Devolutos pintados
Afonso Loureiro
O último meio século de Lisboa não lhe tem sido simpático. O crescimento desordenado dos subúrbios e a reorganização da cidade em torno da circulação dos automóveis levou a que o centro ficasse despovoado, e os bairros típicos perdessem a sua alma, vazios de novas gerações.
Hoje, o centro da capital está pejado de edifícios devolutos. Esvaziados lentamente, não só por não haver habitantes suficientes na própria cidade, mas também porque se começaram a degradar e a oferecer cada vez menos condições, acabaram por ficar abandonados à sorte de quem lhes arrombava as portas durante a noite.
Há poucas décadas eram frequentes os incêndios em prédios devolutos, quase sempre causados por mendigos que neles procuravam um tecto. Nalguns casos, pairava a suspeita de fogo posto para apressar a demolição e libertar o espaço para mais uma construção de traça modernaça – feia, alta e chapeada a vidro.
Para acabar com os incêndios acidentais e evitar que os prédios devolutos servissem de abrigo para quem deseja mais do que pernoitar, passou a ser obrigatório entaipar portas e janelas até ao segundo andar. Os velhos edifícios vazios deixaram de ter os restos das portas penduradas nos gonzos. Têm agora todos os vãos revestidos a cimento e tijolo.
Degradam-se de uma forma mais discreta, primeiro com o apodrecimento do telhado, que acaba por cair, arrastando os pisos até que sobrem apenas as paredes. Apesar de tudo, o seu ar decrépito não é nada cativante. Os centros das cidades querem-se vivos, não com prédios mal embalsamados.
Na Av. Fontes Pereira de Melo
Recentemente, tornou-se moda encomendar um pouco de maquilhagem para disfarçar um pouco o ar engelhado ou espalhar cânfora pelas esquinas, na tentativa de esconder o cheiro a morte do tecido urbano.
O resultado final não disfarça o prédio devoluto, pelo contrário, agora tornou-se o centro das atenções. Mal por mal, quem por lá passava já nem lhe ligava, mas talvez tenha sido este o melhor efeito das pinturas gigantescas que adornam alguns edifícios tristemente vazios do centro de Lisboa. Agora é impossível ignorá-los.
Subscrevo inteiramente o que dizes…e Lisboa é uma cidade horrível. Quando me deparei com essa pintura fiquei a pensar como é que conseguiram fazer como p´redio nessas condições.
Por detrás de toda essa descaracterização da cidade…altos valores e interesses se levantam!