23
10
2010
Como se aproxima a época do Natal, alguns amigos que deixei em Luanda informaram-me que a tradicional fiscalização já começou, sincronizada com as primeiras decorações de Pais Natal, renas e bonecos de neve tropicais.
Os fiscais vão de empresa em empresa, procurando não só eventuais ilegalidades passíveis de multa, mas também de formas de assegurar um subsídio de Natal mais generoso. Com a actual luta contra a corrupção, é certo que a tabela de gasosas foi devidamente corrigida, uma vez que o risco presumido passou a ser muito maior.
Os mais bem informados esclareceram-me acerca dos métodos que os fiscais usam para seleccionar as empresas que visitam. São mais simples do se poderia supor.
O primeiro resulta da tradição. Há empresas que são visitadas anualmente, quer por haver motivos legais para o fazer, quer por serem uma garantia de gratificação generosa pelos serviços prestados. As empresas falidas, que nem dinheiro para uma gasosa decente têm, recebem as multas devidas e caem no esquecimento.

Na boca do povo
O segundo método deriva da prospecção de mercado. Com milhares de empresas registadas sem moradas bem definidas ou a certeza de que ainda existam, os fiscais teriam muito trabalho para as encontrar se se limitassem a seguir uma lista. Recorrem, muito simplesmente ao jornal, mais especificamente, à publicidade. Se a empresa tem dinheiro para fazer publicidade, certamente estará suficientemente desafogada para contribuir para o bem-estar do fiscal por altura do Natal. Para além do mais, se a publicidade se destina a levar os clientes ao negócio, as mesmas indicações servem também para lá levar os fiscais, sem perder muito tempo à procura das instalações. Tempo é dinheiro, afinal de contas. E, por muito potentes que sejam os carros de luxo dos inspectores, o trânsito de Luanda não perdoa indecisões na altura de escolher o destino. Uma mudança de direcção errada significa horas desperdiçadas no engarrafamento.
22
10
2010
A loja virtual do Aerograma só estará disponível após o lançamento público do livro, que deverá ocorrer dentro de algumas semanas.
Até lá aceitam-se encomendas pelo endereço aerograma@afonsoloureiro.net.

Aceitam-se encomendas
21
10
2010
Com uma década entrada no século XXI, na Beira interior, ainda há aldeias sem água canalizada, para não falar de redes de esgotos e tratamento de águas residuais. Há certas comodidades que se dão por garantidas no mundo moderno, fazendo até parte das fórmulas de cálculo dos índices de desenvolvimento humano. O saneamento básico é uma delas.
No Concelho do Sabugal, o lugar de Quinta do Clérigo ainda está um pouco à margem deste desenvolvimento. A água canalizada limitava-se aos fontanários, abastecidos por nascentes próximas. A pouca população e a zona remota onde está a aldeia votaram-na a um quase esquecimento.
Mas os poucos que lá vivem resolveram tomar medidas e instalaram eles mesmos uma rede de água canalizada, à semelhança do que foi feito noutras aldeias. Fizeram também um furo capaz de abastecer toda a aldeia, para não depender das nascentes. Mais tarde a Câmara trataria de colocar contadores e assegurar o tratamento da água.
A obra fez-se e todos acharam ser uma grande vitória ter água em casa. A Câmara instalou os contadores, com a condição de zelar pela qualidade de água. Fizeram-se as primeiras análises e vieram as más notícias. A água que tanto tinha custado a conseguir, era imprópria para consumo. Os níveis de radioactividade eram várias vezes superiores ao limites máximos aceitáveis para ser considerada potável.
Ao que parece, o furo foi demasiado fundo, atingindo um lençol freático ao nível dos filões de volfrâmio e urânio que tornaram famosas as minas da região na altura da Segunda Grande Guerra. A água daquela profundidade nem para regar as hortas era apropriada, segundo os técnicos da Câmara.
A dos poços e nascentes, essa sim, continuava boa. Por muito que custasse, a água canalizada teria de ser adiada. A solução foi voltar aos fiéis fontanários.
Para as gentes da região a notícia não foi surpresa nenhuma. É contada não com espanto, mas com resignação; foi um azar que aconteceu. Histórias de água radioactiva são correntes e, no fundo desse vale, as ruínas das termas das Águas Radium são a prova de que, noutras épocas, não se achavam nocivas.

Ruínas das termas
Para já, não se avista solução rápida para o problema da Quinta do Clérigo e da sua rede de água canalizada radioactiva. Talvez uma nova captação, mais distante dos filões das minas ou um depósito elevado abastecido por um furo menos profundo. A ver vamos.
20
10
2010
O artigo de hoje está a ser escrito com muitas horas de atraso, como aliás tem acontecido com alguns nas passadas semanas. Os últimos passos para a publicação do livro têm ocupado muito tempo e nem sempre há vagar para me dedicar ao Aerograma electrónico.
Hoje atrasou-se especialmente devido à entrega dos livros. A tipografia terminou as encadernações e passei o dia inteiro a carregar maços de livros de um lado para o outro.
A meio do trabalho
A espera compensou. Enchi duas prateleiras da estante com os primeiros maços de livros, só para ver o efeito e não consegui evitar que um sorriso idiota me invadisse o rosto.
Está pronto
Com este marco ultrapassado, só me resta agradecer a todos os que me apoiaram e fizeram parte do percurso do Aerograma. Valeu a pena!
19
10
2010
Costuma-se dizer que as melhores histórias nascem das piores decisões. Neste caso, a história até nem é nada de especial. É, talvez, uma não-história. E a má decisão nem sequer foi minha. Aliás, é de dois desconhecidos que me recordaram outro, a meio mundo de distância.
Pouco antes do Natal de 2008, com cerca de seis meses em Angola, julgava haver já pouco com que me espantar, quando deparei com um artista pintando a fachada de uma loja. Para se proteger do Sol de Verão improvisou um chapéu com uma caixa de chá. As zungueiras faziam o mesmo com as pontas dos panos, que entalavam debaixo do alguidar onde transportavam a mercadoria.

Chapéu improvisado
Esse episódio ficou quase esquecido. Depois dele houve outros muito mais marcantes que lhe roubaram o lugar no pódio das memórias. Recordei-o no dia em que, já em Portugal, vi alguém dar retoques na pintura da fachada do prédio.

«Fica descansado que eu seguro-te»
A situação seria banal caso não se tratasse de um oitavo andar. A combinação do escadote periclitante com a janela aberta e um pintor mais pesado do que quem o segura poderia, facilmente, ter sido o início de uma notícia de jornal.
É óbvio que a pintura em Angola aguça o engenho, mas em Portugal desenvolve o assumir riscos estúpidos.