6
06
2010
Há cerca de um ano, confessei que tinha perdido a mão no Aerograma e que me limitava a transcrever o que ele me ditava, a seguir-lhe os caprichos que orientavam os temas e as descobertas. Agora, perto do encerrar do capítulo angolano, quando julgava que haveria que concentrar atenções na edição e revisão do livro, descobri que há mais para dizer, mais coisas para contar da minha experiência a sul do Equador.
Até à data, todos os artigos publicados viveram do texto, tendo as imagens sido usadas quase só para ilustração, o que significa que apenas uma ínfima parte das fotografias que registaram o meu dia-a-dia em Angola chegou a público. Tal como os muitos rascunhos que nunca deixaram de o ser, o depósito de imagens reservadas para artigos futuros foi crescendo.
Os rascunhos, como peças inacabadas que são, poderão ser abandonados à sua sorte, mas as fotografias são obras terminadas, que custa desperdiçar sem remorsos. Assim, subvertendo um pouco as regras, os próximos artigos mostrarão Angola através de fotografias tiradas ao longo dos últimos dois anos. Contarão elas as histórias que os meus olhos viram.
À beira da estrada de Calulo
5
06
2010
Deixei Angola há umas horas. Se tudo correr dentro do planeado, estarei a cruzar o equador no momento em que o último artigo diário da vida em Angola é publicado. Daqui para a frente, o Aerograma viverá de outras paragens e talvez a outro ritmo, ditado pela vontade ou disponibilidade. Angola não deixará de ser referida, quer seja recordando artigos antigos ou através de assuntos novos, porque sei que me marcou fundo e, apesar de todas as arrelias, é difícil não gostar desta terra. Angola não se explica, sente-se.
Ao longo de dois anos publiquei aproximadamente sete centenas e meia de artigos, coisa que daria para encher alguns milhares de páginas. Houve muitos que nunca passaram de um esboço e que serão apagados por estarem desactualizados, nem que seja porque a minha maneira de encarar aquele assunto mudou. Evitei, nem sempre com sucesso, repetições de temas para que a visão de Angola fosse o mais abrangente possível. Conheci muita gente interessante, cujas histórias tentei relatar, e fiz amigos que recordarei com saudade.

Passadeira vermelha
Dois anos podem não parecer muito, mas são-no. São tempo suficiente para nos mudar por dentro ou para aprender a viver uma terra nova. Regressarei com outro espírito, talvez mais empreendedor, porque o estágio angolano ensinou-me que nem sempre podemos contar com mais que nós próprios.
Por aquilo que me mostrou e ensinou, Bem-Haja Angola. E até sempre!
4
06
2010
O Aerograma mereceu destaque no Global Voices Online, uma comunidade internacional dedicada a mostrar o mundo através de blogs.
Não foi a primeira vez que o Aerograma foi citado nestas páginas, mas desta vez teve lugar de destaque, com uma entrevista.
4
06
2010
A Cabala, local da fronteira líquida no caminho para a Muxima, está a mudar. Uma ponte flutuante, feita de barcaças e pontões metálicos amarrados com correntes substituíu a velha jangada azul. O rito de passagem perdeu-se e resume-se agora a um baque-baque das chapas a vergar sob o peso dos carros entre duas estradas poeirentas.
A nova ponte
Onde a jangada circulava ergue-se o esqueleto da nova ponte, desproporcionada, que se agiganta e faz sombra à Cabala. Mais de uma centena de pilares grossos e dois grandes vãos tapam o rio e a chana a sul. Uma ponte milionária que remeterá a Cabala para a condição de povoação esquecida, um cisco no canto do olho de quem passa na estrada, muitos metros acima dos telhados.
A dimensão da ponte contrasta tanto com o resto que será difícil não imaginar as pontes que se poderiam fazer noutros sítios igualmente necessitados, se o projecto tivesse sido apenas um bocadinho menos ambicioso.
3
06
2010
Em jeito de despedida do Kwanza, aproveitei o último fim-de-semana em Angola para regressar ao santuário da Nossa Senhora da Muxima.
Ao longo de 118 km de estrada de terra batida, apenas nos cruzámos com outros dois veículos, que se avistavam à distância pelo pó que levantavam. A grande surpresa surgiu logo após o cruzamento com a estrada da Cabala, com um engarrafamento digno da capital nos últimos quatro quilómetros de caminho. Sem sabermos, a nossa visita coincidiu com uma peregrinação de dois dias que levou ao santuário milhares de pessoas.
A perder de vista
A estrada da Cabala à Muxima está em obras e, em muitos troços, interditada, pelo que se circula quase sempre numa pista paralela provisória, com muitos buracos e mais estreita. Por causa de um autocarro que avariou num estrangulamento da picada, ninguém podia passar. Ao longo do caminho que subia e descia os montes só se viam autocarros e candongueiros parados, como uma grande serpente metálica. Os peregrinos abrigavam-se do Sol à sombra dos carros, sentados no pó fino, ou em pequenas clareiras no capim das bermas.
Encravados
Com muitas opiniões sobre como seria a melhor maneira de retirar o autocarro avariado, a solução tardou, mas acabou por se conseguir abrir uma passagem e pudemos seguir viagem.
A meio da tarde, o adro já estava vazio e apenas os últimos devotos marcavam presença na igreja, como atestava o reduzido número de sapatos que ocupava os degraus da escadaria. Antes de cada missa, a igreja é varrida e lavada e os fiéis entram descalços, como numa mesquita.
O pó do caminho fica lá fora
A nave está silenciosa. Duas dúzias de mulheres reza baixinho nos bancos, segurando velas apagadas e fotografias de familiares muito amarrotadas. Outras ficam de pé, em frente ao altar, de braços abertos rezando à Senhora da Muxima, capaz das maiores graças. No chão, junto do altar, está o pagamento de uma promessa, duas grades de gasosa e um garrafão de vinho tinto.
Pedidos à Mamã Muxima
Um grupo mais pequeno é o das mulheres que andam de joelhos enquanto rezam. Ajoelham-se à entrada e pedem protecção para as pessoas de quem seguram as fotografias. Quando chegam em frente ao altar levantam-se, voltam para a porta e repete o circuito tantas vezes quantas as prometidas. Mantém os olhos fixos na imagem da padroeira e só os lábios a mexer denunciam a reza. As crianças, ainda sem perceber o que se passa, tentam subir para o colo das mães de braços abertos, e não percebem porque não lhes ligam nenhuma.
A promessa
Nas celebrações religiosas, as mulheres vestem quase todas o mesmo, como se usassem uma farda. A roupa de-ir-ver-a-Deus resume-se a um pano estampado com motivos religiosos enrolado à cintura que serve de saia, os cabelos cobertos com um lenço e uma camisa ou t-shirt brancas.
Promessa perdida
No adro, pequenos rectângulos de papel brilhante espalhados ao acaso reflectem o Sol do final do dia. São fotografias dos entes queridos que se perderam na confusão. Talvez a Mamã Muxima tenha atendido as preces.