Refugiados na Sueca
Afonso Loureiro
Sempre que há uma mesa num parque, é quase certo que a dada altura do dia tenha uma pequena multidão de reformados sentados à sua volta. Quase todos usam boina ou boné e muitos deixam as bengalas encostadas a um banco, como num expositor.
Por cima da mesa há também quase sempre um pedaço de cartão. É ele que transforma a mesa de jardim numa mesa de jogo apropriada para a Sueca e Bisca Lambida.
O mais interessante é que a maioria nem é grande fã do jogo de cartas. São forçados a entrar no campeonato de Sueca porque foram postos fora de casa.
Durante toda a vida, só viam a esposa quando chegavam do trabalho. Ela agradecia porque assim podia estar sossegada. Ele agradecia, porque tinha o jantar à espera. Depois da reforma dele, ela continuou a rotina, mas ele, aborrecido até ao tutano, não a deixava em paz.
Depois de muitos «Ó homem, sai-me da frente que me empatas!» ele acaba por refugiar-se no café grande parte do dia, quase imitando o antigo horário de trabalho. Mas até isso acaba por ser aborrecido. Um dos reformados mais experientes convida-o para um jogo se Sueca com os amigos. Sempre ajuda a passar o tempo. E assim começa a sua carreira de jogador de cartas e dominós.
Quem diria que a reforma inactiva cria refugiados políticos?
Estou a ver que estás com medinho de ir para o banco do jardim jogar sueca…
Já tremo!