Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

12 2008

Olhando o céu

Afonso Loureiro

Lembro-me que, quando era pequeno, costumava maravilhar-me com o céu. Era a magia de correr a olhar a Lua e ver que ela estava sempre no mesmo sítio, a mirar-me.

As noites tinham céus escuros, cheios de pintas brancas. Aprendi a reconhecer algumas constelações. Esqueci-me delas e voltei a ser ensinado.

Depois melhoraram a iluminação do bairro. As ruas iluminadas por poucas lâmpadas fracas passaram a ser tão claras como o dia. O céu passou a ser uma massa amorfa e alaranjada. As estrelas foram-se e só a Lua persistia em vencer esta nova “escuridão”.

À medida que crescia, passava a ter cada vez menos tempo para observar o céu. Olhava para o chão, para onde punha os pés, para o degrau do combóio, para a rampa da escola, para a secretária.

Esqueci-me de como era olhar o céu. Esqueci-me das vezes em que me levantei de madrugada, só para poder ter o prazer de ver nascer o Sol. Esqueci-me da vez em que vi a Lua cheia esconder-se atrás do horizonte, por entre as oliveiras, com o Sol a despontar a Oriente.

Quando saía da cidade, já nem me lembrava de olhar para o céu. Todas as estrelas que se escondem atrás da névoa luminosa das cidades me sorriam, mas eu não dava por elas. Uma ou outra vez, por acaso, reparava nelas e ficava abismado. Eram tantas, que não as conseguia contemplar. Um céu estrelado no interior causa vertigens.

De vez em quando apercebia-me de que já não sabia o que era olhar o céu, tentar perceber os seus mistérios ou, simplesmente, deixar-me ser apenas um espectador do maior espectáculo do mundo.

A rotina atacava outra vez e o céu era esquecido. Talvez um pouco como quem deixa de ler. Não lê hoje, amanhã também não e depois dá por si sem ter lido um livro num montão de tempo.

Lutei contra este marasmo celestial. Aprendi a reconhecer outras constelações, relembrei as lendas que lhes deram o nome. Procurei estrelas conhecidas por todo o lado. Haverá algo melhor do que, numa noite de Verão, contar histórias de estrelas, deitados no asfalto quente de uma qualquer estrada secundária?

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Entardecer

Em Luanda já olhei para o céu. Também é baço. Ou é o cacimbo ou as luzes que nunca se apagam. Afastei-me da cidade, mas as constelações setentrionais ainda são misteriosas. Aos poucos, o céu voltou a ficar esquecido.

Mas um dia, voltando da Barra do D  ande, olhei, distraidamente, para o céu. Algo me prendeu a atenção. Algo de visceral, que despertou memórias de infância há muito adormecidas. Olhava para o céu e para as nuvens que ganhavam as cores quentes do final do dia. Apercebi-me de que estava a jogar o jogo mais antigo de todos, tentar adivinhar a forma que a nuvem sugeria.

Primeiro era apenas uma nuvem, mas depois contorceu-se e esticou-se em direcções improváveis.

Sorri. Tinha adivinhado a mímica nebulosa!

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Era um cãozinho!


12 2008

Barra do Dande

Afonso Loureiro

Depois de alguns passeios para o sul de Luanda, achámos que seria bom variar e ir conhecer outros sítios de que ouvíamos falar. As descrições da Barra do Dande pareciam promissoras.

Mas, tal como para a Muxima, só à terceira tentativa conseguimos lá chegar. Começo a notar um certo padrão. Chegar a algum lado parece ser um reflexo de tudo o resto. É difícil vencer a burocracia reinante. É complicado fazer qualquer coisa porque os obstáculos vencidos voltam a surgir um pouco mais à frente. Porque haveria de ser diferente nas estradas?

A primeira tentativa foi gorada no momento em que decidimos tomar a bifurcação da direita em vez da da esquerda… No meio de um trânsito caótico e apenas uma vaga ideia do caminho, demos por nós no meio de zonas com ar tenebroso e cheios de vontade de as deixar para trás. A segunda tentativa terminou de forma semelhante, numa rua sem nome que não levava a lugar nenhum.

