Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

06 2010

Dia muito especial…

Que a lua e as estrelas brilhem no teu aniversário tal como tu brilhas na minha vida todos os dias!

parabens1 Google

E porque hoje a ocasião é especial e porque és tudo para mim….

Danças Comigo?

Parabéns! Mil beijos com muitos amor!


06 2010

O Kota

Pela segunda vez, comemoro um aniversário em Angola. Será longe da família, mas entre amigos, entre os angolanos que me acolheram como irmão e com quem partilhei mais do que qualquer um de nós suporia.

É por estas alturas, quando o calendário desmente o que sentimos e nos diz que o tempo não pára, que nos espantamos com a velocidade com que o último ano passou. Dois anos em Angola são dois anos em mim também, quer os sinta ou não.

Rugas e cabelos brancos
Marcas do tempo

À medida que a data se aproximava, tentei perceber com que idade me sentia e fui incapaz de a precisar. É bom saber que a nossa personalidade não necessita de um número para se definir a si mesma.

Só me apercebo realmente que já conto mais de três décadas quando me cruzo com adultos nascidos na década de 1990. Cá dentro, a minha geração estende-se a todos aqueles que nasceram até ao ano em que entrei para a escola. Todos os nascidos a seguir são crianças ou adolescentes até prova em contrário.

Talvez seja por isso que me têm chamado mais vezes de kota na altura de pedir dinheiro para controlar o carro.


06 2010

Gabela

A muitas horas de Luanda, com duas dezenas de controlos policiais pelo meio, fica a Gabela, uma pequena cidade empoleirada nos montes, de onde se espreita as nuvens por cima. A está arranjada e sinalizada, com valetas fundas para a proteger das chuvas de Verão. Só da Gabela à Quibala ainda tem um troço em terra batida, mas também esse deverá ser asfaltado em breve.

Depois de passar as Cachoeiras de Bimbe e a nova ponte, meia centena de quilómetros pela estrada que serpenteia serra acima fazem-nos embrenhar em matas densas, com pequenas povoações quase isoladas do mundo. O limite da cidade é marcado pelo imponente morro castanho à direita da estrada.

Edifício da estação de caminho-de-ferro
Estação da Gabela

Durante décadas, a Gabela foi conhecida pela produção de café, merecendo até uma linha de comboio para o levar até à costa. Em virtude de tempos conturbados, as plantações de café, que não alimentam o estômago, foram abandonadas ou substituídas por hortas de subsistência.

Cuidando do cachorro
O cachorro está cansado, por isso vai ao colo

Da linha de caminho-de-ferro, pouco mais resta que o edifício da estação e alguns troços com carris de bitola estreita. Grande parte das instalações de descasque de café foram abandonadas, mas, aos poucos, vão retomando a actividade, tal como acontece com os campos de demonstração. As encostas dos montes estão a ser limpas e os pequenos arbustos de folhas escuras a crescer à sombra das árvores altas tornaram a fazer parte da paisagem

Igreja da Gabela
Igreja Matriz

A cidade parou no tempo, com os edifícios das décadas de 1950 e 60 a dominar a arquitectura. Poucos há mais recentes e todos apresentam sinais da idade. Buracos de balas ou outras marcas da guerra são escassos e o único edifício que se pode dizer que tenha sofrido verdadeiramente com a guerra é o hotel, que foi transformado em quartel e esventrado. Quando foi desocupado, apenas as paredes e algumas caixilharias se encontravam no sítio.

Cine Amboím
Cinema

O cinema, com bilhetes de balcão, camarote e plateia, há muito que deixou de passar fitas. Resiste a fachada e os globos de vidro das lâmpadas, tudo o resto existe na memória dos filhos da Gabela.

Mosaico
Mosaico do salão de chá

Apenas a Igreja Matriz, pintada de novo, e o jardim central, fronteiro ao edifício da Administração Municipal, estão limpos e arranjados. O jardim mantém a traça colonial e conta com duas estátuas novas, uma delas o busto do primeiro Presidente da República.

