia de arroz carolino
- Duas chávenas de água
- Uma pitada de sal
- Dois litros de leite quente
- Um pau de canela (e a casca de limão opcional)
- Uma chávena de açúcar
- Canela em pó
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Vivemos numa sociedade consumista, que mede o sucesso de cada um pelo que tem e não pelo que é. Mede-se a capacidade de obter e, portanto, o sucesso, pelo já obtido. Não quero afirmar que seja um sistema melhor ou pior que qualquer outro. Há quem seja muito feliz nele e eu próprio gosto de poder comprar o que me agrada.
No entanto, uma vez que o sucesso é medido pela quantidade de coisas ou, actualmente, pela novidade dos objectos que se possuem, é fácil entrar numa espiral de consumo que torna impossível chegar a aproveitar o que se compra. Os fabricantes estimulam este sistema, pois é o que mais lhes convém, ao lançar no mercado todos os anos os mesmos produtos com uma ligeira diferença em relação ao modelo do ano anterior, uma diferença que, de preferência, torne o novo produto incompatível com o antigo ou que o faça parecer obsoleto. Quem corre atrás do último grito de certeza que o irá comprar.
Há, no entanto, uma outra face deste sistema. Não se trata do desperdício de deitar fora objectos ainda em bom estado para os substituir por outros mais recentes com as mesmas funções. Trata-se da fruição das coisas.
Preocupados com o que se vai comprar a seguir, haverá tempo ou sequer dedicação para se conseguir apreciar verdadeiramente os objectos? Um escravo do consumo é incapaz de viver a plenitude das pequenas coisas. Pode parecer um pouco anacrónico, mas julgo que consumir, consumir, consumir não seja o nosso propósito maior. É apenas ruído de fundo que abafa o que de mais importante temos – a nossa consciência.
Talvez seja por isso que há muitos anos digo que não quero nada pelo Natal, que já tenho tudo. Na verdade, tenho para lá de tudo, porque há toneladas de ferramentas, instrumentos e livros que ainda não tive oportunidade de usar com a dedicação que merecem. Por isso, no Natal, prefiro poder apreciar o que já tenho e, especialmente, a companhia da família.
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2010
Por esta altura, todos os anos, o talho do bairro costuma oferecer calendários de parede aos clientes. É habitual terem mais do que uma versão, de forma a agradar todas as sensibilidades, porque aquele talho é frequentado não só pelas septuagenárias que compram meio peito de frango e uma isca, mas também pelos trolhas e serralheiros que encomendam febras e entremeadas aos quilos para o almoço.
O calendário com a cena pastoral, de cordeirinho nas ervas tenras e montes alpinos, rodeado de queijos e frascos de compota é oferecido à clientela feminina com mais de oitenta primaveras. Às gerações mais novas calha o que tem o bébé, ou cachorrinho, para apelar ao instinto maternal ou vontade de ver os netinhos.
Mas havia sempre um tipo de calendário reservado ao gajo da obra ou ao mecânico da praceta, que era entregue no canto do balcão com um piscar de olho. Invariavelmente, era pendurado mesmo por cima da bancada de trabalho, ao lado dos calendários dos anos anteriores, que lá ficavam até o Sol desbotar definitivamente as mamas da senhora encalorada que se espraiava sobre o rectângulo de papel a dizer «Janeiro – 1987 – Fevereiro» – não havia necessidade de mudar a página do calendário, porque servia apenas para alegrar a loja.
Este ano pude entrever um certo ar de desilusão quando o pedreiro da obra em frente recebeu o calendário e, curioso, deu uma espreitadela antes de sair. Foi surpreendido, não pela moça de fartos seios, sorriso rasgado e pouca roupa do costume, que poderia assegurar a qualidade das carnes do talho pelo ar saudável que demonstrava, mas por uma fotografia em sépia, melosa demais até para as reformadas que têm na parede da sala um retrato do Marco Paulo em ponto-cruz. Acredito piamente que, não fosse estar o talho cheio de gente, o talhante teria ouvido uma reclamação em vernáculo redobrado.
Não sei se é da crise ou do fim da tradição, mas o certo é que algo está mal quando o talho deixa de oferecer calendários de fulanas com as mamas ao léu e carneirinhos bucólicos, para agradar aos diferentes cliente, e opta por um que não agrada a nenhum… pior ainda, onde vão os mecânicos encontrar quem lhes forneça a companhia feminina do próximo ano. A deste ano começa a ficar azulada e, sinceramente, já estão fartos de a ver sempre com o mesmo sorriso. Ainda por cima, toda a gente sabe que oficina sem estes calendários «típicos» não é de confiança – é sinal que o mecânico tem pouco apêgo à casa.