À terceira, depois de um planeamento mais aturado, as coisas correram melhor. Cheguei à praia de São Tiago, já a caminho da foz do rio Dande.

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Acidentes aparatosos

As estradas recuperadas há pouco tempo fazem-nos esquecer que a cidade, que ficou para trás, tem muitas avenidas ainda por asfaltar. Os condutores são iguais, furiosamente agressivos, acelerando a fundo ou travando bruscamente entre cada buzinadela.

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A nossa companhia

A terra vermelha e a vegetação seca faziam o contraste ideal com o céu de postal ilustrado. Nas curvas da estrada, os embondeiros faziam-se notar. Para estes lados são menos numerosos. A paisagem é um pouco mais árida.

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Gozando o dia

Chegados ao controlo policial do cruzamento para a Barra do Dande, viramos à esquerda e o asfalto desaparece. Regressa após cinco quilómetros de estradões provisórios, com muitos buracos e lombas. Vinte minutos depois, ao fundo de uma curva larga, surge uma povoação, a Barra do Dande. Atrás dela, uma larga baía de águas verdes, com palmeiras e areia clara.

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Um dos bares da praia

Ao contrário do que acontece nas outras praias que temos visitado, esta está limpa. O pequeno restaurante que gere o espaço recolhe o lixo e assegura-se de que as coisas estão arranjadas. Há ainda umas tendas e bungalows que podem ser alugados.

Os preços são altos, mas não tanto como seria de prever. Talvez ao nível dos preços praticados nos aeroportos.

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Ao final do dia

O regresso à capital foi demorado. As filas cada vez mais compactas mostram que Luanda se aproxima. Os candongueiros tentavam ganhar lugares correndo em contra-mão ou pelas bermas. Furavam lá à frente, com mãos de fora das janelas e toques de embraiagem que faziam as iáces avançar aos sacões. Alguns condutores de corollas imitavam-nos, buzinando e fazendo sinais de luzes. Com a ânsia de chegarem mais depressa, acabam por se atrapalhar uns aos outros e chegam todos mais tarde…

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A fúria vespertina


12 2008

Cinderela eléctrica

Afonso Loureiro

Ao fim de algumas semanas de relativa estabilidade no fornecimento eléctrico, a luz voltou a faltar. Era Sábado de manhã, como de costume. Voltou lá para a noitinha, como de costume.

Como só tem faltado quando estamos a trabalhar, apenas os mostradores dos aparelhos a piscar denunciam a sua falta de comparência durante as horas de expediente. Temos tido uns serões confortáveis, com computadores e máquinas de ar condicionado a funcionar em sintonia com o frigorífico.

Tudo parecia correr bem, até ao fatídico Sábado. Já habituados a não ligar o gerador só porque sim, que a luz volta daqui a uns minutos. Desta vez não voltou tão depressa. Passada a hora do pequeno-almoço, resolvemos ir dar ao botão para ligar o gerador. O micro-ondas precisava de trabalhar.

Accionamos o circuito de socorro e baixamos a pequena alavanca que faz acordar o gerador. Uns segundos depois, o testemunho de tensão na rede deveria ter-se acendido com um ligeiro tremeluzir. Não acendeu, ou então o tremeluzir era uma espécie de tremescurecer.

Toca a descer as escadas, abrir a jaula do animal feroz que é o gerador. Está sempre de asas abertas, ameaçador. Na verdade, a gaiola onde está enfiado é demasiado pequena para que se consigam abrir as portas de acesso ao motor e foi lá instalado com ambas abertas para se encher tudo de pó.

Levanto a cobertura do painel e tento o arranque manual. Nada. Faço o pré-aquecimento das velas. A luz vermelha acende, mas vai esmorecendo. Carrego outra vez no arranque. Nada. Passo os dedos nos instrumentos, abrindo uns sulcos fundos na camada de pó que os esconde. Encontro o voltímetro que mede a tensão da bateria de arranque. Ligo-o. Menos de oito volts. Mau sinal. O gerador não arranca sozinho. Procuro um eventual arranque manual, mas sem grande esperança. Ao fim de duas voltas à máquina, concluo que não existe nenhum. Temos de esperar que volte a electricidade.