Baixo relevo
Oficina automóvel

A cidade está cheia de vida, com um movimento frenético de motorizadas entre os mercados dos principais cruzamentos. Os preços das corridas variam entre os 100 e 200 kwanzas, o que faz muita gente ficar no centro quando as compras são de baixo valor.

Esplanada Royal
Esplanada Royal

No entanto, apesar de todo este bulício, tirando quem vende peças de motorizadas ou fotografias, as lojas estão vazias. A economia assenta sobretudo na venda de produtos agrícolas da região. Alguns cafés mantém as portas abertas à custa da venda de cerveja angolana e vinho português. O salão de chá do jardim central está fechado, por falta de clientes.

Piscina municipal
Piscinas abandonadas

As piscinas municipais, situadas ao lado do rio que atravessa a cidade num túnel, estão secas há décadas, como as de N’Dalatando. O seu edifício principal serve agora para segurar um dos ecrãs gigantes distribuídos pelas províncias por altura do CAN. À noite, dezenas de jovens sentam-se no terreiro em frente e assistem às novelas brasileiras quase em silêncio, não vão perder um pedaço.

Jardim central
Lago do jardim central

Durante a noite há muitas luzes que nunca se apagam na cidade, mas explicaram-me que não é esquecimento, é a falta de interruptores de substituição e electricidade de borla que leva ao recurso a ligações directas. De qualquer das formas, a energia eléctrica é cortada religiosamente às seis da manhã. Mas, à parte deste horário nocturno, o seu fornecimento tem estado estável. Novos circuitos de distribuição, quadros e contadores começam a ser montados no centro da cidade, fazendo prever uma melhoria do serviço para breve.


31  05 2010

Areeiros do 27

A povoação de Gumbe, mais conhecida por 27, marca o cruzamento da estrada de Conda com a que liga as cachoeiras de Bimbe à Gabela. Como as restantes povoações ao longo da estrada, resume-se a algumas dezenas de casas feitas de blocos de adobe da cor da terra dos pátios bem varridos.

Nos trechos mais íngremes, os rapazes aproveitam as valetas da estrada recentemente recuperada para fazerem corridas com as suas trotinetes de madeira. Quem passa de carro só vê quatro ou cinco pequenas cabeças e respectivos sorrisos a deslizar na berma.

Gumbe fica numa portela, uma passagem entre dois montes onde os declives são menos acentuados, razão pela qual aqui se juntam as estradas. Mas é também por isso que o pequeno rio Chilo, que traz água das terras graníticas da Gabela, umas centenas de metros acima, encontra aqui um percurso mais calmo e perde força. Antes de continuar a correria serra abaixo, junta-se ao Huia e deposita nestas poucas curvas grandes quantidades de areia que acaba por se tornar o motor económico do povoado.

Areia de rio a secar
Areia a secar

As lavras ficam nos montes em redor da aldeia e é para lá que as mulheres vão todas as manhãs, trepando as encostas enroladas nos seus panos coloridos. Alguns homens trabalham no rio, retirando areia dos baixios e trazendo-a em baldes para socalcos abertos junto do caminho de Conda onde a secam ao Sol. Ao fim de alguns dias a ser revolvida está pronta a ser vendida e é transportada para as bermas da estrada asfaltada.

Pilhas de areia
Expositor

A unidade de medida é a pilha, como acontece com as pedras de cabouco e os hortícolas. Os tamanhos são uniformes, apesar de arbitrários. Cones perfeitos, todos com a mesma altura e perímetro, alinham-se ao longo da estrada, esperando clientes. Os vendedores, quase sempre mulheres muito velhas, dormitam à sombra, esperando semanas a fio, com uma paciência africana, que chegue um cliente.


