Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

13  10 2010

Coincidências

Apesar de haver dias em que acreditamos sermos apenas um minúsculo grão de poeira num mundo imenso, outros há em que nos convencemos de que, afinal, está tudo muito mais próximo do que julgamos e as relações humanas entrecruzam-se de formas inesperadas.

Descobrimos também personagens que surgem amiúde nas nossas histórias, sem razão aparente. O motorista da empresa em Angola, o fenómeno descrito noutros episódios, é uma delas. De vez em quando intromete-se em histórias alheias, quase como um Deus Ex Machina de romances de cordel.

Ao deixar Angola, julguei ver-me livre das entradas, nem sempre oportunas, do fenómeno nas histórias que tento contar. Claramente, foi um excesso de confiança, uma vez que continuo a tropeçar no valente caçador de leões com fisga.

Conheci o Sr. C. quando fui ver a capa do livro ser impressa. Era o tipógrafo que operava a máquina de offset. Pediu-me desculpa por estar de trombas, mas tinha ido para Angola com três anos e viveu lá os vinte e seis seguintes. Era também um retornado e o livro que imprimia fazia-o lembrar esses tempos. Tentando aligeirar o ambiente, perguntei-lhe o que fazia em Angola. Tinha sido tipógrafo desde sempre. Começou a trabalhar com doze anos e agora, cinquenta anos depois, ainda fazia o mesmo.

Tipógrafo em Luanda? A expressão pareceu-me familiar e depressa me recordei do fenómeno, que também tinha exercido a profissão na Rua Salvador Correia, hoje Rainha Ginga.

A conversa rapidamente descabou em troca de referências, nomes e datas, para saber se alguma vez se tinham cruzado o tipógrafo que me imprimia o livro e o tipógrafo que me apresentou a verdadeira Angola. Sendo quase dez anos mais novo, é provável que se tenham cruzado, mas os mais velhos raramente davam confiança aos aprendizes e, entretanto, o Sr. C. veio para Portugal em 1975.

Voltou a Angola no princípio da década seguinte, como cooperante, mas acabou por abandonar de vez a terra que lhe faz brilhar os olhos quando o filho começou a escola.

Guerra e retornados na impressora
Última chapa – Guerra e retornados

Da última vez que conversámos, confessou que tinha lido algumas passagens do livro enquanto afinava a máquina, coisa que não costuma fazer. E depois segredou-me: «Aquilo não mudou nada. Já em 82 era assim!»


12  10 2010

Angola em fotos: Patins

Assim que a Rua Unidade e Luta, no Prenda teve asfalto novo, ao fim de quase um ano de obras, surgiram logo maneiras de o explorar. O primeiro foi um patinador solitário, que aproveitava as horas de menos trânsito para aprender a andar.

Patinador
Patinando sobre o asfalto novo

Semanas mais tarde, e porque os patins são raros e caros, dois rapazes partilhavam um par de patins. Cada um com o seu, patinavam lado a lado num só pé.


11  10 2010

Angola em fotos: Ruínas e riqueza

Nada melhor que uma fotografia para ilustrar como a miséria convive com a riqueza nas ruas de Luanda.

Num edifício para lá de colonial, mais a caminho de monte de escombros do que de outra coisa, a metade ocidental está vaga e sem telhado. No outro lado, uma agência bancária arrenda o rés-do-chão e fez obras de fachada, na verdadeira acepção do termo. No andar de cima, com o telhado em mau estado, aloja-se a associação de artistas angolanos, que expõe obras nas varandas.

A contemplar esta estranha combinação promíscua de riqueza e miséria está a torre da Sonangol, seráfica e majestática, como sempre.

Ruínas e riqueza
Ricas ruínas


10  10 2010

Angola em fotos: Enicar

Relojoaria Enicar
Velho letreiro, na Antiga Avenida dos Combatentes, perto do Largo Cristóvão Falcão


10 2010

Portas velhas

Sou um apaixonado por portas. São muito mais do que meras protecções contra os elementos e marcam a fronteira entre o público e o privado. Especialmente as mais antigas, porque as novas são feitas em série e todas iguais, reflectem um pouco as mãos e sensibilidade do artesão que as fez.

Nalgumas, é a própria decadência que lhes dá um certo encanto e traz uma sensação de tempos áureos há muito passados.

Alfama
Porta de Alfama

Agora que estou pelos lados de Lisboa, não perdi o hábito de andar de máquina fotográfica na mão. Passear a pé permite encontrar muitos pormenores que costuma ficar escondidos atrás das esquinas. Depressa reparei que um dos temas que mais fotografava eram as portas velhas dos edifícios decrépitos.

Vila Bertha
Na Vila Bertha

Não consigo deixar de olhar para elas e imaginar as gerações que guardaram.


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