Fomos tão poupadinhos com o gerador que acabou por ficar com a bateria descarregada… Quer-me parecer que o desperdício de recursos é a lei nesta terra. Mesmo que não precises, liga a porcaria do gerador!

Umas noites depois, descobri que a electricidade de Luanda às vezes faz de Gata Borralheira. Exactamente ao bater da meia-noite a luz falhou. Não chegou a ir-se completamente, mas foi o suficiente para que a maioria dos aparelhos se desligassem. Uma subtensão que desligou as lâmpadas fluorescentes, o modem e o ar condicionado. Uma lâmpada de halogéneo manteve-se, heroicamente, a iluminar o escritório. A sua luz alaranjada, próxima da cor das abóboras, quebrava o breu. «Virou abóbora», pensei.

Alguns minutos depois, alguém achou o pé para o sapatinho perdido. A electricidade voltou!


12 2008

O primeiro pôr-do-Sol a sério

Afonso Loureiro

Com os dias de céu azul a prometer um pôr-do-Sol de estampa, haveríamos de poder apreciar um mais cedo ou mais tarde.

Ao final do dia, partimos para as praias do km 55, que são sossegadas e já não estão tão poluídas como as de Luanda. A maré estava baixa e as ondas continuavam a tentar subir o areal, como fazem desde sempre.

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Praia vazia

A transição da luz do dia para as cores pastel que o poente traz é súbita. As sombras, que se ocultavam durante o dia, começam a surgir dos seus esconderijos. Tal como os animais, apenas surgem no amanhecer e no entardecer.

Ao mesmo tempo que o Sol se escondia, a Lua espreitava no horizonte contrário. Redonda e brilhante, contrastava perfeitamente com o céu metálico.

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Contrastes

A Lua, companheira de rumbas e valsas, trouxe-me à memória todas as pequenas grandes coisas que partilhei e que agora estão em suspenso, aguardando as viagens de regresso.

A luz mais coada fez-me olhar para trás. O Sol reflectia-se no refluxo das ondas e saltitava entre as gotas da rebentação. Mais longe, mergulhava apressado no horizonte.

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Até breve

Ao fim de muitos meses em África, pude finalmente presenciar um dos seus famosos pôr-do-Sol. Já percebi a razão da sua fama.

Só é pena durarem tão pouco, mas talvez seja essa a razão porque nos cativam. Ficamos sempre com a sensação de que um pouco mais não nos faria mal nenhum e ansiamos pelo próximo, para colmatar esta falha.

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Para a mais-que-tudo

O Sol mergulhou definitivamente no mar. A Lua continuou a subir e sorriu-nos. Ela sabe!


30  11 2008

Imaginação ociosa

Afonso Loureiro

Um nosso colega brasileiro, ao cruzar-se com algumas angolanas, perguntava «o que têm estas mulheres com os decotes? É que tens sempre uns bons 30% das mamas à vista!»

Comentei que as brasileiras ainda escondem menos, nos seus bikinis microscópicos. Sorriu e começou a falar das brasileiras, que diz serem as mais bonitas do mundo, especialmente as de Floripa (Florianópolis). Fez uma pausa, pensativo e depois continua a falar das brasileiras com um sorriso que não disfarça saudade.

Um pouco mais à frente, novo grupo de mulheres, todas de vestido curto e decotes mais que generosos, fazem-no virar a cabeça e continuar «não é preciso imaginar muito…» Confirmo, vão mais despidas que vestidas.

Sou forçado a admitir, em Angola, onde todo o tipo de trabalho é para ser feito sem pressas e, de preferência, sem esforço, até a imaginação é ociosa…


04 2008

Dos arquivos: Até parece mentira…

Afonso Loureiro

No dia das mentiras recebi a primeira proposta concreta com um resumo das condições de trabalho.

Agora é preciso discutir alguns pontos, regatear valores, acertar datas. Não deve demorar muito.

Entretanto já entreguei a versão preliminar da dissertação do mestrado. Só se me sugerirem correcções é que altero alguma coisa. É só aguardar pela nomeação do júri. Dizem que demora muito tempo, mas da reitoria disseram-me que era cerca de uma semana… como estamos em Portugal, vou apostar em duas ou três.


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