Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

15  09 2011

Pensão de má fama

Fora da muralha fernandina, desde as traseiras dos ministérios do Terreiro do Paço, passado pelo Chafariz D’El-Rei, Campo das Cebolas e até às ruas em volta da estação de Santa Apolónia, há uma Lisboa esquecida. Deixou de fazer parte da vida económica e social da cidade. O porto perdeu importância e até o transporte ferroviário de mercadorias é uma sombra do que era. Sobraram as ocupações de vão de escada e a miséria.

Cidade esquecida é cidade pobre, que se degrada em todos os aspectos e ganha uma reputação tal que afasta os desconhecidos. O melhor indicador da reputação de um bairro é a qualidade das suas pensões. Em zonas manhosas encontram-se pensões manhosas. Em zonas decrépitas, pensões a cair de velhas. Mas não é frequente encontrar hotéis de luxo nos bairros esquecidos de Lisboa.

Dormidas
Pensão decrépita

Nestas ruas da Lisboa esquecida ainda se encontram algumas pensões que talvez tenham sido respeitáveis ou dignas de recomendação. Hoje nem a porta podre esconde que esses dias já passaram.


14  09 2011

Vizinhança impessoal

O símbolo do progresso de há umas décadas eram os prédios com muitos apartamentos. Quantos mais, melhor. O construtor agradecia porque o terreno custava o mesmo.

Mas com tanta gente a morar no mesmo sítio que se cruza apenas à entrada e à saída, as vizinhanças não se chegam a formar. Há apartamentos que mudam duas ou três vezes de inquilino antes de outro vizinho com eles se cruzar. Ainda por cima, com pisos todos iguais, é difícil fixar quem mora onde.

69 fracções
Campainhas ou acordeão

Alguns destes edifícios, como as famosas torres de Santo António dos Cavaleiros têm tantas fracções que acabam por criar verdadeiros bairros verticais onde ninguém se conhece.

Mas as campainhas, essas, fariam as delícias de miúdos traquinas.


13  09 2011

Solistício improvável

Li recentemente um romance histórico bem sustentado numa extensa cronologia. Deu certamente muito trabalho a investigar, mas o resultado final é bastante interessante. Há algumas inconsistências históricas nas descrições, mas perdoam-se e aceitam-se como forma de facilitar a compreensão do leitor.

No entanto, o editor e o revisor deram menos atenção à obra. Um limitou-se a corrigir gramática e ortografia, mas deixou escapar muitas coisas que o mais modesto corrector ortográfico encontraria, e o outro parece ter lido o texto na diagonal, sem levantar quaisquer objecções. Sei que é um trabalho ingrato que nunca se termina, mas esperava mais.

Entre a ocasional opinião entusiasmada e cheia de vida de personagens mortas meia-dúzia de capítulos atrás, até à troca de nomes de personagens secundárias, há de tudo um pouco.

Palácio da Vila, Sintra
Vila de Sintra

Apesar de ter gostado muito do livro, há duas pérolas dignas de destaque que me fazem sorrir. A primeira é uma personagem que arde em febre, mas tem a pele gélida. Febre indecisa ou arrepios quentes.

A segunda começa com uma longa introdução arquitectónica que garante ocorrer um fenómeno exactamente nos Solstícios – fins de Março ou fins de Dezembro. Algumas páginas mais à frente, a personagem principal assiste ao dito fenómeno, mas em Outubro. Não sei porquê, mas parece-me um pouco improvável que a Terra dê um salto tamanho para que o Solstício de Inverno ocorra por esta altura.


12  09 2011

Búzios, jarras, canas e outros comandos à distância

Começam a rarear as pessoas que se recordem de ouvir os moinhos de vento do Oeste. Moinhos a trabalhar só os recuperados pelas câmaras municipais com fins turísticos e mesmo estes só moem com visitas programadas.

Os moinhos de vento não se limitavam a decorar os montes e a fazer farinha. Davam também música a quem passava, mas especialmente ao moleiro, que podia ir a casa enquanto deixava a farinha a moer e saber se o vento mudava só pelo som que os búzios faziam. Um verdadeiro controlo à distância.

Búzios, jarras e canas
Assobiam ao vento

Para produzir o som amarravam-se várias dezenas de cabaças, peças de lata ou barro e até mesmo de cana, embora estas últimas se dissesse trazer má sorte, nos mastros e nas travadoiras, as cordas que unem as pontas dos mastros. Os canudos eram meros cones de zinco, abertos nas duas pontas. Os búzios e as jarras eram habitualmente de barro e moldados em várias capacidades. Os maiores costumavam aproximar-se dos vinte litros. Cada moinho era afinado de forma a conseguir um som harmonioso. Suspeito que um moleiro pudesse insultar um colega de profissão ao insinuar que o moinho tinha voz de cana rachada.

Para além de fazerem um barulho que variava em função da velocidade do vento e da rotação das velas, os búzios de barro absorviam humidade do ar, o que fazia o seu timbre mudar algum tempo antes de chegar uma borrasca. O moleiro sabia que tinha de recolher as velas ou reduzir o pano.

O último sistema de controlo à distância do moinho consistia num simples chocalho que se colocava na tegão com o cereal. Durante a noite, o moleiro escusava de estar sempre a acordar, subir a escada e verificar se já tinha moído tudo e a gastar as mós sem necessidade. Assim que o tegão estava vazio o chocalho caía sobre a mó e o seu barulho irritante acabava por acordar o moleiro.


11  09 2011

Fim do Verão

Sabemos que o Verão está a chegar ao fim quando as andorinhas se juntam para assistir ao pôr-do-Sol.

Andorinhas pousadas
Andorinhas à espera do ocaso


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