30  05 2010

Teoria da conspiração

Poucas horas entradas na madrugada do dia 21 de Maio de 2010, um King Air proveniente de Pointe Noire pediu autorização ao controlo de Luanda para iniciar a descida e aterrar. Estava a cerca de 70 milhas do aeroporto 4 de Fevereiro. O avião, os dois tripulantes e um passageiro desapareceram sem deixar rasto após este último contacto.

A rota entre Pointe Noire e Luanda é paralela à costa, sempre sobre o mar e, assim que o dia nasceu, iniciaram-se as buscas na última posição estimada, procurando destroços na água ou na faixa costeira, já na província do Bengo. A falta de radar não permitiu conhecer a trajectória real do aparelho, mas a protecção civil, Polícia e Força Aérea patrulharam toda aquela área de helicóptero, sem nada descobrir. O avião tinha-se eclipsado.

O bom tempo que se fazia sentir, como é habitual para a região e época, não seria motivo para que um B200 se despenhasse sem justificação. O avião tinha voado de Luanda para Pointe Noire e regressou de imediato, pelo que se adiantou uma eventual falta de combustível, caso não tivesse havido reabastecimento no Congo. Uma situação destas daria tempo ao piloto de declarar uma emergência e alertar o controlo para a aterragem ou amaragem forçada eminente. O estranho silêncio rádio que se seguiu ao pedido de autorização para aterrar descartou a hipótese. Tudo apontava para uma avaria súbita e catastrófica que tenha deixado o avião e a tripulação fora de serviço.

Caso o avião tivesse caído inteiro no mar, seria suficientemente grande para que, pelo menos, ficasse um pedaço da fuselagem à tona. A aparente ausência de destroços e o corte de comunicações indicavam uma explosão em pleno voo.

B200
King Air

Uma semana depois, sem quaisquer vestígios encontrados, com as buscas suspensas e o caso entregue às instâncias superiores, os mujimbos começaram a circular.

As ligações de Rashid, o passageiro mauritano, a altas figuras angolanas e os muitos negócios de milhões em que estava envolvido fizeram despertar dezenas de teorias para explicar o caso. O desaparecimento, puro e simples, do bimotor não podia ser a história toda. Uma bomba-relógio, por exemplo, dava um argumento muito mais emocionante, prometendo vingança servida fria, negócios pouco claros e traições, mesmo ao gosto de quem já não se surpreende com muito.

No que toca a esquemas, a imaginação angolana vai muito para lá das explicações simplistas de bombas em aviões. Começou-se logo a pensar se o avião não tinha sido convenientemente desviado num dos poucos sítios onde não há maneira de confirmar a sua verdadeira posição, desaparecendo misteriosamente. Sem radar, o controlo aéreo apenas pode confiar nas posições reportadas pelos pilotos, mas nada pode fazer se estes as falsearem.

Voando de noite, e sabendo que eventuais operações de busca só começaram após a alvorada, quem desvia o avião tem algumas horas de avanço, podendo chegar a uma pista alternativa e esconder a aeronave sem grandes preocupações. A grande questão era saber qual a pista escolhida, uma vez que poucas são as pistas secundárias com iluminação nocturna na região.

Como até mesmo as pistas secundárias têm alguma forma de controlo e alguém teria visto ou ouvido alguma coisa, esta teoria foi alterada para outra ainda mais rebuscada. Por sinal, o avião em causa é capaz de aterrar sem grandes problemas em terra batida, podendo uma estrada iluminada por alguns carros servir de pista improvisada. Os possíveis destinos cresciam exponencialmente.

E depois, lembrando-se das ligações do homem de negócios desaparecido, alguém sugeriu que o sítio ideal para fazer aterrar o avião-fantasma seria o novo aeroporto de Luanda, uma zona militar vedada e longe de tudo. As pistas inacabadas serviriam perfeitamente e o avião ficaria escondido à vista. Rashid desaparecia com os seus segredos e todos ficavam contentes.

A melhor conspiração é a que não se consegue provar e esta começa a reunir todas as condições para se tornar numa de alta categoria.


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