A muitas horas de Luanda, com duas dezenas de controlos policiais pelo meio, fica a Gabela, uma pequena cidade empoleirada nos montes, de onde se espreita as nuvens por cima. A está arranjada e sinalizada, com valetas fundas para a proteger das chuvas de Verão. Só da Gabela à Quibala ainda tem um troço em terra batida, mas também esse deverá ser asfaltado em breve.
Depois de passar as Cachoeiras de Bimbe e a nova ponte, meia centena de quilómetros pela estrada que serpenteia serra acima fazem-nos embrenhar em matas densas, com pequenas povoações quase isoladas do mundo. O limite da cidade é marcado pelo imponente morro castanho à direita da estrada.

Estação da Gabela
Durante décadas, a Gabela foi conhecida pela produção de café, merecendo até uma linha de comboio para o levar até à costa. Em virtude de tempos conturbados, as plantações de café, que não alimentam o estômago, foram abandonadas ou substituídas por hortas de subsistência.

O cachorro está cansado, por isso vai ao colo
Da linha de caminho-de-ferro, pouco mais resta que o edifício da estação e alguns troços com carris de bitola estreita. Grande parte das instalações de descasque de café foram abandonadas, mas, aos poucos, vão retomando a actividade, tal como acontece com os campos de demonstração. As encostas dos montes estão a ser limpas e os pequenos arbustos de folhas escuras a crescer à sombra das árvores altas tornaram a fazer parte da paisagem

Igreja Matriz
A cidade parou no tempo, com os edifícios das décadas de 1950 e 60 a dominar a arquitectura. Poucos há mais recentes e todos apresentam sinais da idade. Buracos de balas ou outras marcas da guerra são escassos e o único edifício que se pode dizer que tenha sofrido verdadeiramente com a guerra é o hotel, que foi transformado em quartel e esventrado. Quando foi desocupado, apenas as paredes e algumas caixilharias se encontravam no sítio.

Cinema
O cinema, com bilhetes de balcão, camarote e plateia, há muito que deixou de passar fitas. Resiste a fachada e os globos de vidro das lâmpadas, tudo o resto existe na memória dos filhos da Gabela.

Mosaico do salão de chá
Apenas a Igreja Matriz, pintada de novo, e o jardim central, fronteiro ao edifício da Administração Municipal, estão limpos e arranjados. O jardim mantém a traça colonial e conta com duas estátuas novas, uma delas o busto do primeiro Presidente da República.

Oficina automóvel
A cidade está cheia de vida, com um movimento frenético de motorizadas entre os mercados dos principais cruzamentos. Os preços das corridas variam entre os 100 e 200 kwanzas, o que faz muita gente ficar no centro quando as compras são de baixo valor.

Esplanada Royal
No entanto, apesar de todo este bulício, tirando quem vende peças de motorizadas ou fotografias, as lojas estão vazias. A economia assenta sobretudo na venda de produtos agrícolas da região. Alguns cafés mantém as portas abertas à custa da venda de cerveja angolana e vinho português. O salão de chá do jardim central está fechado, por falta de clientes.

Piscinas abandonadas
As piscinas municipais, situadas ao lado do rio que atravessa a cidade num túnel, estão secas há décadas, como as de N’Dalatando. O seu edifício principal serve agora para segurar um dos ecrãs gigantes distribuídos pelas províncias por altura do CAN. À noite, dezenas de jovens sentam-se no terreiro em frente e assistem às novelas brasileiras quase em silêncio, não vão perder um pedaço.

Lago do jardim central
Durante a noite há muitas luzes que nunca se apagam na cidade, mas explicaram-me que não é esquecimento, é a falta de interruptores de substituição e electricidade de borla que leva ao recurso a ligações directas. De qualquer das formas, a energia eléctrica é cortada religiosamente às seis da manhã. Mas, à parte deste horário nocturno, o seu fornecimento tem estado estável. Novos circuitos de distribuição, quadros e contadores começam a ser montados no centro da cidade, fazendo prever uma melhoria do serviço para breve.